Tribunal de Justiça de MT
Desembargadora Clarice destaca a Justiça Restaurativa na transformação da ambiência institucional
Publicado em
14 de novembro de 2025por
Da Redação
Durante o Seminário “Justiça Restaurativa na Educação e na Ambiência Institucional”, realizado pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) nos dias 13 e 14 de novembro, a presidente do Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (Nugjur) e anfitriã do evento, desembargadora Clarice Claudino da Silva, conduziu o painel “Justiça Restaurativa e Ambiência Institucional: restaurando relações no ambiente de trabalho”.
Em uma fala marcada pela proximidade com o cotidiano das unidades judiciais, a magistrada reforçou a importância de construir ambientes de trabalho mais saudáveis, colaborativos e humanizados. Ao abordar a ambiência institucional, a desembargadora destacou que cada setor do Tribunal carrega uma “energia própria”, resultado direto da qualidade das relações entre servidores, gestores e magistrados.
Segundo ela, ambientes pesados costumam refletir conflitos não resolvidos, conversas interrompidas, silêncios acumulados e competições internas que, com o tempo, fragilizam vínculos e impactam o bem-estar das equipes. A desembargadora enfatizou que o cuidado, a presença genuína e o diálogo franco são fundamentos da Justiça Restaurativa e devem orientar o cotidiano das unidades. “O adoecimento da equipe é um sinal de alerta. Relações rompidas não se consertam sozinhas, precisam ser trazidas à consciência, cuidadas e restauradas”, afirmou.
Ela também ressaltou a necessidade de cada servidor reconhecer sua própria responsabilidade no ambiente em que trabalha. “A Justiça Restaurativa nos convida a trocar a lente. Antes de cobrar que o outro mude, é preciso identificar o que eu posso transformar em mim.” Clarice lembrou ainda que a Justiça Restaurativa não é apenas um método, mas uma filosofia de vida, fundada em verbos como perceber, cuidar e restaurar, e que a prática dos círculos de construção de paz permite conhecer verdadeiramente as histórias dos colegas, quebrar muros invisíveis e fortalecer vínculos que sustentam um clima institucional mais leve e cooperativo.
O sucesso do programa Servidores da Paz e a presença de facilitadores formados em todas as comarcas foram destacados como pilares que têm impulsionado melhorias nas relações de trabalho e nos indicadores do Tribunal.
No momento aberto ao público, a servidora e facilitadora de Círculos de Paz, Jéssyka Lindaura Crisóstomo Sodré, da Comarca de Várzea Grande, abriu a rodada de perguntas compartilhando as dificuldades de consolidar uma cultura de sigilo e confiança em sua comarca. Ela descreveu situações em que vivências compartilhadas em círculos acabaram repercutindo em conversas informais, gerando resistência de servidores inseguros em participar de novos encontros. Em resposta, a desembargadora enfatizou que a resistência humana ao novo é natural, uma forma de defesa diante do desconhecido. Relembrou a metáfora da “caverna de Platão” para ilustrar que alguns preferem permanecer no desconforto conhecido a enfrentar a mudança. Reforçou que o círculo deve ser sempre um ambiente protegido e que o descumprimento do sigilo não é motivo para desânimo dos facilitadores. Pelo contrário, a postura consistente e ética de quem conduz o processo é capaz de contagiar outras pessoas e restabelecer a confiança.
Na sequência, a juíza Paula Saide Biagi Messen Mussi Casagrande, coordenadora do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) de Sorriso, trouxe outra dimensão do processo de expansão dos Círculos: a resistência dos servidores em aderir à metodologia, mesmo quando convidados e orientados sobre os benefícios. A desembargadora explicou que esse obstáculo é comum em diferentes comarcas e ressaltou a importância do apoio dos juízes diretores de foro para liberar servidores e garantir condições favoráveis à participação. Apresentou também uma estratégia que tem gerado bons resultados, que é a realização de círculos com temas mais leves e coletivos, evitando, inicialmente, assuntos íntimos que possam gerar algum tipo de receio. E acrescentou, como sugestão, a criação de um calendário fixo de círculos, com temáticas atrativas, que permitam uma construção gradual e organizada das práticas restaurativas no ambiente.
A provocação seguinte foi feita pela Instrutora em Justiça Restaurativa e Estrategista em Inteligência Relacional, Katiane Boschetti da Silveira, que abordou a relação entre liderança, ambiência de trabalho e gestão do tempo. Ela destacou que lideranças restaurativas são responsáveis por grande parte do engajamento das equipes, mas enfrentam o desafio permanente de lidar com metas, prazos e sobrecarga. Perguntou como é possível, na prática, desenvolver um olhar restaurativo diário, diante de um ritmo tão acelerado.
A desembargadora reconheceu o tamanho desse desafio e classificou a administração do tempo como um dos problemas mais críticos no ambiente do Judiciário. Mencionou que assessores e servidores frequentemente são pressionados como “máquinas de produção”, especialmente em gabinetes, e que a chegada da inteligência artificial tem ampliado o risco de desumanização das relações de trabalho. Destacou que a liderança restaurativa é, justamente, a que rompe esse ciclo ao reconhecer habilidades individuais, distribuir tarefas com equidade e desenvolver ambientes saudáveis. Para isso, líderes precisam investir tempo em ouvir, observar e compreender as singularidades de cada membro da equipe, sendo essa a única forma de evitar adoecimento, frustração e baixa produtividade.
