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Da reflexão à prática: Justiça Restaurativa inspira novos agentes do socioeducativo

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A temática da Justiça Restaurativa e dos Círculos de Construção de Paz integrou a grade de conteúdo do 7º Curso de Formação Inicial para Agentes do Sistema Socioeducativo de Mato Grosso. Assim como nas edições anteriores, a capacitação contou com a participação do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, por meio do Núcleo Gestor de Justiça Restaurativa (NUGJUR), responsável por coordenar e difundir no Estado práticas voltadas à resolução pacificada de conflitos e à construção de relações mais saudáveis nos diversos contextos sociais.

A palestrante e instrutora em Justiça Restaurativa, Claudete Pinheiro, abriu o diálogo com os novos agentes fazendo a seguinte provocação: “como você quer marcar a vida das pessoas?” . A pergunta é potente e nos faz refletir sobre o percurso que decidimos seguir ao nos relacionar com o outro, e principalmente, sobre o quanto nossas atitudes podem afetar positiva ou negativamente o dia ou a trajetória de outras pessoas.

“A forma como marcamos a vida das pessoas, seja de maneira positiva ou negativa, fica registrada na memória muito mais pelo sentimento que provocamos do que pelas palavras ou acontecimentos em si. Nós queremos marcar a vida das pessoas de forma positiva, porque nem sempre elas se lembram com clareza de acontecimentos ou conversas, mas guardam com precisão como se sentiram diante de uma experiência. Às vezes, nem lembramos o nome da pessoa, mas recordamos se ela fez algo bom por nós ou marcou nossa vida de maneira positiva. Da mesma forma, também nos lembramos de quem deixou marcas negativas. Em cada papel que assumimos na vida, temos a oportunidade de escolher de que forma vamos marcar a vida das pessoas”, frisa Claudete.

O encontro foi realizado no Centro de Atendimento Socioeducativo Masculino (CASE Masculino), de Cuiabá, e reuniu os 37 agentes convocados no último concurso público realizado pelo Governo do Estado para o preenchimento de vaga no sistema socioeducativo.

Durante a palestra, Claudete apresentou parte da estrutura do Poder Judiciário de Mato Grosso, conhecido como “Sistema Multiportas”, que disponibiliza diferentes formas de resolução de conflitos. Nesse contexto, ganham destaque o Núcleo Gestor de Justiça Restaurativa (NUGJUR), dedicado à organização e coordenação das práticas restaurativas no Estado, e o Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (NUPEMEC), responsável pelas práticas de mediação, conciliação e oficinas como Direito Sistêmico e de Parentalidade.

Segundo dados apresentados, até dezembro de 2024, o Tribunal de Justiça, em parceria com os municípios, já havia realizado mais de 4.500 Círculos de Construção de Paz, envolvendo mais de 44 mil participações. Atualmente, Mato Grosso conta com 30 leis municipais voltadas à Justiça Restaurativa e 36 termos de cooperação técnica firmados com municípios, organizações sociais e instituições.

Claudete contextualizou ao grupo que a Justiça Restaurativa, inicialmente aplicada na resolução de casos na justiça criminal, foi se adaptando e ampliando suas lentes ao longo do tempo, passando a alcançar ambientes diversos, como as escolas, as comunidades e as instituições. Podemos dizer que, na prática, a Justiça Restaurativa se sustenta em três grandes pilares: relacional (a qualidade das relações interpessoais), social (o senso de comunidade e corresponsabilidade) e institucional (as políticas e estruturas que sustentam ambientes saudáveis).

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“A Justiça Restaurativa não substitui a Justiça Retributiva, que mantém seu papel claro e necessário em muitas situações, mas oferece um caminho relacional e transformador para lidar com conflitos, um caminho dialógico, de solução pacificada para todos, e principalmente, construída e sustentada por todos”, frisou Claudete.

Com 12 anos de experiência no sistema socioeducativo, Renata Cristina Olímpio, agente de segurança no polo de Sinop e chefe da monitoria do 7º Curso de Formação Inicial para Agentes, destacou que o maior desafio da profissão não está na parte física, mas no equilíbrio emocional. Ao longo da carreira, ela afirma ter se moldado como pessoa e profissional, aprendendo a lidar com situações extremas, como ameaças e conflitos diários com adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa.

Para Renata, os Círculos de Paz são uma ferramenta essencial para que os agentes aprendam a gerenciar crises e a manter a postura equilibrada diante de circunstâncias que podem fugir ao controle. Ela reforça que, independentemente do ato infracional cometido, o tratamento deve ser igual para todos, pois o foco está no cumprimento da medida e na possibilidade de transformação. “O maior desafio do nosso trabalho não é físico, é emocional. Todos os dias somos colocados à prova diante de conflitos e precisamos decidir se vamos entrar neles ou buscar outro caminho. O ato infracional não muda nosso dever: todos os adolescentes merecem o mesmo tratamento e a mesma oportunidade de transformação. A formação inicial é só o começo, um passo para entender o universo da socioeducação e para aprender a agir com equilíbrio, mesmo quando a situação foge ao controle”.

Como experiência vivencial, os agentes participaram de Círculos de Construção de Paz, realizados pelo NUGJUR como forma de experimentar, na prática, os efeitos restaurativos do diálogo e do aprendizado mútuo.

