AGRONEGÓCIO

Agronegócio: setor inicia 2024 menos otimista, após fartura de 2023

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As exportações do agronegócio brasileiro bateram recorde de US$ 139,58 bilhões nos dez primeiros meses de 2023. O crescimento foi superior a 3% em valor e de quase 10% em volume na comparação com o mesmo período de 2022.

Os principais impulsionadores dessa alta foram os setores do complexo soja, sucroenergético e de cereais, farinhas e preparações.

A Ásia foi o principal destino desses produtos brasileiros, com US$ 74,60 bilhões em exportações; seguida pela União Europeia, com US$ 18,43 bilhões. A China – maior parceiro comercial do Brasil – absorveu US$ 51,10 bilhões em exportações. Para Miguel Daoud, o agronegócio vai ter mercado, mas os problemas internos com relação a infraestrutura, câmbio e juros serão os maiores entraves. Ele lembra que o país é um grande exportador de commodities.

“Exportamos minério de ferro, soja, milho, algodão, café, carnes…”, elenca, ressaltando que, nas últimas duas décadas, a China foi o país que mais demandou volume de alimentos no mundo e o Brasil conseguiu atender a essa demanda. “Isso fez o agronegócio crescer. Havia uma demanda no mundo, puxada pela China, maior que a oferta, com tendência de preços subindo. Hoje, esse cenário mudou. As taxas de juros eram praticamente negativas e os investidores apostavam no mercado dessas commodities. Com a elevação da taxa de juros, os investidores, que dão sustentação aos preços, saem. O preço cai e os insumos ficam mais caros por outras questões”, pontua.

“Preços vão continuar deprimidos”

Nesse cenário, o analista prevê que o Brasil pode ter problemas em 2024, em relação à formação de preços das commodities. “Os custos vão continuar altos, os preços vão continuar deprimidos e a deficiência em logística acaba encarecendo os custos. Vejo a questão dos preços e custos dos produtos agropecuários com dificuldade de superar as duas décadas passadas. Temos pela frente uma dificuldade, já que somos meros exportadores de commodities”, avalia.

Segundo ele, outro entrave pode ser o ajuste das políticas fiscais que o país vem fazendo. “O Brasil vai ter muito espaço para investimento e o Real pode ter uma forte valorização. Com isso, a paridade de troca, em relação às exportações, fica comprometida. É mais um desgaste da balança de quem exporta pela questão cambial, em função de uma valorização do Real decorrente da atratividade pelos investimentos.”

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Já em relação à taxa de juros no país, ele acredita que vai continuar caindo. “Mas não vai ser uma queda grande, porque temos uma dívida muito alta. Vai cair, mas não a ponto de aliviar a relação dívida/PIB no curto prazo. Então, investir em produção vai continuar sendo caro.”

IBGE prevê queda

A safra brasileira de grãos, cereais e leguminosas deve ficar em 308,5 milhões de toneladas em 2024, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para a produção agrícola brasileira no ano.

Caso a projeção se confirme, a safra será 2,8% menor, o que equivale a 8,8 milhões de toneladas a menos em relação à estimativa de 2023, de 317 milhões de toneladas, segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) feito em outubro e também divulgado em novembro pelo IBGE.

A queda de 2023 para 2024 deverá ser influenciada principalmente pelas lavouras da soja, com previsão de queda de 1,3%, ou menos 2 milhões de toneladas, e de milho, que deverá recuar 5,6%, ou menos 7,3 milhões de toneladas.

Os dois produtos também deverão ter queda na área colhida, de 0,6% e 0,4% respectivamente. Já a cultura do arroz tem alta estimada de 2,5% na produção, com aumento de 4,5% na área colhida.

Eventos climáticos

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informa que, considerando a previsão dos modelos climáticos e a permanência do fenômeno El Niño, o impacto na safra de verão precisa ser avaliado.

De acordo com o instituto, o clima no Brasil não é influenciado apenas pela atuação do El Niño, já que outros fatores também interferem nas condições meteorológicas. Isso faz com que a previsão climática nas regiões produtoras mereça atenção.

Na região que engloba áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a chuva ficou abaixo da média em outubro e novembro de 2023, mantendo os níveis de água no solo muito baixos, o que prejudicou as fases iniciais dos cultivos de verão.

O Inmet aponta que, nos próximos meses, a umidade tende a continuar baixa, persistindo as condições de déficit hídrico e de aumento da evapotranspiração devido às altas temperaturas.

No Brasil Central, o retorno da chuva, na segunda quinzena de dezembro, contribuiu para aumento dos níveis de água no solo em algumas áreas, informa o Inmet. Esse cenário tem sido importante para a retomada do plantio e desenvolvimento dos cultivos de primeira safra, à exceção do Norte de Minas Gerais, onde os níveis de água no solo estão mais baixos.

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Há, porém, a previsão de chuva regular para os próximos meses, o que pode contribuir para a recuperação dos níveis de água no solo, favorecendo as culturas em estágios de maior necessidade hídrica.

