AGRONEGÓCIO
Safra de trigo em São Paulo deve ter queda de área em 2026 diante de preços pressionados no mercado global
Publicado em
9 de março de 2026por
Da Redação
O cultivo de trigo no estado de São Paulo deve registrar redução de área na safra de 2026, refletindo um cenário de preços internacionais pressionados e custos elevados de produção. O tema foi debatido durante a primeira reunião do ano da Câmara Setorial do Trigo paulista, realizada no dia 5 de março, que reuniu representantes do setor produtivo, cooperativas e especialistas do mercado.
O encontro ocorreu de forma híbrida na sede da Cooperativa Agroindustrial de Capão Bonito (CACB) e teve como objetivo discutir o planejamento das lavouras de inverno e avaliar as perspectivas do mercado para os produtores do estado.
Mercado global pressiona preços e reduz estímulo ao plantio
A expectativa de retração na área plantada está diretamente ligada ao cenário internacional do trigo, marcado por oferta elevada e preços mais baixos. Para o novo presidente da Câmara Setorial do Trigo de São Paulo, Ruy Zanardi, o momento exige cautela por parte dos produtores.
Segundo ele, apesar das dificuldades, o trigo continua sendo uma alternativa relevante para o inverno. A cultura apresenta boa liquidez no mercado paulista devido à demanda da indústria de moagem e também contribui agronomicamente para melhorar o desempenho de culturas como a soja no sistema de rotação.
Ainda assim, o ambiente de preços internacionais mais baixos tende a reduzir o entusiasmo para ampliar as áreas cultivadas no estado.
Cooperativas apontam retração de área e desafios financeiros
Relatos apresentados por cooperativas durante a reunião indicam que o custo de produção, aliado aos riscos climáticos e ao calendário agrícola, tem influenciado diretamente as decisões dos produtores.
Na Capal Cooperativa Agroindustrial, por exemplo, a estimativa é de queda de cerca de 20% na área cultivada com trigo em comparação ao ciclo anterior. De acordo com o coordenador técnico Airton Rodrigues, muitos produtores demonstram preocupação com a viabilidade econômica da cultura.
Já na Cooperativa Castrolanda, a área destinada ao trigo também deve diminuir, passando de 5.700 hectares para cerca de 4.590 hectares. O consultor agrícola Jeandro Oliveira explicou que o atraso na colheita da soja comprometeu o planejamento das culturas de inverno, além de impactar a situação financeira de muitos produtores.
Por outro lado, a Cooperativa Holambra prevê maior estabilidade e estima manter aproximadamente 25 mil hectares de trigo, mesma área registrada em 2025. Entretanto, a cevada surge como uma alternativa crescente, podendo ampliar a área de 2 mil para 5 mil hectares neste ano.
Na Cooperativa Agrícola de Capão Bonito, a expectativa é de manutenção da área plantada em cerca de 4 mil hectares, mesmo após o atraso de aproximadamente 30 dias no ciclo da soja. Segundo o engenheiro agrônomo Nelio Uemura, muitos produtores optaram por investir no milho safrinha tardio em vez de migrar para o trigo.
Custos de produção e cenário geopolítico preocupam setor
Outro ponto destacado durante o encontro foi o impacto de fatores internacionais sobre os custos de produção. A empresa Ourosafra alertou que tensões geopolíticas têm pressionado insumos importantes, como fertilizantes nitrogenados e combustíveis.
Esse cenário tende a elevar os custos operacionais do produtor, reduzindo a margem de rentabilidade da cultura e aumentando a cautela nas decisões de plantio.
Trigo argentino amplia competitividade no mercado global
A análise de mercado apresentada pelo analista Jonathan Pinheiro, da StoneX, destacou que o mercado mundial vive um momento de oferta elevada.
Segundo ele, a Argentina tem registrado produções robustas e estoques confortáveis, o que mantém o trigo argentino altamente competitivo no comércio internacional.
O país sul-americano tem ampliado sua presença em mercados tradicionais da Ásia, como Indonésia, Vietnã e Bangladesh, além de conquistar novos destinos, como a China.
