AGRONEGÓCIO
Sistemas integrados de produção aumentam matéria orgânica em solos da Caatinga
Publicado em
21 de março de 2024por
Da RedaçãoPesquisa desenvolvida pela Embrapa Caprinos e Ovinos (CE) e Embrapa Meio-Norte (PI) demonstrou que sistemas agroflorestais aumentam o estoque de carbono orgânico no solo em até 50% a mais que uma área de vegetação nativa. Já no sistema que usou consórcio de milheto ou sorgo com capim Massai, o teor de nitrogênio no solo foi 60% superior em relação à mata de Caatinga. Os dados indicam que sistemas integrados de produção podem sequestrar carbono no solo e recuperar perdas por emissões de gases de efeito estufa na agropecuária.
Os resultados da pesquisa foram publicados na Revista Brasileira de Ciências do Solo e trazem indicadores de que é possível, em sistemas integrados, adotar um manejo sustentável da Caatinga que concilie a vegetação nativa e a formação de novas áreas de produção agrícola, proporcionando benefícios como aumento da produção de forragem e garantindo a segurança alimentar dos rebanhos. Essa alternativa é importante porque, no bioma, as atividades agrícolas ainda são caracterizadas por problemas como queimadas e superpastejo, que ocasionam redução da fertilidade do solo. No Semiárido brasileiro, o estoque de carbono orgânico pode ser reduzido entre 12% a 27%, em função de fatores como as condições climáticas e manejos inadequados.
De acordo com o pesquisador da Embrapa Rafael Tonucci, o principal fator para esses resultados é que os sistemas integrados de produção favorecem a chamada “produção primária líquida” [aumento da produção de forragem e da vegetação herbácea] e a decomposição de matéria orgânica, a partir das culturas agrícolas e das árvores, promovendo tanto a cobertura como o incremento de carbono no solo. “Esse carbono vem, basicamente, da decomposição de raízes e das folhas que caem – a chamada serrapilheira, do capim e da cultura agrícola implementados nas faixas do sistema. Uma matéria orgânica de qualidade”, destaca ele.
No caso específico do sistema consorciado, Tonucci acrescenta que o incremento de nitrogênio se deve, principalmente, ao plantio consorciado com leguminosa e com a adubação utilizada. “Houve um aporte grande de nitrogênio pela entrada do feijão guandu e pela adubação em plantio convencional”, explica o pesquisador.
A pesquisa
Nos testes, desenvolvidos no campo experimental da Embrapa em Sobral (CE), foram avaliadas amostras de solo em quatro diferentes áreas: vegetação nativa de Caatinga; sistema com cultivo de planta forrageira (milho ou sorgo) consorciado com capim Massai; dois sistemas agroflorestais (AFS 10 e AFS 20), com diferentes proporções de áreas de floresta nativa preservada e áreas agrícolas, compostos por remoção da madeira de interesse comercial e área agrícola com cultivo de sorgo (ou milheto), feijão e capim Massai.
Os dois sistemas agroflorestais apresentaram melhor desempenho em relação ao estoque de carbono orgânico no solo: as análises sobre o AFS 20 mostraram um indicador de 50% a mais que o solo da vegetação nativa, enquanto no caso AFS 10, esse valor foi superior a 26% na comparação com a área de Caatinga. Já o sistema consorciado apresentou bons indicadores para o nitrogênio, em proporção 60% melhor que a área da Caatinga nativa.
Esses dados foram considerados interessantes para a equipe responsável pela pesquisa, pois a conversão da Caatinga em áreas agrícolas e de pastagens, em geral, reduz os estoques de carbono e nitrogênio no solo. A implementação de culturas com alta produção de biomassa, porém, pode promover aumento dos teores desses elementos, proporcionando, ainda, um ambiente favorável ao desenvolvimento de microrganismos no solo.
O estudo destaca também que, com a possibilidade de práticas de manejo adequadas é possível recuperar pastagens e a fertilidade dos solos, além de desenvolver lavoura e pasto de plantas forrageiras, proporcionando mais autonomia para a alimentação de animais. Tudo isso favorece o sequestro de carbono no solo em quantidades que podem ser suficientes para recuperar as perdas por emissões de gases de efeito estufa nos sistemas de produção pecuárias. Entre elas, a emissão de metano entérico por animais ruminantes (como bovinos, caprinos, ovinos) e a emissão de óxido nitroso proveniente do uso de fertilizantes.