Vinda de Guiratinga, Magda Gonçalves dos Santos Rodrigues emocionou os colegas ao compartilhar a escolha difícil de deixar, mesmo que temporariamente, a filha Cecília, de apenas seis meses, para participar da formação. Professora e futura agente socioeducativa, Magda contou que só conseguiu estar presente graças ao apoio incondicional da família, especialmente do marido, policial penal, e de familiares ligados à segurança pública. Para Magda, o amor que recebe é o pilar que sustenta sua força e o que deseja transmitir às pessoas que encontra, especialmente em momentos de fragilidade.

Ao participar do círculo, Magda experimentou pela primeira vez falar sobre seu passado nesse formato e percebeu que, mesmo antes de conhecer a prática, já havia vivido a experiência do acolhimento e da escuta em formato circular, com a sua família. “O amor é o meu pilar. É dele que vem a força para seguir e é ele que tento passar para quem está ao meu redor. Participar do círculo foi transformador, porque percebi que já ajudava a curar o outro sem nem saber que essa ferramenta existia. Agora, quero levar isso comigo para onde for, inclusive para o meu trabalho no socioeducativo”, vibrou Magda.

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Carlos Eduardo da Silva de Albuquerque Moreira, é natural de Salvador (BA), e em 2025, completa 17 anos em Cuiabá. Durante sua participação no círculo, ele dividiu com o grupo as dificuldades e mudanças pessoais que precisou enfrentar para participar da formação, como abdicar de tarefas diárias de organização da casa e abrir mão de parte da renda, após deixar a carreira de personal trainer. Apesar dos desafios físicos e emocionais da rotina, Carlos destacou a importância de valores como persistência e determinação, que o sustentam mesmo nos momentos mais difíceis.

Ao participar do círculo de paz, ele teve a oportunidade de desabafar em um ambiente seguro, refletindo sobre suas próprias atitudes e aprendendo com as experiências dos colegas, o que classificou como uma vivência transformadora. “Participar do círculo foi incrível. Dá uma mexida na gente, até chorei. É uma psicologia em grupo, um espaço seguro onde você pode desabafar sem medo, refletir sobre suas atitudes e se autoavaliar a partir das experiências dos outros. O que acontece ali não sai dali, e isso faz você sair leve, com mais clareza e força para seguir em frente”.

Larissa Fernanda Torres de Arruda Nogueira, natural de Cuiabá, compartilhou a experiência de conciliar a formação no 7º Curso de Agentes do Sistema Socioeducativo com a vida familiar. Ela chamou a atenção para o esforço emocional de se afastar do convívio diário com o filho, enfatizando que a dedicação ao curso é uma oportunidade de aprender a se doar ao outro e desenvolver empatia, especialmente no trabalho com adolescentes.

Larissa também explicou como se envolveu com a Justiça Restaurativa durante a graduação em Direito, percebendo seu potencial preventivo e humanizado na resolução de conflitos familiares, principalmente em casos de divórcio. Para ela, a prioridade deve ser o cuidado com a criança, garantindo que o conflito entre os pais não afete o bem-estar dos filhos.

A agente destacou a perseverança como valor central em sua vida, capaz de sustentar sua motivação diante de desafios pessoais e profissionais, e ressaltou que a participação nos círculos permite aprender com a experiência do outro, cultivando empatia, coesão e respeito. “O mais gratificante desse curso é focarmos o olhar na humanidade do adolescente, e não no ato infracional cometido por ele. A Justiça Restaurativa me mostrou que podemos prevenir conflitos e reduzir impactos negativos na vida das crianças, olhando primeiro para elas antes de resolver disputas entre os pais. A perseverança é o valor que me sustenta todos os dias e me faz seguir em frente, mesmo diante dos desafios”.

Autor: Naiara Martins

Fotografo:

Departamento: Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa – NugJur

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude

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Foto horizontal dos anos 1990 que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete abraçado com a filha Érica, que tinha cerca de 10 anos na foto. Ela era uma menina de pele clara com longos cabelos loiros e cacheados.

Das histórias de tantas crianças e adolescentes que ajudou a reescrever, enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete da Silva, atualmente lotado na Comarca de Várzea Grande, encontrou em uma de suas diligências, em 1990, a primeira página de sua própria jornada enquanto pai.

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.

Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.

Já estava escrito

“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.

Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.

“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.

A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.

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Foto vertical antiga que mostra o agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete, com a ex-mulher, duas filhas e o filho ainda crianças, em uma festa. Eles posam sorrindo para a foto.Legado construído com exemplo

Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.

Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.

Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.

Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.

Apoio incondicional

Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.

Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

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Imagem quadrada gerada com auxílio de inteligência artificial que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete e sua filha Érica abraçados, com um fundo verde de um parque. Ele é um homem pardo de cabelo grisalho e ela uma jovem branca e loira.

Há oito anos morando na Europa, Érica afirma ser difícil estar longe da família, especialmente em datas comemorativas, como o Dia dos Pais, mas que a única palavra que vem à sua mente nessas horas é gratidão. “Quero que ele saiba que é o melhor pai do mundo, que eu sou muito grata a ele por cada gesto, por cada abraço. Minha maior certeza na vida é que eu amo muito ele. Mesmo distantes fisicamente, graças a Deus somos muito próximos, pois, de certa forma ele me deu a vida”, assevera Érica.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.

Adoção

Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.

Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.

Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.

Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.

Celly Silva

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

[email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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