Estação das chuvas

Já os volumes de chuva previstos para a Região Sul devem manter os níveis de água no solo elevados. A diminuição do volume de chuva em relação aos meses anteriores pode favorecer a retomada da semeadura das culturas de primeira safra em regiões que estão em atraso.

O analista econômico-financeiro Miguel Daoud acredita que é muito cedo para falar em perda da produtividade relacionada ao clima. “O clima pode ter uma posição de complexidade, mas acredito que não fará o produtor rural perder muita produtividade e, consequentemente, a rentabilidade. O clima vai ser um fator para se preocupar, mas pelas análises meteorológicas para 2024, temos uma situação que pode amenizar um pouco esse cenário.”

Juros influem na produtividade

O Ministério da Agricultura e Pecuária comemorou o lançamento do maior Plano Safra da história do Brasil, em 2023. Segundo a pasta, no total foram R$ 364,2 bilhões em crédito rural para a agricultura empresarial, dos quais R$ 101,5 bilhões equalizados pelo Tesouro Nacional, com previsão de impacto orçamentário de R$ 5,1 bilhões para subvenção do crédito.

Analista econômico-financeiro especializado no agro, Miguel Daoud explica que há vários canais de financiamento, com juros livres e subsidiados. “Para os subsidiados, o governo tem posto, em média, R$ 10 bilhões.

Os demais vêm de depósito compulsório e o restante, o produtor pega em juros médios. Hoje, o custo do produtor nos juros médios está na casa de 18%, que é muito alto.” Para ele , o governo não terá condições para melhorar o custo do produtor rural com o plano.

Fonte: Estado De Minas

Fonte: Portal do Agronegócio

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AGRONEGÓCIO

Pesquisas preparam agro para mercado de carbono que já gera R$ 556 bilhões por ano

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Pesquisas realizadas por universidades e pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) começam a dimensionar quanto o campo brasileiro pode reduzir de emissões e retirar de carbono da atmosfera por meio da recuperação de pastagens, do plantio direto, da rotação de culturas, dos sistemas integrados e do uso de microrganismos. Além do efeito ambiental, os resultados ajudam a construir as bases técnicas para a futura participação dos produtores no mercado de carbono.

As pesquisas ganham cada vez mais importância, dado o tamanho crescente do mercado mundial de carbono. Segundo o Banco Mundial, os sistemas de precificação de carbono geraram mais de R$ 556 bilhões em receitas públicas no mundo em 2025, considerando a conversão pela Ptax mais recente. O resultado reúne a arrecadação com impostos sobre emissões e sistemas regulados de comércio de carbono. Atualmente, 87 instrumentos desse tipo estão em funcionamento e alcançam pouco mais de 29% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Uma dessas pesquisas reuniu cientistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), da Embrapa Agricultura Digital e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). O estudo conjunto, publicado em 2026 na revista científica Nature Communications, estimou que a conversão de áreas naturais para uso agropecuário retirou aproximadamente 1,4 bilhão de toneladas de carbono dos solos brasileiros.

O volume equivale a cerca de 5,2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono. A estimativa foi calculada com base em 4.290 registros reunidos por 372 estudos realizados ao longo de três décadas, com informações dos seis biomas brasileiros.

Os pesquisadores chamam essa diferença de “dívida de carbono”: o espaço existente entre o estoque encontrado na vegetação nativa e o mantido atualmente nas áreas produtivas. Isso não significa que todo o volume possa ser recuperado, mas indica que o manejo pode devolver ao solo parte da matéria orgânica perdida.

Os resultados variam conforme o bioma e o sistema produtivo. No Cerrado, a substituição da monocultura por sistemas integrados apresentou potencial teórico de elevar em 15,3% o estoque de carbono no solo. Na Amazônia, a adoção da rotação ou do consórcio de culturas pode proporcionar incremento de 14,1%.

Parte desse potencial já foi observada em experimentos de campo. Em Sinop, no norte de Mato Grosso, a Embrapa Agrossilvipastoril e o Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP) acompanharam durante quatro anos diferentes combinações de lavoura, pecuária e floresta.

Ao final do período, todos os sistemas avaliados apresentaram remoção de carbono superior às emissões contabilizadas. O melhor resultado foi registrado na integração pecuária-floresta, com saldo de 51,3 toneladas de dióxido de carbono equivalente por hectare. Na integração lavoura-pecuária-floresta, a diferença chegou a 39,5 toneladas por hectare.

Os valores correspondem ao resultado acumulado nos quatro anos, e não a uma taxa anual. As árvores armazenaram carbono nos troncos, galhos e raízes, enquanto as pastagens bem manejadas contribuíram para ampliar a matéria orgânica do solo. O aumento da produtividade também reduziu a emissão calculada por quilo de carne produzido.

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Outro acompanhamento da Embrapa foi realizado na Fazenda Santa Brígida, em Ipameri, Goiás. A propriedade começou a adotar sistemas integrados em áreas de pastagens degradadas em 2006, combinando plantio direto, rotação de culturas, braquiária, milho, soja, pecuária e árvores.

Nos primeiros seis anos, o teor de matéria orgânica na camada de até 20 centímetros do solo passou de 1,8% para 2,8%. O aumento correspondeu à incorporação de mais de 11 toneladas de carbono orgânico por hectare.