Com oferta abundante, o especialista avalia que é difícil esperar uma alta significativa nos preços do trigo no Brasil no curto prazo, fator que acaba reduzindo o incentivo para expansão da área plantada.
Problemas logísticos globais também influenciam mercado
O conflito no Oriente Médio também foi citado como fator de atenção, especialmente pelos impactos logísticos no comércio internacional.
A redução no fluxo de navios pelo Mar Vermelho — superior a 50% — tem levado embarcações a utilizarem rotas mais longas pelo Cabo da Boa Esperança. Essa mudança aumentou em cerca de 200% o uso desse trajeto, elevando custos de transporte e tempo de entrega para exportadores da Europa e da região do Mar Negro.
Esse novo cenário logístico acaba favorecendo o trigo argentino, que possui rotas mais competitivas para abastecer o mercado brasileiro.
Mudança na presidência da Câmara Setorial do Trigo
A reunião também marcou o encerramento do terceiro mandato de Nelson Montagna na presidência da Câmara Setorial do Trigo paulista.
Durante sua gestão, a produção estadual registrou crescimento significativo, passando de 90 mil toneladas para cerca de 500 mil toneladas em 12 anos, com destaque para a safra recorde de 2022.
O vice-presidente da Câmara Setorial, José Reinaldo Oliveira, classificou o cenário atual como um momento de grande incerteza para os produtores.
Segundo ele, quando há uma safra cheia com boa produtividade e qualidade, os preços tendem a se estabilizar ou cair, o que reduz a rentabilidade do produtor.
Pesquisa e inovação seguem como apoio ao produtor
Durante o encontro, pesquisadores da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) apresentaram avanços em pesquisas voltadas ao trigo, reforçando que o suporte tecnológico ao produtor continua evoluindo no estado.
A programação também incluiu apresentações do Projeto Be8 – transformando grãos em energia e alimento, além de palestras de empresas do setor de sementes e biotecnologia.
Outro destaque foi a mudança na coordenação das Câmaras Setoriais da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, com a saída de José Carlos Junior e a chegada de Fabiana Ferreira da Costa Gouvea, que assumiu a função reforçando o compromisso de diálogo com o setor triticultor.
Perspectivas para o trigo paulista
Apesar das incertezas de mercado, especialistas avaliam que o trigo continuará sendo uma cultura importante no sistema produtivo paulista, especialmente pelo papel agronômico na rotação de culturas e pela demanda da indústria moageira.
Entretanto, o tamanho da área plantada em 2026 deverá depender principalmente da evolução dos preços internacionais, dos custos de produção e das condições climáticas durante a janela de plantio.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Sudeste supera Centro-Oeste em custo alimentar e confinamento registra lucro recorde em 2026
Published
17 minutos agoon
23 de abril de 2026By
Da Redação
O custo alimentar do confinamento bovino no Brasil apresentou uma mudança inédita na dinâmica entre as principais regiões produtoras em março de 2026. Pela primeira vez no ano, o Sudeste registrou custo inferior ao Centro-Oeste, segundo dados do Índice de Custo Alimentar Ponta (ICAP).
O indicador, baseado em dados reais de confinamentos que representam cerca de 62% das cabeças confinadas no país, evidencia uma nova configuração de competitividade regional, ao mesmo tempo em que a atividade atinge níveis recordes de rentabilidade.
Sudeste registra menor custo alimentar e quebra padrão histórico
Em março, o ICAP no Centro-Oeste fechou em R$ 13,23 por cabeça/dia, alta de 11,93% em relação a fevereiro, pressionado principalmente pelo encarecimento de insumos energéticos e volumosos.
Já no Sudeste, o índice foi de R$ 12,19, com recuo de 3,64% no mesmo período. O resultado consolidou a tendência de queda iniciada em fevereiro e marcou a inversão regional, com diferença de R$ 1,04 a favor do Sudeste.
