AGRONEGÓCIO
Setor avança na busca por fontes alternativas e consolida aliança com mercado de capitais
Publicado em
14 de julho de 2026por
Da Redação
A histórica dependência do agronegócio em relação às linhas de crédito bancário tradicional está perdendo força. Em busca de maior flexibilidade e prazos que acompanhem o ciclo produtivo, o setor vive uma transição estrutural: a migração para o mercado de capitais. O movimento, que ganha escala a cada safra, transforma o modo como produtores, indústrias e fornecedores financiam suas atividades.
O dado que comprova essa mudança é o crescimento exponencial dos Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais). Entre março de 2023 e março de 2025, o patrimônio líquido desses fundos saltou de R$ 14,7 bilhões para R$ 44,7 bilhões — um avanço de aproximadamente 204% em apenas dois anos. O volume indica que o investidor brasileiro passou a ver no campo uma alternativa robusta de rentabilidade, enquanto o produtor encontrou uma fonte de recursos menos burocrática e mais ágil.
O modelo tradicional, baseado quase exclusivamente em empréstimos de instituições financeiras comerciais, tem sido complementado por operações estruturadas. Agroindústrias e empresas que operam na ponta da cadeia começaram a estruturar mecanismos próprios para financiar seus fornecedores e parceiros comerciais.
Neste novo desenho, ferramentas como os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) permitem que as empresas antecipem recebíveis ou ofereçam capital de giro com condições mais competitivas para seus produtores integrados. O objetivo é duplo: garantir a fidelidade da cadeia produtiva e estimular investimentos que ampliem a capacidade de entrega das fazendas, sem a necessidade de passar pelo crivo rígido e, por vezes, lento dos bancos comerciais.
Apesar do otimismo, a transição para o mercado de capitais não é isenta de obstáculos. A estruturação desses fundos exige um rigor administrativo que muitas empresas do setor ainda estão incorporando. A operacionalização de uma operação de crédito via mercado de capitais demanda um controle rigoroso de documentos, contratos e garantias.
Para o produtor rural, isso significa que a entrada no mercado de capitais exige maior profissionalização na gestão de dados da fazenda. A integração digital tornou-se essencial: os sistemas precisam ser capazes de realizar a formalização de CPR-Fs (Cédula de Produto Rural Financeira), o registro, a cessão dos créditos e o acompanhamento dos pagamentos de forma transparente e rápida.
FUTURO – A expectativa de especialistas e instituições financeiras é que a participação de instrumentos estruturados ganhe ainda mais espaço nos próximos anos. O mercado de capitais oferece uma capilaridade que o banco tradicional muitas vezes não alcança, permitindo que o crédito chegue onde é necessário com custos operacionais mais diluídos.
O que se observa é um processo de amadurecimento do agro como um ativo financeiro. À medida que essas estruturas se tornam mais acessíveis e operacionais, a tendência é que o financiamento deixe de ser uma operação puramente bancária para se tornar um ecossistema integrado ao mercado financeiro. Para o setor, o resultado é uma maior autonomia financeira, reduzindo o risco de desabastecimento de capital em momentos de restrição econômica no mercado tradicional.
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende, a grande mudança estrutural que está acontecendo é a independência em relação ao calendário estatal. “Se antes o produtor ficava refém da liberação das linhas oficiais do Plano Safra, hoje vemos um cenário onde 60% dos novos projetos de médio e longo prazo — como investimentos em armazenagem e sistemas de irrigação de precisão — já nascem financiados via títulos privados e fundos estruturados. Isso traz uma previsibilidade inédita ao campo, pois o produtor não precisa mais ajustar o seu cronograma de plantio ou de expansão à disponibilidade burocrática de recursos bancários, ele dita o próprio ritmo financeiro através dos instrumentos que o mercado de capitais oferece”, comentou Isan.