O resultado ambiental ocorreu junto com o aumento da produção. A produtividade do milho saiu de aproximadamente 80 para 180 sacas por hectare, enquanto a produção de carne passou de duas para até 16 arrobas por hectare. O caso mostra que a recuperação do solo e o aumento do estoque de carbono podem acompanhar a elevação da produtividade.

Na pecuária, a Embrapa Gado de Corte desenvolveu os protocolos Carne Carbono Neutro e Carne Baixo Carbono. O primeiro utiliza árvores plantadas em sistemas integrados para compensar o metano liberado pelos bovinos durante a digestão.

Experimentos indicaram que cerca de 200 árvores em crescimento por hectare podem armazenar carbono suficiente para neutralizar as emissões anuais de metano entérico de 11 bovinos adultos. Isso não significa, porém, que toda a propriedade seja automaticamente neutra. A conta completa precisa incluir fertilizantes, combustível, energia, manejo do solo e todas as demais fontes relevantes de gases de efeito estufa.

Nas lavouras, outra frente de pesquisa utiliza microrganismos para reduzir a dependência de fertilizantes nitrogenados. A fixação biológica de nitrogênio, desenvolvida e aperfeiçoada no país por instituições como a Embrapa Agrobiologia e a Embrapa Soja, permite que bactérias associadas às raízes forneçam às plantas o nutriente retirado do ar.

Na soja, essa tecnologia praticamente elimina a necessidade de aplicação de nitrogênio mineral. A Embrapa estima que a substituição do fertilizante pela ação das bactérias evite a emissão de aproximadamente 12 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente por ano. A redução ocorre tanto na fabricação e no transporte do insumo quanto pela menor liberação de óxido nitroso no solo.

Essas medições ganham importância com o avanço dos mercados de carbono. Nesse sistema, cada crédito representa, em regra, uma tonelada de dióxido de carbono equivalente que deixou de ser emitida ou foi removida da atmosfera. O ativo pode ser comprado por empresas que precisam cumprir obrigações legais ou que assumiram voluntariamente metas de redução.

O mercado mundial está dividido entre sistemas regulados, nos quais governos estabelecem limites de emissão, e mercados voluntários, formados por negociações realizadas sem obrigação legal. Em 2026, o Banco Mundial contabilizou 87 políticas de precificação de carbono em funcionamento, sete a mais do que no ano anterior. Esses instrumentos alcançavam pouco mais de 29% das emissões globais de gases de efeito estufa.

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A quantidade de créditos emitidos no mundo cresceu 8% entre 2024 e 2025, mas os preços médios recuaram. Projetos considerados mais confiáveis, com metodologias robustas e maior segurança sobre a permanência do carbono, continuaram recebendo valores superiores. Isso mostra que não basta afirmar que uma propriedade captura carbono: é necessário provar o resultado.

No Brasil, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE) foi criado pela Lei nº 15.042, de 2024. A produção agropecuária primária e a infraestrutura diretamente associada aos imóveis rurais ficaram fora das obrigações impostas pelo mercado regulado.

A exclusão impede que o produtor seja obrigado a entregar cotas por causa das emissões da atividade primária, mas não o afasta das oportunidades econômicas. Projetos rurais poderão gerar créditos de carbono e, quando atenderem aos critérios oficiais, Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões, conhecidos pela sigla CRVE.

Para isso, será necessário adotar uma metodologia reconhecida, estabelecer quanto carbono havia antes do projeto, medir a redução ou a remoção obtida, demonstrar que o resultado não ocorreria sem a iniciativa e passar por verificação independente. Também será preciso garantir que o mesmo benefício ambiental não seja vendido ou contabilizado duas vezes.

O mercado regulado brasileiro ainda está em implantação. A proposta apresentada em 2026 prevê o início gradual do monitoramento, relato e verificação das emissões a partir de 2027, inicialmente em setores industriais e no transporte aéreo. As metodologias aceitas para transformar reduções e remoções em certificados oficiais ainda dependem de regulamentação.

Esse processo explica por que a pesquisa será determinante para a entrada do agro no mercado. Resultados obtidos em uma propriedade não podem ser transferidos automaticamente para outra, mesmo quando os sistemas produtivos parecem semelhantes. O estoque de carbono muda conforme o tipo de solo, o clima, a cultura, a profundidade analisada e o histórico de manejo.

Também é necessário diferenciar estoque, remoção e emissão evitada. Encontrar carbono em uma camada profunda do solo não demonstra, isoladamente, que ele tenha sido retirado da atmosfera pelo manejo atual. A comprovação exige uma linha de base, repetição das coletas ao longo dos anos e o desconto de todas as fontes relevantes de emissão.

A pesquisa brasileira avança justamente nessa direção. O objetivo não é apenas mostrar que o solo, as árvores e os microrganismos armazenam carbono, mas calcular quanto permanece, por quanto tempo e sob quais condições. Quanto mais confiável for essa medição, maior será a possibilidade de transformar o benefício ambiental em produtividade, acesso a mercados e renda adicional para o produtor.

Fonte: Pensar Agro

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