AGRONEGÓCIO
Produção de lã no Brasil: desafios do presente e perspectiva tecnológica para um setor em crise
Publicado em
5 de novembro de 2024por
Da Redação
Historicamente, quando pensamos a partir da geografia regional e das condições materiais de produção em suas distintas esferas, percebe-se que a produção de lã no Brasil teve papel elementar no desenvolvimento das regiões Sul e Sudeste, em que a criação de ovinos favoreceu a economia local e a fixação de comunidades rurais em seus territórios.
Nesse sentido, com importância na confecção de tecidos, a lã era essencial na indústria têxtil nacional até a popularização de fibras sintéticas. Na contemporaneidade, embora menos significativa em termos de volume, a produção de lã, em termos mais gerais, possui um foco maior na sustentabilidade e na produção ética, atendendo a uma demanda crescente por produtos naturais e de baixo impacto ambiental.
Assim, a lã brasileira se posiciona como um produto diferenciado no mercado global. No entanto, atualmente, o setor de lã enfrenta uma crise significativa no Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, estado que concentra a maioria da produção nacional. A retração do mercado, influenciada pela diminuição da demanda chinesa, impactou o lucro dos criadores de ovinos.
Grande parte da exportação brasileira segue para a China indiretamente, passando primeiro pelo Uruguai. Esse contexto de dependência externa leva os produtores brasileiros a buscar alternativas para valorizar o produto local.
A Pesquisa Pecuária Municipal, do IBGE (2022), revelou que o Brasil tosquiou cerca de 2,9 milhões de ovinos, sendo que 94% destes animais estavam concentrados no Rio Grande do Sul. Ainda assim, a produção, que atingiu 8,8 mil toneladas naquele ano, apresentou queda acentuada na comparação com a década passada.
Em 2023, o país exportou apenas 4,8 mil toneladas, com um valor total de US$ 8,7 milhões. Esse montante encontra-se muito abaixo dos valores de 2013, quando as exportações alcançaram quase o dobro do volume, com uma receita de US$ 33,7 milhões e um preço médio de US$ 3,53 por quilo. Hoje, os preços médios mal chegam a US$ 1,81 por quilo, tornando a atividade economicamente inviável para muitos produtores.
Para a ovinocultura brasileira recuperar sua viabilidade econômica, o preço da lã precisaria atingir ao menos US$ 4 por quilo, segundo Edemundo Ferreira Gressler, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos. Esse valor garantiria uma margem de lucro estável aos criadores, especialmente em um mercado no qual somente a lã de alta qualidade atinge preços em torno de US$ 2.
A crise, portanto, exige dos produtores brasileiros um esforço constante para agregar valor e reduzir a dependência do mercado chinês, apontando para a importância de estratégias como a criação de marcas e o fortalecimento da produção local.
Qual o papel da tecnologia como ferramenta de transformação e superação da crise?
Em tese, assim como em demais áreas que envolvem o campo e suas práticas, a tecnologia desempenha papel fundamental na expansão do setor de lã no Brasil, especialmente por meio da melhoria das condições de manejo e saúde dos ovinos.
A aplicação de conhecimentos tecnológicos já disponíveis pode otimizar diversos aspectos da ovinocaprinocultura, como a adequação do animal ao seu ambiente e a melhoria do desempenho reprodutivo.
Nessa perspectiva, para que os animais expressem seu potencial genético, é essencial garantir condições adequadas de saúde e nutrição. Isso envolve não apenas a implementação de práticas de manejo mais rigorosas, mas também o uso de tecnologias de monitoramento da saúde e do comportamento dos rebanhos, que podem resultar em uma produção mais eficiente e na obtenção de peles de alta qualidade.
Por conseguinte, outro aspecto é a ênfase na criação a pasto e o uso de cercas apropriadas, que resultam em peles com maior qualidade. A adoção de tecnologias que promovam uma alta taxa de reprodução, controle de ectoparasitas e manejo nutricional pode aumentar a produtividade e reduzir os custos.
No fim, investir na qualificação da mão de obra é igualmente importante, uma vez que trabalhadores bem treinados são capazes de aplicar as técnicas e tecnologias necessárias para otimizar a produção. A combinação dessas estratégias tecnológicas e práticas de manejo pode ser uma excelente estratégia para produzir lã de alta qualidade, tornando o país mais competitivo no mercado global, assim como foi alguns anos atrás.
