AGRONEGÓCIO
Transição energética: Brasil pode se tornar peça-chave no fornecimento global de insumos para biocombustíveis até 2050
Publicado em
31 de outubro de 2023por
Da RedaçãoO mais recente estudo da Bain & Company sobre o setor de energias renováveis mostra que os biocombustíveis devem desempenhar um papel relevante na transição energética global. A produção de combustíveis a partir de cana de açúcar, soja, gordura animal, novas culturas energéticas e resíduos têm um grande potencial para se tornar, ao lado das baterias e do hidrogênio, uma das melhores alternativas para adoção de fontes renováveis de energia para o setor de transportes.
O levantamento indica que esse mercado deve crescer cinco vezes até 2050, impulsionado pelo consumo de Diesel Renovável e Combustível Sustentável de Aviação (SAF), com aumento progressivo da demanda, principalmente nos Estados Unidos e na União Europeia (UE), geografias que já possuem regulações que incentivam e viabilizam a produção de combustíveis renováveis.
Isso também tem contribuído para que outros países comecem a caminhar nesta direção. O Brasil é um desses exemplos. Segundo a Bain, há uma aceleração nos investimentos no país, o que vem provocando uma corrida por parcerias e joint ventures (JVs), fenômeno observado de forma mais acelerada em mercados mais desenvolvidos, como os Estados Unidos.
A análise da Bain prevê que, até 2030, a capacidade de produção pode alcançar um volume pelo menos seis vezes superior ao atual.
A demanda global de biocombustíveis deve crescer entre 3% e 6% por ano até 2050, com potencial para alcançar até 5 vezes o volume atual

Isso porque, de acordo com a consultoria, mais de 120 projetos no setor já foram anunciados e estão em andamento ou em fase de planejamento hoje. O estudo ainda antecipa que, do total de insumos produzidos para biocombustível, cerca de 50% serão fornecidos por Brasil, EUA e países do sudeste asiático, que passarão a exercer um papel ainda mais crítico nesse mercado no longo prazo.
O Brasil possui vantagens significativas para se consolidar como um líder global no setor. A abundância de terras agricultáveis, a alta produtividade do agronegócio e a extensa infraestrutura de distribuição constituem fatores-chave que impulsionam o potencial brasileiro. Além disso, o país possui um volume significativo de terras degradadas que poderiam ser alavancadas para o cultivo de culturas com alto potencial energético como macaúba, palma, mamona, entre outros.
Impacto na pegada de carbono
De acordo com o estudo da Bain, os fatores de intensidade de carbono variam significativamente, impulsionados principalmente pela mudança de uso da terra (nesse caso, terras de desmatamento possuem alta intensidade de carbono), impacto agrícola (função principalmente do cultivo, insumos, trato agrícola e produtividade) e o processo de produção do combustível renovável (impactado pelas matérias primas, insumos, fonte de energia e tecnologia utilizados).
Fatores de intensidade de carbono variam significativamente, impulsionados principalmente por mudanças no uso da terra, impacto na agricultura e processos de produção de combustíveis

O principal fator de sucesso para produção de biocombustíveis será o acesso a matéria prima abundante, de baixo custo e de baixa pegada de carbono. Porém, dado o crescimento esperado da demanda por biocombustíveis, existe um risco de limitações no fornecimento de matéria prima em um médio prazo, o que pode pressionar os preços.
Espera-se que EUA, UE e outras nações desenvolvidas aumentem suas importações de matéria-prima de biocombustíveis, enquanto Brasil, países do Sudeste Asiático e África devem ampliar sua relevância como exportadores.
EUA e UE devem permanecer com escassez líquida até 2050, enquanto o resto do mundo desempenha um papel crítico na redução das restrições à oferta global

Em contrapartida, há alguns pontos que podem gerar obstáculos na escalada da transição energética por meio desse modelo. Um deles é a competição da produção de biocombustíveis com a produção de alimentos, que terá demanda crescente e na qual o Brasil também deverá exercer um papel global. Atualmente, matérias-primas de primeira geração, como soja e cana-de-açúcar, representam aproximadamente 80% do suprimento para produção de biocombustíveis.
