AGRONEGÓCIO
Bactéria da Caatinga inspira novo bioherbicida contra planta daninha resistente no Brasil
Publicado em
6 de janeiro de 2026por
Da Redação
Descoberta promissora para o controle sustentável de plantas daninhas
Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e da Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto, identificaram uma bactéria nativa dos solos da Caatinga com potencial de revolucionar o controle de plantas daninhas no Brasil. O microrganismo demonstrou capacidade de inibir a germinação da buva (Conyza canadensis), espécie resistente a diversos herbicidas químicos e considerada uma das principais ameaças à produtividade agrícola.
O estudo, publicado na revista científica Pest Management Science, foi conduzido pelo químico Osvaldo Ferreira, sob orientação dos pesquisadores Danilo Tosta Souza e Luiz Alberto Beraldo de Moraes, da USP, em colaboração com o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Itamar Melo.
O desafio da buva: resistência e altos custos para o produtor
A buva está presente em praticamente todas as regiões do Brasil e tem mostrado resistência crescente a diferentes grupos de herbicidas sintéticos. Esse comportamento dificulta o controle, eleva os custos de produção, compromete os rendimentos das lavouras e aumenta a pressão ambiental pelo uso intensivo de defensivos.
Diante desse cenário, a busca por alternativas naturais e sustentáveis tornou-se urgente. O uso de microrganismos e de suas moléculas bioativas desponta como uma estratégia inovadora para reduzir a dependência de químicos sintéticos e promover um manejo mais equilibrado das plantas invasoras.
A Caatinga como laboratório natural de inovação
O ponto de partida da pesquisa foi a triagem de actinobactérias, grupo de microrganismos conhecido pela produção de compostos bioativos de interesse agrícola e farmacêutico. Entre as amostras testadas, a cepa Streptomyces sp. Caat 7-52, isolada do solo da Caatinga, destacou-se pelo forte efeito fitotóxico — ou seja, pela capacidade de prejudicar o desenvolvimento das plantas daninhas.
“A Caatinga funciona como um verdadeiro laboratório natural. Os microrganismos que vivem nesse ambiente extremo desenvolveram estratégias únicas de sobrevivência e, com isso, produzem moléculas inéditas com aplicações promissoras”, explica o pesquisador Itamar Melo, da Embrapa Meio Ambiente.
Albociclina: a molécula que pode transformar o manejo de daninhas
A análise química revelou que a bactéria produz duas substâncias principais: ácido 3-hidroxibenzóico e albociclina. Esta última foi descrita, pela primeira vez, com atividade herbicida comprovada, representando um avanço inédito na bioprospecção de compostos naturais.
Nos testes laboratoriais, a albociclina inibiu a germinação da buva em concentrações muito baixas (6,25 µg/mL), o que a torna uma candidata promissora para o desenvolvimento de bioherbicidas eficientes e de baixo impacto ambiental.
“Registramos pela primeira vez a ação fitotóxica da albociclina. Essa descoberta amplia o campo de aplicação desse composto e abre caminho para estratégias de manejo mais sustentáveis”, destaca o pesquisador Danilo Tosta Souza.
Produção otimizada e potencial de aplicação em larga escala
Para ampliar a eficiência do processo, os cientistas aplicaram técnicas de otimização do meio de cultivo, estimulando a bactéria a produzir maiores quantidades de albociclina e de seus análogos químicos. O ajuste aumentou a diversidade das moléculas obtidas e melhorou o rendimento, fator essencial para a futura produção em escala industrial.
Essa abordagem representa um avanço estratégico, já que permite controlar o metabolismo microbiano para gerar compostos com diferentes níveis de atividade biológica — um passo importante rumo à formulação de produtos comerciais.
Efeito direto do caldo bacteriano e menor custo de produção
Além das moléculas purificadas, os pesquisadores testaram o caldo fermentado bruto da bactéria, sem uso de solventes químicos. O resultado foi igualmente positivo: o material apresentou efeito seletivo contra plantas daninhas dicotiledôneas, como buva, caruru e picão-preto, mantendo a integridade de espécies cultivadas, como feijão e algodão.
Segundo o pesquisador Luiz Alberto Beraldo de Moraes, essa característica representa redução de custos e simplificação no processo de produção, já que o bioherbicida poderia ser utilizado sem necessidade de purificação complexa. Além disso, o método é mais limpo e ambientalmente seguro, por dispensar solventes industriais.
Próximos passos: testes de campo e formulações comerciais
Os próximos estágios da pesquisa envolvem testes em campo, avaliação de eficácia em diferentes culturas, desenvolvimento de formulações comerciais e análises ecotoxicológicas para garantir a segurança do produto em organismos não alvo.
O objetivo é integrar a tecnologia aos programas de Manejo Integrado de Plantas Daninhas (MIPD), combinando práticas sustentáveis e inovadoras para manter a produtividade sem comprometer o meio ambiente.
“Ainda estamos em uma fase inicial, mas os resultados são muito promissores. O desafio é transformar esse potencial em uma solução prática e acessível para os agricultores”, afirma Melo.
Potencial dos biomas brasileiros para a agricultura do futuro
A descoberta reforça a importância da bioprospecção de microrganismos nativos dos biomas brasileiros, como a Caatinga, que, além de sua relevância ecológica, abriga uma rica diversidade microbiana com potencial estratégico para o agronegócio.
O desenvolvimento de compostos bioativos como a albociclina consolida o Brasil como referência em bioinsumos agrícolas, reduzindo a dependência de importações e fortalecendo o compromisso do país com práticas agrícolas de baixo carbono e sustentabilidade.
