AGRONEGÓCIO
Protocolo com SIG identifica risco de contaminação entre viveiros de peixes na mesma bacia hidrográfica no Brasil
Publicado em
24 de junho de 2026por
Da Redação
Uma pesquisa da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO) revelou que a conectividade entre viveiros de peixes dentro de uma mesma bacia hidrográfica pode facilitar a transmissão de doenças na aquicultura. O estudo, inédito no Brasil com aplicação de um protocolo italiano baseado em Sistemas de Informação Geográfica (SIG), aponta caminhos para reforçar a vigilância sanitária e prevenir surtos na piscicultura.
Os resultados foram publicados na revista Frontiers in Marine Science e indicam que a dinâmica da água tem papel central na propagação de patógenos, especialmente em sistemas produtivos interligados hidrologicamente.
Tecnologia geoespacial cria mapa de risco sanitário na aquicultura
O trabalho utilizou uma metodologia desenvolvida pelo Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe), da Itália, adaptada à realidade brasileira em parceria com a Embrapa.
A ferramenta, baseada em SIG, permite mapear propriedades aquícolas e classificá-las conforme o nível de risco de contaminação — alto, médio ou baixo — considerando o fluxo da água dentro da bacia hidrográfica.
O modelo também identifica a direção da conectividade hídrica entre os viveiros, levando em conta se estão a montante ou a jusante de possíveis focos de infecção.
Acantocéfalo foi escolhido como doença-modelo no estudo
O estudo teve como foco o acantocéfalo, parasita que afeta principalmente o tambaqui (Colossoma macropomum), uma das espécies mais importantes da piscicultura brasileira.
Segundo a pesquisadora da Embrapa Pesca e Aquicultura, Patrícia Oliveira Maciel, a escolha foi baseada na relevância econômica e na disponibilidade de dados sobre a doença.
“O acantocéfalo foi escolhido porque há registros consistentes da enfermidade no tambaqui e porque houve surtos importantes, como o ocorrido em Rondônia em 2015”, explica.
O ciclo do parasita envolve ovos liberados nas fezes dos peixes infectados, que são ingeridos por pequenos crustáceos (ostracodes), servindo como hospedeiros intermediários. A infecção ocorre quando peixes saudáveis consomem esses organismos contaminados.
Perdas produtivas podem chegar a 20% do peso dos peixes
Além dos impactos sanitários, o acantocéfalo gera prejuízos econômicos significativos à produção aquícola.
Segundo a pesquisadora Marta Ummus, peixes infectados podem apresentar redução de até 20% no ganho de peso esperado, afetando diretamente a produtividade e a rentabilidade das fazendas.
Em regiões como a Amazônia, onde há desafios logísticos adicionais, pequenas perdas percentuais podem representar impactos expressivos na margem do produtor.
Mapeamento dependeu de dados secundários por falta de acesso oficial
Um dos principais desafios da pesquisa foi a ausência de dados oficiais georreferenciados sobre sanidade aquícola, geralmente sob responsabilidade de órgãos estaduais.
Sem acesso a essas informações, os pesquisadores utilizaram dados secundários de estudos científicos já publicados para viabilizar a análise.
O cenário acende um alerta para a necessidade de maior integração e transparência no compartilhamento de dados sanitários, fundamentais para o desenvolvimento de sistemas de vigilância mais eficientes.
Protocolo mostra como doenças se propagam pela água
O modelo validado confirma que a água atua como vetor de disseminação de patógenos, podendo transportar agentes infecciosos por longas distâncias dentro de uma bacia hidrográfica.
O sistema considera dois tipos de fluxo:
- Jusante: sentido natural da água, em direção à foz
- Montante: sentido contrário, em direção à nascente
A partir disso, o protocolo identifica propriedades em risco com base na conectividade entre os viveiros.
Na prática, o sistema gera um mapa que permite classificar as propriedades em três níveis:
- Alto risco: conectadas diretamente a focos confirmados a jusante
- Médio risco: conectividade indireta ou sazonal
- Baixo risco: sem conexão hídrica com áreas contaminadas
- Aplicação abre caminho para sistema de alerta precoce na piscicultura
A principal aplicação do protocolo é a criação de um sistema de alerta sanitário para a aquicultura.
Com a detecção de um foco de doença, o modelo permite identificar rapidamente as propriedades potencialmente expostas, otimizando ações de vigilância e contenção.
O período de monitoramento pode variar conforme o ciclo do patógeno. No caso do acantocéfalo, por exemplo, o acompanhamento recomendado é de até dois meses.