A expectativa, porém, é que políticas governamentais e mudanças de regulação favoreçam a utilização de matérias primas de segunda geração, incluindo resíduos, culturas de rotação e cultivos energéticos plantados em áreas degradadas, que não competem diretamente com a produção de alimentos e possuem mais baixa pegada de carbono – embora o desenvolvimento dessas matérias primas exija investimentos e, em alguns casos, o custo de produção seja superior.
Políticas governamentais voltadas à promoção do uso de biocombustíveis, como incentivos fiscais, créditos, taxação ao carbono, reservas de mercado, entre outros, serão críticas para viabilizar os investimentos no setor, dado que o custo de produção de combustíveis renováveis é mais caro do que de combustíveis de origem fóssil. Por outro lado, regulamentações ambientais e processos de certificação mais rigorosos serão críticos para assegurar a presença do Brasil como exportador nesse mercado.
O país está diante de uma grande oportunidade, pois reúne condições favoráveis para se tornar peça-chave no fornecimento desses combustíveis renováveis, aproveitando seu vasto território, expertise e infraestrutura consolidada. No entanto, é necessário um arcabouço legal adequado para promover o crescimento sustentável desse setor e garantir a competitividade brasileira no mercado internacional.
Fonte: RPMA Comunicação
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
MP das dívidas rurais entra na reta final sem garantir renegociação aos produtores
Published
10 horas agoon
24 de agosto de 2026By
Da Redação
A Medida Provisória 1.376/2026, criada para permitir a renegociação de mais de R$ 100 bilhões em dívidas rurais, entra nesta semana em uma fase decisiva no Congresso sem que produtores tenham acesso amplo e uniforme às novas linhas de crédito. A partir de sábado (29.08), o texto passa a tramitar em regime de urgência e começa a bloquear a votação de outras matérias na Câmara dos Deputados.
O primeiro período de vigência da MP termina em 12 de setembro. O prazo pode ser prorrogado por mais 60 dias caso a votação não seja concluída, mas o calendário expõe a distância entre a urgência financeira das propriedades e o ritmo de execução da medida. A comissão mista encarregada de analisar o texto foi instalada em 12 de agosto e ainda precisa aprovar um parecer antes que a proposta siga para os plenários da Câmara e do Senado.
Enquanto o Congresso discute alterações, os produtores enfrentam dificuldades para transformar a autorização legal em contratos. A regulamentação do Conselho Monetário Nacional (CMN) foi publicada em 23 de julho, mas a portaria que permitiu ao Tesouro Nacional equalizar as taxas de juros saiu apenas em 13 de agosto, quase um mês depois da edição da MP.
A Portaria 2.423 autorizou limites próximos de R$ 25,8 bilhões para operações com juros subsidiados. Os recursos foram distribuídos entre dez bancos e sistemas cooperativos, incluindo Banco do Brasil, Banrisul, Banco da Amazônia, Banco de Brasília, Banpará, Sicoob, Sicredi, Cresol, Credicoamo e Banco DLL.
A publicação retirou um dos principais entraves regulatórios, mas não tornou a contratação automática. Cada instituição ainda precisa organizar seus procedimentos internos, verificar o enquadramento das dívidas e analisar a capacidade de pagamento, o risco e as garantias apresentadas pelo produtor. Até agora, não foi divulgado um balanço nacional consolidado que mostre quanto dos R$ 25,8 bilhões já se converteu efetivamente em contratos.
A diferença entre o volume autorizado e o tamanho do problema também aumenta a pressão. Levantamento elaborado a partir de informações do Banco Central aponta que o crédito rural acumulava R$ 197,2 bilhões em saldos considerados problemáticos em junho, equivalentes a aproximadamente 22,5% da carteira ativa.