Na comparação anual, ambas as regiões apresentam redução de custos. O Centro-Oeste acumula queda de 4,89%, enquanto o Sudeste registra recuo mais expressivo de 8,14% frente a março de 2025.
Insumos pressionam custos no Centro-Oeste
No acumulado do primeiro trimestre de 2026, o Centro-Oeste encerrou março acima da média do período, refletindo a pressão concentrada no último mês.
Os principais movimentos foram:
- Volumosos: alta de 21,02%
- Energéticos: alta de 12,35%
- Proteicos: estabilidade (-0,30%)
O aumento foi impulsionado principalmente pelos energéticos, com destaque para o milho grão seco (+2,2%) e o sorgo (+6,9%), em meio à transição entre a safra de verão e a expectativa da safrinha.
Nos volumosos, a elevação foi puxada pela silagem de capim (+30,4%), mesmo com recuos em itens como a silagem de milho (-8,1%).
Sudeste reduz custos com maior oferta de insumos
No Sudeste, o custo alimentar encerrou março 1,79% abaixo da média trimestral, influenciado principalmente pela queda nos insumos energéticos e proteicos.
Os destaques foram:
- Energéticos: queda de 8,74%
- Proteicos: queda de 5,11%
- Volumosos: alta de 43,75%
Entre os energéticos, houve recuo no preço do sorgo (-15,3%) e do milho (-1,5%), reflexo da maior disponibilidade e competitividade de coprodutos agroindustriais.
Nos proteicos, a redução foi puxada pela torta de algodão (-8,2%) e pelo DDG (-2,1%). Apesar da forte alta nos volumosos, especialmente silagem de cana (+65,1%) e bagaço de cana (+23,3%), o custo total da dieta foi reduzido na região.
Rentabilidade do confinamento atinge níveis recordes
A relação entre custo alimentar e preço da arroba manteve o confinamento em um dos melhores momentos de lucratividade da série recente.
No mercado físico:
- Centro-Oeste
- Custo da arroba produzida: R$ 192,76
- Preço da arroba: R$ 345,00
- Lucro: R$ 1.278,79 por cabeça
- Sudeste
- Custo da arroba produzida: R$ 193,50
- Preço da arroba: R$ 350,00
- Lucro: R$ 1.267,65 por cabeça
As duas regiões registraram crescimento superior a 24% na rentabilidade em relação a fevereiro, com margens acima de R$ 1,2 mil por animal.
Convergência de custos e competitividade entre regiões
Outro destaque foi a forte aproximação no custo por arroba produzida entre as regiões. A diferença caiu para apenas R$ 0,74 em março, ante mais de R$ 17 no mês anterior.
Esse movimento indica uma equalização da competitividade entre Centro-Oeste e Sudeste, reforçada também por um empate técnico na lucratividade — com diferença inferior a R$ 12 por cabeça.
No mercado de exportação, o Sudeste apresenta leve vantagem, com lucro estimado em R$ 1.324,35 por animal, impulsionado por preços mais elevados do boi destinado à China.
Inversão de custos levanta dúvidas sobre tendência para 2026
A mudança no padrão regional de custos, considerada atípica para a pecuária brasileira, levanta questionamentos sobre sua continuidade.
Enquanto o Centro-Oeste foi pressionado pela alta dos energéticos (+16,55%) e volumosos (+15,18%), o Sudeste se beneficiou da queda nos energéticos (-9,56%) e proteicos (-7,71%), favorecida pela maior oferta de coprodutos.
A consolidação ou não desse novo cenário dependerá, principalmente, do desempenho da safrinha de milho ao longo do ano.
ICAP se consolida como ferramenta estratégica no confinamento
O ICAP é calculado com base em dados de confinamentos monitorados por tecnologias de gestão, incluindo sistemas amplamente utilizados no Brasil.
O índice reúne milhões de registros de alimentação animal e permite acompanhar mensalmente a evolução dos custos nas principais regiões produtoras.
Segundo especialistas, a ferramenta tem se consolidado como apoio estratégico para decisões de compra de insumos, análise de viabilidade econômica e planejamento da atividade de confinamento.

Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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