“Sempre que a gente fala de mitigação de gases, entramos em uma lógica de balanço, de emissões e reduções. E o solo entra nesse balanço como o principal componente: é termos árvores, elas têm sua importância para o sequestro de carbono, mas o maior estoque, o maior reservatório de carbono é o solo, não é a floresta”, frisa Tonucci.
Redução de degradação dos solos
Os pesquisadores apontam que outro benefício do incremento da matéria orgânica no solo, por meio de sistemas integrados de produção, é a possibilidade de reduzir processos de erosão e degradação do solo na Caatinga. Tonucci destaca que a matéria orgânica funciona como um “cimento” para dar coesão às partículas que compõem o solo.
No caso da Caatinga, além do solo ser naturalmente pobre em matéria orgânica, predomina uma precipitação de pancadas de chuvas fortes em pouco espaço de tempo, que pode causar processos de degradação. “O principal benefício do sistema integrado é que temos cobertura de solo quase o ano inteiro. Isso minimiza muito a erosão, é como se tivéssemos um ‘cimento” mais forte para que as partículas fiquem próximas umas das outras e reduza o impacto das chuvas: a água vai infiltrar lentamente, o solo terá tempo para absorvê-la”, explica Tonucci, que acrescenta que a cobertura vegetal também reduz a temperatura do solo, favorecendo a sobrevivência de microrganismos e nutrientes para as espécies vegetais.
O pesquisador Henrique Antunes, da Embrapa Meio-Norte, explica que para minimizar a degradação dos solos, a principal medida é utilizar práticas conservacionistas, como o cultivo em consórcio, a exemplo do milho consorciado com alguma gramínea forrageira. “Essa medida ajuda, por exemplo, a aumentar em médio e longo prazo a matéria orgânica no solo e, inclusive, abafar plantas daninhas que irão aparecer durante o cultivo do milho”, comenta. Essas estratégias são acessíveis ao agricultor que pode também plantar espécies florestais, contribuindo para o bem-estar animal, caso tenha animais na área.
Antunes ressalta que a própria ciclagem de nutrientes pela geração de serrapilheira do componente florestal também é um ponto importantíssimo para a melhoria de matéria orgânica. O pesquisador recomenda que o agricultor procure utilizar plantas de cobertura e palhada para proteger o solo, além de procurar implantar algum sistema de integração ou agrossilvipastoril em algum grau. “A ideia é que sempre que possível, o agricultor possa adotar algum sistema que proporcione ou que possibilite, se não um aumento, pelo menos a manutenção dos patamares de matéria orgânica em ambientes extremamente frágeis, como em áreas degradadas, por exemplo”.
Incrementos para sustentabilidade
Ao conciliar atividades agrícolas e pecuárias com o uso sustentável dos recursos da vegetação da Caatinga (inclusive com a conservação de trechos da mata dentro das propriedades rurais) os sistemas integrados de produção conferem incrementos para a sustentabilidade no bioma. Esses sistemas são alternativas para que a atividade agropecuária seja viável para produtores rurais, minimizando impactos ambientais provocados pelas condições naturais ou ação humana.
No caso dos sistemas agroflorestais, a combinação de diferentes espécies vegetais na propriedade rural (arbóreas, gramíneas, leguminosas) é um fator que, além de incrementar a matéria orgânica e melhorar a qualidade dos solos, também otimiza o uso da terra: o produtor pode combinar as atividades de produção de alimentos, de forragem e de madeira, aumentando sua renda.
No caso da produção pecuária, os sistemas trazem, ainda, benefícios para nutrição e bem-estar animal. “O sistema permite que se faça um uso racional do ambiente, permitindo um aporte de nutrientes maior para os animais, que se alimentam da serapilheira e da vegetação que está lá nas faixas. A sombra das árvores também cria um abrigo natural, permitindo maior conforto”, destaca Tonucci.
Benefícios do incremento da matéria orgânica no solo
Entre os benefícios do incremento de matéria orgânica no solo estão as melhorias em termos de nutrientes e de atividade biológica no solo. No caso da Caatinga, o pesquisador Henrique Antunes explica que nos sistemas mais conservacionistas, como os agroflorestais, o uso de consórcio de cultura propicia uma heterogeneidade de raízes (das diferentes culturas agrícolas) dentro do sistema de produção.