“Outro ponto que o setor precisa observar é que a conformidade ambiental deixou de ser uma barreira e virou um motor de rentabilidade. Nossos levantamentos mostram que as operações de crédito estruturado que comprovam padrões de baixa emissão de carbono estão captando recursos com taxas até 15% menores do que as linhas convencionais. Isso prova que o mercado de capitais está, na prática, precificando corretamente a sustentabilidade: o produtor que cuida da terra e mantém seu passivo ambiental zerado paga menos pelo dinheiro, uma realidade que os bancos comerciais, devido às suas estruturas de análise de risco mais rígidas e demoradas, levam muito mais tempo para reconhecer”, disse.
Rezende lembra que o mais impressionante é a capilaridade. “Dados internos mostram que o número de produtores rurais individuais emitindo títulos privados cresceu quase 80% nos últimos 12 meses. O mercado de capitais deixou de ser uma exclusividade dos grandes grupos econômicos ou das tradings bilionárias; ele chegou, de fato, na porteira do médio produtor. Esse empresário rural hoje consegue antecipar sua receita com taxas que competem diretamente com os grandes players, garantindo um fôlego de caixa que antes era um privilégio de quem tinha faturamento de escala nacional, o que equilibra a competitividade no campo”, completou o presidente do IA.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Plantio da soja começa no Brasil sob risco de El Niño muito forte
Published
7 horas agoon
12 de setembro de 2026By
Da Redação
O plantio da soja 2026/27 começou de forma pontual no Brasil sob o risco de chuvas irregulares no Centro-Norte e excesso de umidade na Região Sul. Mato Grosso e Paraná já possuem áreas semeadas, enquanto os demais Estados entrarão gradualmente no campo entre setembro e dezembro, de acordo com o calendário estabelecido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
O início da safra coincide com o fortalecimento do El Niño. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) calcula em mais de 90% a probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte durante a primavera e o verão no Hemisfério Sul. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também aponta 90% de chance de intensidade muito forte entre setembro e novembro.
A previsão não significa que todo o país terá falta de chuva. O efeito esperado é diferente em cada região. No Centro-Oeste, no Matopiba e em parte do Norte e do Sudeste, a preocupação está na demora para a regularização das precipitações, nas temperaturas elevadas e na ocorrência de veranicos. No Sul, o principal risco é o excesso de chuva, que pode encharcar o solo, impedir a entrada das máquinas e favorecer doenças.
Mato Grosso abriu o calendário de semeadura em 7 de setembro. As primeiras áreas foram plantadas principalmente em Campo Novo dos Parecis, Diamantino, Brasnorte e outros municípios do oeste que receberam volumes mais expressivos de chuva. Também há trabalhos em áreas irrigadas.
O avanço ainda é inferior a 1% dos aproximadamente 13 milhões de hectares previstos pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). A expectativa é de que a semeadura ganhe força somente na primeira quinzena de outubro, quando as chuvas deverão estar mais bem distribuídas.
O problema é que as precipitações registradas até agora são muito localizadas. Enquanto algumas propriedades receberam volume suficiente para acumular água, áreas situadas a poucos quilômetros continuaram secas. Plantar após uma chuva isolada, sem umidade adequada nas camadas mais profundas do solo, aumenta o risco de falhas na germinação, perda de sementes e necessidade de replantio.
A pressa em Mato Grosso está ligada à soja, mas também ao milho e ao algodão cultivados depois da oleaginosa. Quanto mais cedo a soja for colhida, maior será a possibilidade de instalar a segunda safra dentro da janela de menor risco climático. O produtor tenta evitar que o milho e o algodão atravessem o período reprodutivo quando as chuvas já estiverem diminuindo.
O Imea projeta produção próxima de 49 milhões de toneladas de soja em Mato Grosso. Apesar do pequeno aumento de área, a estimativa considera redução de 5,4% na produtividade média em relação à temporada anterior. O Estado também já comercializou antecipadamente cerca de 39% da nova safra, acima da média histórica de 30,55% para o período, o que aumenta a necessidade de compatibilizar contratos de venda com o volume que poderá ser efetivamente colhido.
