BRASIL
Aluguel em São Paulo aumenta mais nas periferias do que no centro
Publicado em
14 de agosto de 2023por
Da Redação
Os distritos da Vila Jacuí e São Miguel Paulista, no extremo Leste de São Paulo, ficam a cerca de 30 quilômetros do centro. São periferias que cresceram em volta da Capela de São Miguel Arcanjo, o templo mais antigo da cidade. Nos últimos quatro anos, essas duas localidades tiveram os maiores aumentos de aluguel da capital paulista, segundo levantamento da Agência Pública com dados do ImovelWeb.
De acordo com os dados do ImovelWeb, os aluguéis da Vila Jacuí aumentaram 83,34%, entre 2019 e 2022. É o maior aumento proporcional dos aluguéis em São Paulo, superando regiões nobres, como o distrito de Pinheiros, que teve queda de 0,27%. A variação também foi muito maior se comparada a distritos do centro, como Santa Cecília e República, onde os aluguéis variaram 3,84% e 2,02%, respectivamente. O segundo maior aumento foi no distrito vizinho, São Miguel Paulista, onde o preço do aluguel subiu 66,47% no período.
Os moradores de Vila Jacuí e São Miguel Paulista pagam, em média, R$2,5 mil por mês pelo aluguel. O valor é parecido com o de Tatuapé, um dos bairros mais valorizados de São Paulo. Considerando todos os distritos, o aluguel em São Paulo aumentou, em média, 18,9%. Os dados disponibilizados pelo ImovelWeb consideram o valor médio e a variação percentual dos aluguéis em todos os 96 distritos de São Paulo, que pertencem às 32 subprefeituras da cidade. As subprefeituras são divisões administrativas abaixo da prefeitura, que funcionam como pequenos municípios dentro da capital.
De acordo com a secretaria municipal de Urbanismo e Licenciamento de São Paulo, “a divisão por bairros não é oficial no município”. A Lei 11.220 de 1992 divide o município por distritos. De acordo com o mapeamento feito pelo SP Bairros, os distritos de Vila Jacuí e São Miguel Paulista compreendem 44 bairros.
A ImovelWeb não disponibiliza a metodologia da sua pesquisa. A reportagem questionou a Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo (SEHAB) sobre a existência de um levantamento oficial dos preços de aluguel na cidade. A Pasta informou “que não possui qualquer ingerência sob a política de aluguel de imóveis vigente na cidade”.
Maria Lúcia, 65 anos, aposentada, reclama do preço da casa que aluga em São Miguel Paulista. Ela paga R$1,5 mil pelo imóvel com dois cômodos. “Perto da Igreja São Miguel tem apartamento de R$3 mil. Nem no Morumbi [bairro nobre da cidade] você pega isso. Ninguém tem salário pra isso, você paga um mês e não paga mais”.
Segundo a moradora, apesar do valor dos imóveis, o bairro carece de serviços públicos como equipamentos de saúde. Recentemente, ela descobriu um câncer e espera há mais de um ano por uma biópsia, pois não consegue atendimento nos hospitais da região. “A gente tem um centro do idoso. Eu fui pedir para me tratar lá e não deram encaminhamento, que seria um direito meu. Não acho justo isso, pelo imposto que eu pago”, diz.
Não muito longe da estação de metrô de São Miguel Paulista, em uma travessa da Avenida Nordestina, uma das principais do local, com comércio movimentado, o enfermeiro e professor da rede municipal Alan Esau mora de aluguel, em uma casa pequena, com a esposa e a filha. Há dois anos e meio, ele resolveu criar mais uma fonte de renda alugando a casa própria em Itaquera, bairro onde foi criado, aproximadamente 30 minutos de ônibus dali, para alugar um imóvel mais barato em outro bairro.
Mas ele conta que pesquisou aluguéis em vários bairros periféricos e não conseguiu preços bons. Por fim, conseguiu alugar uma pequena casa por R$ 800, mas só conseguiu porque o proprietário é seu amigo. “Não fosse por isso, provavelmente pagaria o dobro. Acho surreal um salário mínimo para você morar afastado de tudo”.
Preço de Alphaville na periferia
Uma caminhada de 25 minutos, a partir da estação São Miguel Paulista, leva até a Vila Jacuí. No caminho, a reportagem notou muitas placas de aluguel. Um dos pontos de divisa entre os distritos é a praça Fortunato da Silveira, mais conhecida por “Pracinha do Morumbizinho”, como os moradores chamam a região em referência ao bairro nobre da zona sul.