Fonte: Conversion + Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Crédito para silos terá juros de 8% em país com gargalo crescente
Published
6 horas agoon
18 de agosto de 2026By
Da Redação
Produtores e cooperativas que pretendem construir, ampliar ou modernizar armazéns já conhecem as condições do Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) para o ano agrícola 2026/27. O crédito, porém, ainda não pode ser contratado: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) informa que a data de abertura dos pedidos será comunicada posteriormente às instituições financeiras.
Projetos de armazenagem de grãos com capacidade de até 12 mil toneladas terão taxa prefixada de até 8% ao ano. Nos demais empreendimentos enquadrados no programa, os juros poderão chegar a 9,5% ao ano.
O limite é de R$ 50 milhões por produtor e por ano agrícola para armazenagem de grãos. Para cooperativas de produção, o teto sobe para R$ 200 milhões. Nos projetos destinados a outros produtos financiáveis, o máximo é de R$ 25 milhões. A participação do BNDES pode alcançar 100% dos itens aprovados.
O prazo de pagamento será de até dez anos, com carência máxima de dois anos. As garantias serão negociadas entre o interessado e a instituição financeira credenciada. O programa ficará vigente até 30 de junho de 2027.
Além dos grãos, o PCA permite financiar armazéns e câmaras frias destinados a frutas, tubérculos, bulbos, hortaliças, fibras, açúcar e determinados derivados. Também podem ser apoiadas reformas, ampliações e modernizações, desde que os equipamentos atendam aos critérios estabelecidos pelo banco.
As novas condições são divulgadas em um momento de pressão crescente sobre a infraestrutura. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a produção brasileira de grãos da safra 2025/26 em 360,8 milhões de toneladas. Já a capacidade útil de armazenagem alcançou 233,8 milhões de toneladas no segundo semestre de 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A diferença entre os dois números, contudo, não representa automaticamente o déficit nacional. A produção ocorre ao longo de diferentes safras, e uma mesma estrutura pode receber e expedir mais de um lote durante o ano. Parte dos grãos também segue diretamente para indústrias, portos e consumidores. Ainda assim, a distância entre o crescimento das colheitas e a expansão dos armazéns revela um gargalo estrutural.
Entre 2010 e 2025, a capacidade estática brasileira cresceu, em média, 2,8% ao ano, enquanto a produção avançou 5% ao ano, segundo levantamento do Observatório Nacional de Transporte e Logística, ligado à Infra S.A. Com base na produção de 2023/24, o estudo calculou um déficit potencial de 88,5 milhões de toneladas.
A situação varia fortemente entre as regiões. Naquele levantamento, o Sudeste apresentava capacidade equivalente a 126,8% da produção regional, beneficiado principalmente pela estrutura existente em São Paulo. O Sul atingia 88,2%. No Centro-Oeste, principal região produtora do país, a proporção caía para 57,9%. Nordeste e Norte apresentavam os menores índices, de 54,2% e 45%, respectivamente.
Mato Grosso mostra com clareza essa contradição. O Estado possui a maior capacidade instalada do Brasil, com 64,2 milhões de toneladas, segundo o dado mais recente do IBGE. Mesmo assim, por liderar a produção nacional de soja e milho, apresentou no estudo da Infra S.A. a maior necessidade absoluta de armazenagem, estimada em aproximadamente 40,9 milhões de toneladas.
Goiás aparecia com carência próxima de 13 milhões de toneladas. Bahia, Maranhão, Tocantins e Piauí também estavam entre os pontos de maior pressão, refletindo o crescimento da produção em áreas nas quais a infraestrutura não avançou na mesma velocidade. No Sul, apesar da situação comparativamente melhor, Paraná e Rio Grande do Sul ainda registravam insuficiência de capacidade.
Para o produtor, o silo próprio pode reduzir a dependência de armazéns de terceiros, evitar filas durante a colheita e permitir que a venda seja feita em um momento mais favorável. A estrutura também pode diminuir gastos com transporte emergencial e perdas de qualidade.
A decisão exige, porém, um cálculo que vá além da taxa de juros. Construção, secagem, energia, manutenção, seguro, mão de obra, licenciamento e capacidade de utilização ao longo do ano interferem no retorno do investimento. Com as condições já divulgadas, o próximo passo será a abertura efetiva das contratações pelo BNDES.
Fonte: Pensar Agro
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