Outro ponto crítico apontado pelos pesquisadores é o controle da movimentação de peixes vivos e da água de transporte, considerados vetores relevantes de disseminação de doenças.
Aquicultura amazônica apresenta desafios estruturais de rastreabilidade
O estudo também destaca limitações estruturais do setor aquícola no Brasil, especialmente na região amazônica.
Entre os principais desafios estão:
- informalidade na produção
- baixa rastreabilidade sanitária
- falta de integração entre elos da cadeia produtiva
- dificuldade de acesso a dados oficiais
Diferentemente de cadeias mais estruturadas, como avicultura e suinocultura, a aquicultura ainda opera de forma fragmentada, o que dificulta ações coordenadas de prevenção e controle.
Metodologia é universal e pode ser aplicada a outras doenças
Apesar de ter sido testado com o acantocéfalo, o protocolo baseado em SIG pode ser adaptado para diferentes doenças aquícolas, desde que a transmissão ocorra pela água.
Cada patógeno exige ajustes específicos, como tempo de sobrevivência no ambiente e período de incubação, mas a estrutura de análise espacial permanece a mesma.
Para os pesquisadores, essa flexibilidade torna o sistema uma ferramenta promissora para políticas públicas de sanidade aquícola e vigilância preventiva.
Perspectivas para a sanidade aquícola no Brasil
A validação do protocolo representa um avanço importante para o uso de inteligência geográfica na aquicultura, mas sua implementação em larga escala ainda depende de melhorias estruturais.
Os pesquisadores destacam que a efetividade do sistema está condicionada à integração de dados, maior formalização da atividade e fortalecimento das políticas de vigilância sanitária no setor.
Com esses avanços, o uso de ferramentas geoespaciais pode se tornar um aliado estratégico na prevenção de doenças e no aumento da sustentabilidade da piscicultura brasileira.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Frente fria traz geada ao Sul e atrasa colheita da safrinha no Centro-Sul
Published
10 minutos agoon
24 de junho de 2026By
Da Redação
O avanço de uma massa de ar polar de grande magnitude mantém o Centro-Sul do Brasil em alerta nesta quarta-feira (24.06). O que os meteorologistas chamam de “sistema frontal”, se desloca pelo território nacional, provocabo uma queda brusca nas temperaturas e temporais em áreas estratégicas para a produção agrícola, desafiando o cronograma da colheita do milho segunda safra (safrinha), que opera abaixo da média histórica.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a massa de ar frio deve levar geadas amplas a partes do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, onde as mínimas podem atingir valores negativos nas áreas de serra. No Sudeste e Centro-Oeste, o impacto é sentido através de chuvas moderadas a fortes, que elevam o índice de umidade em regiões produtoras de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Para o setor, a instabilidade climática chega em um momento sensível. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que a colheita do milho 2025/26 alcançou 11% da área cultivada. O ritmo atual, embora supere o registrado no mesmo período da safra passada (10,3%), ainda é inferior à média dos últimos cinco anos, que gira em torno de 15%. A precipitação inesperada nestas áreas produtoras pode retardar a entrada de máquinas nas lavouras e impactar a umidade dos grãos, elevando os custos de secagem pós-colheita.
Além do milho, a pecuária é um dos segmentos mais expostos à virada climática. Em sistemas de produção de aves e suínos, a queda acentuada nos termômetros exige reforço imediato no manejo de conforto térmico para evitar perdas de produtividade e mortalidade de animais jovens.
No Mato Grosso, onde a colheita avançava de forma mais dinâmica, o monitoramento das condições de tráfego nas rotas de escoamento é a prioridade dos exportadores. O solo encharcado, aliado às temperaturas baixas, pode complicar o fluxo logístico para os portos do Arco Norte e do Sudeste.
Enquanto o Centro-Sul enfrenta o frio rigoroso, o Norte e o Nordeste mantêm um cenário meteorológico díspar. No Tocantins, o tempo permanece firme, com termômetros alcançando até 35°C, permitindo a continuidade plena dos trabalhos. No extremo Norte, contudo, a persistência de chuvas volumosas no Amapá e no Pará mantém o estado de alerta para produtores locais.
A meteorologia indica que o núcleo do ar frio deve se posicionar sobre o Sudeste nesta quinta-feira, 25, mantendo o risco de geadas em áreas produtoras de café e hortifrúti em Minas Gerais e São Paulo. Produtores devem focar, nas próximas 48 horas, na proteção de culturas sensíveis ao frio e na gestão da logística para minimizar os efeitos da instabilidade sobre a qualidade final do produto colhido.
Fonte: Pensar Agro
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