Priscila Pereira mora na Vila Pedroso, bairro de São Miguel que divide os dois distritos. Ela percebe que muitos moradores da região fazem uma renda extra com empregos informais, como motoristas de aplicativo, ou abriram comércios próprios, o que faz a economia local girar. Para ela, o desenvolvimento do comércio local, a proximidade da estação de trem e a chegada de serviços, como faculdades, valorizou os imóveis da região e fez o preço do aluguel subir nos últimos anos.
“As imobiliárias pensam: ‘se a pessoa que mora em São Miguel está ganhando mais, mesmo que de forma informal, então dá para eles pagarem um aluguel mais elevado’”, diz.
Ela conta que morou a vida inteira de aluguel com a família em diferentes bairros da Jacuí e de São Miguel Paulista. Antes de mudar para o imóvel atual – uma sobreloja em cima de uma padaria – eles pagavam R$1,6 mil/mês por um imóvel que não tinha quintal, nem garagem e onde ela precisava dividir o quarto com o irmão. “Aqui é R$200 mais caro. Também não tem quintal e garagem, mas pelo menos cada um tem seu quarto”.
Enquanto a família de Priscila sonha com um quintal, Ingrid Regine paga aluguel em uma casa com quintal compartilhado. Há três anos, ela foi morar na Vila Jacuí porque o aluguel do antigo imóvel, em São Miguel Paulista, aumentou 17%. Hoje, ela paga R$1,1 mil por mês. “Sempre gostei da Jacuí, mas eu acho que até o valor do comércio aqui está um absurdo, fora que a criminalidade está bem maior, você não tem mais uma segurança como anos atrás. Acho que não é compatível o valor do aluguel. A gente costuma dizer que o povo acha que a Jacuí é Alphaville”.
Nelson Caldini, delegado seccional Leste do Conselho Regional de Corretor de Imóveis (CRECI-SP), explica que a lógica de locação se dá por busca e mercadoria, ou seja, pouca oferta de imóveis em uma região com alta procura fazem com que o preço suba.
Ele explica que a dinâmica dos bairros também entra na conta do aluguel. São Miguel Paulista, por exemplo, é conhecido por ser um distrito mais residencial, que fica longe de polos comerciais. A maioria dos imóveis disponíveis para locação são de dois quartos, embora a maior demanda seja por unidades com três quartos, segundo Caldini. Isso faz com que o preço desse tipo de imóvel suba. Os preços mais altos, por sua vez, pressionam a renda dos moradores.
“As pessoas que são empregadas no próprio bairro ganham em torno de R$1,7 mil, que é a média do Sindicato dos Comerciantes. As que trabalham no centro e se deslocam para cá no fim do dia podem até ganhar mais lá fora, mas gastam de alimentação e transporte quase 30% do salário”, explica Caldini.
A Vila Jacuí já tem uma estrutura diferente. As casas são maiores e existe até uma faculdade, que se tornou ponto de referência. “A Vila Jacuí ficou um pouco elitizada nesse aspecto. Você vai encontrar mais casas de três quartos, sala, cozinha e banheiro, casas maiores, sobrados, com uma outra valoração de aluguel, na faixa de R$3 mil”, explica.
Ele diz que a especulação imobiliária em ambas as localidades é forte e que os empreendimentos em construção oferecem apartamentos cada vez menores. “Parece que eles querem ocupar o maior número de apartamentos no mesmo terreno para ter um retorno financeiro melhor. Eu sou um crítico severo desse tipo de construção porque acredito que as pessoas não nasceram para serem enlatadas, nasceram para viverem bem”.
Fonte: Nacional
BRASIL
Credores aprovam plano do Grupo HPAR e fortalecem recuperação judicial da companhia
Assembleia com 80% de adesão consolida continuidade do conglomerado e reforça confiança do mercado
Published
2 meses agoon
15 de maio de 2026By
Da Redação
O Grupo HPAR teve o plano de recuperação judicial aprovado nesta quarta-feira (13/05), durante Assembleia Geral de Credores realizada no processo que tramita na 1ª Vara Cível de Cuiabá (MT). A decisão representa uma das etapas mais relevantes da reestruturação financeira do Grupo.
O plano recebeu apoio maciço dos credores, alcançando adesão de 80,58% do valor total dos créditos presentes à assembleia. Instituições financeiras como Daycoval e Bradesco deram voto favorável às condições previstas no plano e no termo aditivo apresentado pelas recuperandas.