“A ciência tem o poder de transformar a biodiversidade brasileira em soluções inovadoras. A Caatinga guarda um potencial imenso — e estamos apenas começando a explorá-lo”, conclui Tosta.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Mercado de cacau entra em alerta com risco de El Niño e ameaça de seca na África Ocidental
Published
15 minutos agoon
3 de junho de 2026By
Da Redação
O mercado internacional de cacau segue convivendo com um cenário de contrastes. De um lado, a expectativa de recuperação da oferta global e a perspectiva de superávit nos próximos meses pressionam os preços. De outro, os riscos climáticos nas principais regiões produtoras do mundo continuam alimentando a volatilidade e impedindo movimentos mais acentuados de queda.
De acordo com análise da Hedgepoint Global Markets, a combinação entre previsões de chuvas abaixo da média na África Ocidental e o aumento das chances de formação do fenômeno El Niño mantém o mercado em estado de alerta, especialmente em um momento decisivo para o desenvolvimento da próxima safra.
Preços acumulam forte valorização no mês
Apesar do viés baixista predominante nos fundamentos do mercado, os contratos futuros registraram ganhos expressivos ao longo de maio.
Na semana encerrada em 29 de maio, o cacau foi negociado a US$ 3.923 por tonelada em Nova York e a 2.975 libras esterlinas por tonelada em Londres. No acumulado mensal, as cotações avançaram 12,3% e 13,5%, respectivamente.
Segundo a analista de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets, Carolina França, os movimentos recentes foram impulsionados principalmente por fatores técnicos e ajustes de posicionamento dos investidores.
O mercado também acompanhou informações sobre uma possível safra mais robusta na Costa do Marfim, maior produtor mundial da commodity, além de preocupações relacionadas à qualidade das amêndoas produzidas na África Ocidental. Ainda assim, não houve alterações significativas nos fundamentos globais de oferta e demanda.
Clima continua sendo o principal fator de risco
As condições meteorológicas permanecem no centro das atenções do setor cacaueiro.
Na Costa do Marfim, os volumes de chuva seguem acima dos registrados no ciclo anterior e próximos da média histórica, favorecendo o desenvolvimento das lavouras. Em Gana, segundo maior produtor da região, as precipitações também apresentam desempenho positivo, contribuindo para o potencial produtivo da safra.
Entretanto, especialistas alertam que o excesso de umidade também pode aumentar a incidência de doenças e dificultar parte das operações de campo.
O principal ponto de atenção está nas previsões climáticas para junho. Modelos meteorológicos indicam redução das chuvas em algumas áreas da África Ocidental durante as próximas semanas, justamente em um período considerado estratégico para a formação da safra 2026/27.
Essa fase corresponde ao florescimento das plantas que irão originar a principal colheita da próxima temporada, prevista para começar em outubro.
Caso o déficit hídrico se confirme e se prolongue ao longo do mês, o potencial produtivo poderá ser impactado, oferecendo sustentação adicional aos preços internacionais.
El Niño aumenta incertezas para a produção mundial
Outro fator que vem preocupando o mercado é o fortalecimento das expectativas para o retorno do fenômeno El Niño.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para 82% a probabilidade de formação do fenômeno entre maio e julho. As projeções indicam ainda que o evento poderá permanecer ativo durante o inverno 2026/27 do Hemisfério Norte.
Os modelos climáticos apontam que a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 pode ultrapassar 1,5°C e atingir até 2°C a partir de setembro, caracterizando um episódio de forte intensidade.
Historicamente, o El Niño provoca alterações significativas nos regimes de chuva em diversas regiões produtoras de commodities agrícolas.
No caso do cacau, o fenômeno costuma favorecer condições mais secas em áreas da África Ocidental e Central, além de partes da América Central e do norte do Brasil. Em contrapartida, pode aumentar os volumes de precipitação em países como Peru e Equador.
Além das mudanças no regime de chuvas, especialistas também monitoram a possibilidade de ondas de calor mais frequentes tanto na África quanto na América do Sul.
Mercado deve continuar reagindo rapidamente às notícias climáticas
Mesmo com a perspectiva de superávit global e estoques certificados elevados nas bolsas internacionais, o mercado de cacau continua extremamente sensível a qualquer mudança nas condições meteorológicas.
A avaliação dos analistas é que a formação do El Niño adiciona um importante componente de incerteza para os próximos meses, especialmente porque seus impactos variam de acordo com a intensidade do fenômeno e sua interação com fatores regionais, como os ventos Harmattan e o sistema de monções da África Ocidental.
Dessa forma, a tendência é que os preços continuem reagindo rapidamente a novas informações sobre o clima, a evolução das lavouras e a oferta global.
Perspectiva para o setor
Para produtores, exportadores, indústrias e investidores, o monitoramento climático deverá permanecer como um dos principais indicadores de mercado ao longo de 2026.
Embora o cenário atual ainda aponte para uma recuperação parcial da oferta mundial, os riscos associados ao clima continuam elevados. A evolução das chuvas na África Ocidental, o desenvolvimento do El Niño e o comportamento da demanda global serão determinantes para definir a trajetória dos preços do cacau nos próximos meses.
Em um mercado historicamente sensível às condições climáticas, qualquer alteração relevante na produção das principais regiões exportadoras pode desencadear novos movimentos de valorização e ampliar a volatilidade das negociações internacionais.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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