No Paraná, o plantio começou no Norte, Noroeste e Oeste, onde a semeadura está autorizada desde 1º de setembro. Até o levantamento mais recente do Departamento de Economia Rural (Deral), aproximadamente 81 mil hectares haviam sido plantados, o equivalente a 1,4% dos 5,76 milhões de hectares previstos para o Estado.
O Sudoeste paranaense foi liberado para plantar em 11 de setembro. Nos municípios mais ao sul, a autorização começa em 20 de setembro. A umidade disponível pode favorecer a emergência da soja, mas chuvas persistentes aumentam o risco de interrupções, compactação, erosão, doenças fúngicas e replantio. O excesso de precipitação também pode atrasar a colheita do trigo e, consequentemente, a entrada da soja nas mesmas áreas.
Rondônia e Amazonas estão autorizados a plantar desde sexta-feira (11), embora ainda não tenham divulgado avanço significativo da semeadura. Em São Paulo, o calendário começou em 1º de setembro na primeira região produtiva, será aberto neste domingo (13) na segunda e chegará à terceira região no dia 16.
Mato Grosso do Sul poderá iniciar o plantio na quarta-feira (16). No mesmo dia, a semeadura será liberada no sul do Pará. O Acre entra no calendário em 21 de setembro, parte de Santa Catarina no dia 22, Goiás no dia 25 e o Rio de Janeiro no dia 29.
Em 30 de setembro, começa a primeira janela do Piauí. Distrito Federal, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Tocantins poderão plantar a partir de 1º de outubro. A mesma data vale para o sul do Maranhão, incluindo Balsas e outros importantes municípios produtores.
No oeste da Bahia, onde estão Barreiras, Luís Eduardo Magalhães, Formosa do Rio Preto e São Desidério, o calendário começa em 8 de outubro. Outras regiões de Bahia, Maranhão, Pará, Piauí, Paraná, Santa Catarina e São Paulo possuem datas próprias, definidas conforme o clima e o histórico da ferrugem-asiática.
Alagoas, Amapá, Ceará e Roraima têm calendários mais tardios, com início da semeadura somente em 2027. Por isso, essas áreas não participam da atual largada da safra nacional.
As datas indicam apenas quando a semeadura é permitida do ponto de vista fitossanitário. Elas não significam que o solo já tenha umidade suficiente nem substituem as orientações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). A decisão de plantar depende das condições de cada propriedade e da previsão de continuidade das chuvas.
No Centro-Oeste, Sudeste e Matopiba, o maior perigo é uma precipitação antecipada estimular a semeadura e ser seguida por vários dias de calor e tempo seco. Além de prejudicar a formação inicial da lavoura, um veranico pode obrigar o produtor a repetir operações e elevar os gastos com sementes, combustível, máquinas e mão de obra.
Caso as chuvas demorem a se regularizar, o problema será transferido para a segunda safra. O atraso na colheita da soja reduz o tempo disponível para o milho e o algodão, enquanto uma interrupção antecipada das chuvas pode atingir essas culturas durante fases de maior necessidade de água.
No Rio Grande do Sul, Santa Catarina e parte do Paraná, o El Niño tende a aumentar a disponibilidade hídrica, mas chuvas frequentes podem produzir o efeito contrário ao desejado. Solo saturado, dificuldade de pulverização, menor luminosidade e aumento da pressão de doenças podem limitar o potencial das lavouras mesmo sem falta de água.
Uma simulação apresentada pelo economista Alexandre Mendonça de Barros, da consultoria EY, calcula que um cenário de estresse climático semelhante ao de 2015 poderia retirar até 12 milhões de toneladas da safra brasileira. O número representa cerca de 6,5% das 186 milhões de toneladas projetadas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos para o país.
A estimativa de perda não é uma previsão consolidada, mas uma simulação de risco. O resultado final dependerá da distribuição das chuvas, das temperaturas, da duração dos veranicos e do manejo adotado em cada região. Em uma safra marcada por extremos opostos, o principal desafio não será apenas saber quanto vai chover, mas onde, quando e com que regularidade essa chuva chegará.
Fonte: Pensar Agro
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