Desse total, R$ 38,1 bilhões estavam inadimplentes, R$ 20,9 bilhões correspondiam a operações em atraso, R$ 31,6 bilhões haviam sido prorrogados e R$ 106,4 bilhões estavam em financiamentos já renegociados. Os números indicam que o valor disponível nas linhas subsidiadas poderá atender apenas a uma parcela da demanda.
O próprio Banco do Brasil, principal financiador do campo, identificou uma carteira potencial de até R$ 100 bilhões que poderia ser enquadrada na medida. O montante envolve aproximadamente 113 mil clientes, entre produtores inadimplentes e tomadores com contratos anteriormente prorrogados ou renegociados.
A MP atende produtores rurais e cooperativas de produção agropecuária que comprovem perdas em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025. Também é necessário demonstrar redução mínima de 30% da renda bruta esperada, causada por eventos climáticos extremos ou pela queda dos preços dos produtos financiados.
A comprovação depende de laudo elaborado por profissional legalmente habilitado. Esse requisito é um dos pontos questionados por representantes do setor, principalmente em regiões nas quais as perdas foram generalizadas e já reconhecidas por levantamentos oficiais, decretos de emergência e registros das próprias instituições financeiras.
Pelas regras gerais, agricultores familiares enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) podem contratar até R$ 400 mil, com juros de 6% ao ano. Para os médios produtores do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), o limite é de R$ 2 milhões, com taxa de 9%. Os demais produtores podem acessar até R$ 4 milhões, com juros de 12% ao ano.
Nessa modalidade, o prazo de pagamento chega a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação. Os juros, contudo, precisam ser pagos durante o período de carência.
Há condições melhores para produtores que comprovem perdas mais severas. Quem registrar prejuízos em pelo menos três safras, provocados por eventos climáticos extremos, e redução mínima de 40% da renda poderá obter prazo de até dez anos. Os limites chegam a R$ 500 mil no Pronaf, R$ 2,5 milhões no Pronamp e R$ 8 milhões para os demais produtores, com taxas de 5%, 8% e 11% ao ano, respectivamente.
Mesmo preenchendo os requisitos, o produtor não tem aprovação garantida. O risco das operações continua sob responsabilidade das instituições financeiras, que podem exigir novas garantias ou negar o crédito após a análise. Essa condição ajuda a explicar por que a existência de recursos autorizados não significa que todo produtor endividado conseguirá aderir.
O prazo para contratação termina em 12 de novembro. Como parte desse período já foi consumida pela regulamentação, produtores e entidades do setor alertam para o risco de concentração dos pedidos nas últimas semanas, demora na análise dos documentos e esgotamento dos limites disponíveis em determinadas instituições.
No Congresso, a quantidade de propostas de mudança revela a insatisfação com o alcance do texto original. A MP recebeu 144 emendas. Entre as alterações sugeridas estão a inclusão de mais operações de investimento, capital de giro e Cédulas de Produto Rural (CPRs), a ampliação das datas de enquadramento, a redução das exigências para comprovação das perdas e a extensão dos prazos de pagamento.
Também há pressão para que a medida contemple produtores que renegociaram contratos anteriormente, mas voltaram a perder safras, além daqueles cujas dívidas foram transferidas, cedidas ou substituídas por outros instrumentos financeiros. O desafio será ampliar o público sem elevar o custo fiscal a um nível que impeça um acordo para a aprovação.
Para o produtor, a orientação é procurar imediatamente a instituição credora e formalizar o interesse na renegociação. Contratos, extratos das operações, comprovantes de perdas, registros de produtividade, documentos fiscais e laudos técnicos devem ser reunidos antes da abertura do pedido. O protocolo da solicitação também é importante para demonstrar que a procura ocorreu dentro do prazo.
A entrada da MP em regime de urgência aumenta a pressão política, mas não resolve os obstáculos encontrados nas agências bancárias. O resultado da medida será definido menos pelo volume anunciado e mais pela quantidade de produtores que conseguirem superar as exigências, aprovar o crédito e assinar os contratos até novembro.
Fonte: Pensar Agro
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