A aprovação consolida a continuidade operacional do Grupo HPAR, que atua nos setores de tecnologia, telecomunicações, infraestrutura de redes e serviços corporativos, reunindo as empresas Globaltask, SPE Piauí Conectado, H.Tell Telecom e Bao Bing Infraestrutura.
Internamente, o grupo trata a aprovação como um marco estratégico para preservação das atividades empresariais diante da crise provocada pelo descumprimento do contrato envolvendo a PPP-Piauí Conectado, considerada uma das maiores iniciativas de infraestrutura digital do país. O projeto implantou aproximadamente 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.
O grupo sustenta que houve encampamento ilegal da infraestrutura implantada sem a correspondente indenização pelos investimentos realizados.
O plano aprovado prevê que os recursos financeiros advindos (1) do procedimento de arbitragem que sujeita o Estado do Piauí, (2) da ação judicial de execução que tem contra o Banco do Brasil, garantidor do investimento realizado ou (3) da decisão que determina o pagamento da garantia na recuperação judicial — classificados como “Eventos de Liquidez” — sejam destinados ao cumprimento das obrigações previstas na recuperação judicial e ao pagamento dos credores.
Entre os principais pontos de tensão está o litígio envolvendo garantias financeiras relacionadas à PPP. Segundo o grupo, o Banco do Brasil teria se recusado a liberar o dinheiro depositado e vinculado ao investimento realizado, esgotando financeiramente a empresa para levá-la à quebra para posterior tomada dos investimentos efetuados. Um recurso de agravo de instrumento, que vai decidir a liberação do valor para a empresa está pautado para ser julgado dia 20/05 no TJMT.
Para o advogado especialista em recuperação judicial do Grupo ERS, Euclides Ribeiro, a aprovação do plano demonstra maturidade do ambiente negocial e reforça a viabilidade econômica do grupo.
“Essa aprovação representa um importante sinal de confiança dos credores na capacidade de recuperação da companhia e principalmente na tese de que o Banco do Brasil deve sim liberar o dinheiro bloqueado pois é garantidor e caucionante dos recursos que estão na conta corrente do projeto. O processo demonstrou que, mesmo em cenários de forte complexidade institucional e financeira, é possível construir soluções jurídicas voltadas à manutenção da operação, proteção dos empregos e satisfação coletiva dos credores”, afirmou.
A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado é acompanhada com atenção por investidores, operadores de PPPs e agentes do mercado financeiro, diante dos possíveis impactos sobre a segurança jurídica de projetos públicos de infraestrutura no Brasil.
Entenda o caso
A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado transformou-se em uma das maiores disputas jurídico-empresariais já registradas no setor de infraestrutura digital brasileiro. A concessionária foi responsável pela implantação do projeto Piauí Conectado, considerado um dos maiores projetos públicos de conectividade do país, com cerca de 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.
O modelo foi estruturado como uma Parceria Público-Privada (PPP), na qual a iniciativa privada realizou os investimentos necessários para construção, operação e manutenção da infraestrutura tecnológica estadual, enquanto o Estado se comprometeu contratualmente a remunerar a concessionária ao longo dos 30 anos da concessão.
Segundo as recuperandas, aproximadamente R$ 650 milhões foram investidos diretamente na implantação da rede óptica, datacenter, centros operacionais e infraestrutura de telecomunicações. A empresa sustenta que o projeto contribuiu para elevar o Piauí aos primeiros lugares nacionais em indicadores de conectividade entre 2022 e 2024.
A partir de 2023, com a posse do governador Rafael Fonteles, a relação entre a concessionária e o Governo do Piauí sofreu uma mudança abrupta e o conflito escalou rapidamente.
Segundo a concessionária, apesar de o contrato ter sido integralmente executado e a rede ter permanecido plenamente operacional durante toda a execução da concessão, o Estado passou a promover retenções massivas das contraprestações mensais previstas contratualmente, comprometendo severamente o fluxo financeiro da operação, tudo arquitetado para tomada da empresa pelo Estado sem pagamento dos investimentos.
Na sequência, sucederam-se auditorias técnicas, instauração de processos sancionatórios, decretação de intervenção estatal e, posteriormente, a caducidade da concessão. Além do conflito com o Governo do Piauí, o Grupo HPAR obteve a negativa do Banco do Brasil em pagar a garantia prestada, em que pese já ter ganho a arbitragem na Câmara Brasil Canadá. Segundo as recuperandas, a não liberação dessas garantias agravou significativamente o cenário de crise financeira das empresas.

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