“Isso é super importante, porque não só a geração de palhada, mas a quantidade de raízes que fica depois nesses sistemas acaba contribuindo para incremento de matéria orgânica. Consequentemente, isso acaba aumentando a atividade biológica do solo e, consequentemente, isso também acaba contribuindo para uma ciclagem de nutrientes maior. Então, em ambientes um pouco menos resilientes, é importante a inserção de matéria orgânica. A estratégia a ser usada para incremento de matéria orgânica tem que ser das mais diversas e, acima de tudo, aquelas mais acessíveis ao agricultor”, esclarece Antunes.
O uso de palhada, plantas de cobertura, adoção de sistemas agroflorestais ou Integração Lavoura, Pecuária, Floresta (ILPF – foto abaixo) ou mesmo o uso de consórcios com deixada de palhada na área, ou seja, o uso de uma pastagem bem formada e bem manejada são formas de incrementar a matéria orgânica. “A importância do aumento de matéria orgânica se traduz, de médio a longo prazo, em estabilidade de sistemas. E aí isso acaba contribuindo para maior rendimento das culturas. Mas acima de tudo, não só o rendimento, mas uma melhoria do ambiente edáfico [da saúde do solo], com melhoria na química, física, biologia e, consequentemente, também maior resistência a estresses abióticos como o estresse hídrico”, complementa.
O incremento na matéria orgânica no solo contribui também para mitigar a emissão de gases de efeito estufa na agropecuária, mas segundo o pesquisador essa redução não acontece de uma hora para outra, é um processo que depende da dedicação do produtor e da adoção de práticas conservacionistas e de uso de sistemas biodiversos com presença de componente florestal, presença de gramíneas forrageiras, de culturas diferentes, de raízes diferentes.
“Os sistemas agrossilvipastoris ajudam a minimizar a emissão de gases de efeito estufa, mas acima de tudo, eles ajudam a aumentar a qualidade e a quantidade de matéria orgânica nos sistemas. Isso, por si só já é algo que impacta diretamente na minimização da emissão de gases de efeito estufa. Então, se você está estocando mais, consequentemente você está emitindo menos. Se a gente não consegue aumentar a matéria orgânica, mas só de conseguir evitar a perda, ou seja, manter, e com perspectiva de aumento, isso é extremamente importante para sistemas agropecuários no bioma caatinga”, fala Henrique, acrescentando que a Caatinga é um sistema que aporta pouca matéria orgânica, pelas características próprias do bioma, o que torna necessária a condução de sistemas que busquem manter ou aumentar as concentrações de matéria orgânica ou mesmo o estoque de carbono.
Orientações sobre sistemas integrados de produção
Para mais informações sobre sistemas integrados na Caatinga, incluindo tipos de sistemas de produção recomendados, benefícios e orientações de como implementar um sistema de produção lavoura-pecuária-floresta (ILPF) para o bioma, a Embrapa disponibiliza esta cartilha sobre o tema.
Fonte: Embrapa Caprinos e Ovinos
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Produção de grãos cresce mais que silos e déficit de armazenagem já supera 130 milhões de T.
Published
12 minutos agoon
21 de junho de 2026By
Da Redação
A deficiência da infraestrutura de armazenagem continua cobrando uma conta bilionária do agronegócio brasileiro. A defasagem entre a produção de grãos e a capacidade de armazenagem já supera 130 milhões de toneladas, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Levantamento divulgado esta semana, realizado pela empresa paranaense Cogo Inteligência, estimou que os produtores brasileiros de soja e milho perderam R$ 88,3 bilhões entre 2023 e 2025 por causa da falta de capacidade para estocar a produção, obrigando a comercialização em momentos de maior oferta e, consequentemente, de preços mais baixos.
O problema ocorre justamente em um momento em que a produção nacional de grãos avança em ritmo recorde. A Conab projeta uma colheita de 353,4 milhões de toneladas nesta safra 25/26, enquanto a capacidade estática de armazenagem do país continua em torno de 220 milhões de toneladas. Na prática, a estrutura disponível é suficiente para guardar pouco mais de 60% da produção nacional, deixando um déficit superior a 130 milhões de toneladas.