O debate se ampliou com a reflexão do desembargador Ricardo Almeida, que enfatizou o papel do altruísmo na Justiça Restaurativa. Para ele, em meio às pressões diárias, é comum que as pessoas se afastem do que realmente importa: a oportunidade de contribuir com a vida do outro. Destacou que quem se doa também se fortalece e propôs uma metáfora inspiradora, em que cada pessoa pode ser “sol”, oferecendo luz ao ambiente, ou “lua”, refletindo a luz que recebe. Ambas as posições são legítimas e essenciais para o fortalecimento da rede restaurativa, sobretudo na identificação e incentivo de novas lideranças.
A participação final veio do presidente da Associação Mato-grossense dos Pais de Alunos das Escolas Públicas e Particulares (Assomapa), André Martins, que trouxe um relato contundente sobre a escalada de violência nas escolas e a dificuldade de engajar as famílias em processos dialógicos. Ao mencionar casos graves envolvendo bullying, ameaças e agressões, refletiu que muitos desses episódios poderiam ter sido prevenidos se houvesse espaços estruturados de diálogo, envolvendo pais, alunos e professores. Reforçou que a sociedade civil está disposta a contribuir, mas precisa de apoio, formação e estratégias que ajudem a levar a proposta restaurativa às comunidades escolares.
A desembargadora acolheu a reflexão e destacou que o Tribunal de Justiça tem ampliado de forma significativa a formação de facilitadores, justamente para atender situações como as mencionadas pelo professor. Ressaltou que muitos conflitos extremos poderiam ser evitados se identificados ainda em seus estágios iniciais, e que a Justiça Restaurativa oferece, ao mesmo tempo, suporte emocional e caminhos concretos para ampliar proteção, escuta e pertencimento no ambiente escolar. Colocou-se à disposição para conhecer mais de perto a realidade das escolas mencionadas e reforçou a importância de uma atuação conjunta entre Judiciário, comunidade e instituições de ensino.
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Autor: Naiara Martins
Fotografo: Josi Dias
Departamento: Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa – NugJur
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Mulheres da Cadeia Pública Feminina de Cáceres transformam vivências em versos
Published
14 horas agoon
6 de junho de 2026By
Da Redação
“Aqui, escrever não é tarefa, é respiro, é desabafo que sangra em palavras.” Os versos são de uma mulher privada de liberdade na Cadeia Pública Feminina de Cáceres e foram apresentados nesta quarta-feira (3) durante a capacitação virtual Práticas de Leitura no Sistema Prisional e Remição da Pena, promovida pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso, em parceria com a Secretaria de Estado de Educação (Seduc-MT) e a Secretaria de Estado de Justiça (Sejus-MT).
A professora Eliene Rocha Pereira apresentou as boas práticas do projeto “Remição pela Leitura: eu, leitora de mundo dentro dos muros”, desenvolvido junto com a professora Aline Aparecida Rocha. A iniciativa transforma os relatos de vida das detentas em poesia e, segundo Eliene, surpreendeu até as próprias participantes. “Esse trabalho mostrou que as meninas têm potencial para fazer as coisas. Quando eu mostrei o resultado para elas, foi uma satisfação muito grande ver que gostaram”, contou a professora durante a apresentação.
Inspiração e metodologia
O projeto nasceu inspirado na escritora Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, que registrou em palavras a dureza de sua vida na favela. As detentas se identificaram com a trajetória da escritora a ponto de manifestarem interesse em ler o livro, desejo que ainda não foi possível atender.
O trabalho seguiu cinco etapas: apresentação do projeto e diálogo sobre a importância da escrita; leitura e reflexão sobre as obras de Carolina Maria de Jesus; produção de relatos sobre experiências de vida dentro e fora da prisão; transformação dos relatos em poesias com o apoio de inteligência artificial; e socialização dos poemas em eventos e murais pedagógicos.
Eliene explicou que organizou e corrigiu os textos produzidos pelas participantes, preservando os pensamentos e a voz de cada uma. “Eu dei uma organizada no texto, porque elas erravam muitas palavras, mas os pensamentos e a história delas foram mantidos”, disse.
A voz que não se cala
Um dos poemas apresentados, de autora identificada como E. S. Freitas, retrata com força a convivência no sistema prisional, a desconfiança, a solidão, as hierarquias invisíveis e, ao mesmo tempo, a resistência e o aprendizado. Em seus versos, a autora escreve sobre conhecer sotaques e culturas de diferentes estados, sobre não abaixar a cabeça e não perder a humanidade: “Essa é minha voz ecoando entre muros que tentam calar, mas não consegue.”
Para Eliene, o significado do projeto vai além da escrita. “Esse projeto quer mostrar que mesmo dentro dos muros da prisão existem histórias importantes que precisam ser contadas e ouvidas”, afirmou.
Sobre a capacitação
A capacitação Práticas de Leitura no Sistema Prisional e Remição da Pena é uma realização conjunta do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF/TJMT), da Coordenadoria de Educação de Jovens e Adultos (Coeja/Seduc-MT) e do Núcleo de Educação no Sistema Penitenciário (NESP/Sejus-MT). A coordenação está a cargo do juiz auxiliar do GMF, Pierro de Faria Mendes.
O evento tem como objetivo capacitar professores, pedagogos e outros profissionais para a implementação de práticas de leitura no sistema prisional, em alinhamento com o Plano Nacional de Fomento à Leitura no Sistema Prisional e com a Resolução CNJ nº 391/2021.
Autor: Roberta Penha
Fotografo: Alair Ribeiro
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
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