A maior parte das perdas não está relacionada à deterioração dos grãos, mas à perda de renda. Sem espaço para armazenar a safra, muitos produtores precisam vender soja e milho logo após a colheita, período em que a oferta é elevada e os preços tendem a sofrer pressão. O excesso de produto nos portos também afeta os prêmios de exportação, reduzindo ainda mais o valor recebido pelo agricultor.
A situação contrasta com a observada em países concorrentes, como Estados Unidos e Argentina, onde a maior disponibilidade de silos permite aos agricultores escalonar as vendas ao longo do ano e aproveitar momentos mais favoráveis do mercado.
Segundo dados históricos da Conab, a produção brasileira de grãos cresceu 134% entre 2010 e 2023, enquanto a capacidade de armazenagem avançou apenas 53%, evidenciando que os investimentos em infraestrutura ficaram atrás da expansão da agricultura nacional.
Nos últimos anos, houve crescimento dos armazéns instalados dentro das propriedades rurais. O volume de capacidade nas fazendas passou de 20,7 milhões de toneladas em 2010 para 35,6 milhões de toneladas em 2025, uma alta de mais de 72%. Apesar disso, o avanço ainda é insuficiente para acompanhar o ritmo de crescimento das safras.
Entidades do setor defendem que a armazenagem deixe de ser vista apenas como uma estrutura complementar e passe a ser tratada como ferramenta estratégica de gestão. Além de reduzir custos logísticos, a capacidade de estocar a produção permite ao produtor escolher melhor o momento da venda, preservar a qualidade dos grãos e aumentar a competitividade da atividade.
A preocupação tende a crescer nos próximos anos. Com o Brasil consolidado como maior exportador mundial de soja e um dos principais fornecedores globais de milho, a expectativa é de continuidade da expansão da produção, o que exigirá investimentos cada vez maiores em silos, armazéns e logística pós-colheita para evitar que parte da rentabilidade obtida dentro da porteira seja perdida fora dela.
PROBLEMA SEGUNDÁRIO – O presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Engenheiro Agrônomo Isan Rezende (foto) lembrou que o déficit de armazenagem no Brasil não é novidade, mas segue sendo tratado como problema secundário dentro da política agrícola.
“O país já teve programas estruturados para expansão de silos e armazéns, como o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), no âmbito do Plano Safra, que previa aportes recorrentes para ampliar a capacidade estática, mas o volume efetivamente executado ficou abaixo da necessidade apontada pelo próprio setor, estimada em cerca de R$ 15 bilhões por ano para equilibrar o sistema”, comentou Rezende.
“O que se observa, na prática, é um descompasso entre o crescimento da produção e o ritmo dos investimentos em infraestrutura. Enquanto a safra de grãos avançou mais de 130% na última década, a capacidade de armazenagem cresceu em torno de 50%, segundo séries da Conab. Nesse intervalo, o déficit deixou de ser conjuntural e passou a ser estrutural, com impacto direto na formação de preços ao produtor”.
“Há programas públicos e linhas de crédito específicas voltadas ao setor, mas a execução ainda é insuficiente por representantes da cadeia. O PCA, principal instrumento federal para financiamento de armazenagem, prevê apoio à construção e modernização de estruturas, porém a demanda por crédito supera a oferta disponível em cada ciclo do Plano Safra, o que limita a expansão mais acelerada da capacidade instalada”, analisou o presidente do IA.
“O resultado desse desequilíbrio aparece na ponta. Sem espaço para estocar a produção, o produtor é obrigado a concentrar vendas no período de colheita, quando o mercado está mais pressionado. Na avaliação de entidades do setor, o tema segue sem coordenação de longo prazo entre governo, indústria e cooperativas, o que mantém o déficit de armazenagem como um dos principais gargalos logísticos do agronegócio brasileiro”.
O problema, na avaliação de Isan Rezende, é que falta execução coordenada e continuidade das políticas públicas. “Enquanto nós, produtores, seguimos produzindo safras recordes que empurram o país para frente, continuamos sem o apoio necessário para garantir a infraestrutura mínima. Isso não é falta de diagnóstico, é falta de prioridade na execução”, completou o presidente do IA.
Fonte: Pensar Agro
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