Tribunal de Justiça de MT

Em Encontro Nacional, Clarice Claudino tensiona o sistema e propõe o cuidado como eixo da Justiça

Publicado em

O II Encontro Nacional Mulheres na Justiça Restaurativa, realizado entre os dias 18 a 20 de março, na sede do Fórum Ruy Barbosa, em Salvador (BA), teve a participação ativa do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), representado pela desembargadora Clarice Claudino da Silva, presidente do Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (Nugjur), e referência na expansão da temática como política pública de pacificação social em Mato Grosso.

Consolidado como um espaço estratégico de intercâmbio, articulação e incidência no campo da Justiça Restaurativa, o encontro reuniu, ao longo de três dias, cerca de 300 participantes em uma programação dedicada à troca de experiências e boas práticas, com ênfase no protagonismo das mulheres, na mediação de conflitos, na atuação no sistema prisional e na promoção de uma cultura de paz.

Além da desembargadora, também participaram do Encontro de Mulheres da Justiça Restaurativa as juízas Érika Cristina Camilo Camin, coordenadora do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) de Colíder, e Débora Roberta Pain Caldas, titular da Segunda Vara Criminal de Sinop, ambas responsáveis pela condução da política de Justiça Restaurativa em suas comarcas, bem como a gestora-geral do Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (Nugjur), Euzeni Paiva de Paula.

A centralidade das mulheres na construção de novas formas de justiça orientou o painel “O Lugar da Mulher na Justiça Restaurativa na Visão Brasileira”, realizado no Auditório Cardeal Dom Geraldo Majella, na sede da Arquidiocese de São Salvador. Apesar de reunir trajetórias diversas, o painel convergiu na defesa de uma justiça mais dialógica, inclusiva e comprometida com a transformação das relações sociais. Integrante do painel, a desembargadora Clarice Claudino participou do debate ao lado da advogada e presidente da Comissão de Justiça Restaurativa da OAB-PA, Lorena Santiago Fabeni, pesquisadora com atuação destacada nas interseccionalidades entre gênero, raça e direitos humanos, e da advogada Silvia da Cunha Vieira, referência nacional na atuação em Justiça Restaurativa, direitos humanos e pensamento decolonial, sob mediação da juíza do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), Cristiane Menezes Santos Barreto.

Em sua intervenção, a desembargadora compartilhou sua experiência institucional, com foco na dimensão subjetiva do cuidado, articulando sua trajetória na magistratura com a construção da política de Justiça Restaurativa em Mato Grosso. Ao rememorar sua atuação em varas de família e infância, destacou o impacto das “dores emocionais” vividas por pessoas que atravessam o sistema de Justiça e como esse contexto a impulsionou na busca por instrumentos mais humanizados de resolução de conflitos. A partir desse percurso, reconheceu na mediação e, posteriormente, na Justiça Restaurativa caminhos estruturantes de uma política orientada pelo cuidado, conceito que, segundo a magistrada, não é apenas uma habilidade individual, mas expressão de um sistema de crenças socialmente construído, especialmente atribuído às mulheres.

“Grande parte da minha trajetória na magistratura foi atravessada por conflitos familiares, por questões de infância e juventude, e isso me colocou diante de um cenário que eu costumo dizer que é um verdadeiro hospital de dores emocionais. Aquilo me inquietava profundamente e me impulsionou a buscar caminhos que fossem além da resposta tradicional do Judiciário, instrumentos que pudessem, de fato, ajudar a minimizar essas dores. Foi nesse percurso que me encontrei com a mediação e, depois, com a Justiça Restaurativa, e ali eu reconheci um propósito, o de promover encontros mais humanos, baseados na escuta, no diálogo e na responsabilização. Com o tempo, também fui compreendendo que essa ideia de cuidado, que atravessa essas práticas, não é apenas uma característica individual ou uma habilidade natural. Ela é construída socialmente, faz parte de um sistema de crenças que, historicamente, atribui às mulheres esse lugar do cuidar”, pontuou.

Leia Também:  Judiciário promove Mutirão do Seguro Obrigatório para agilizar 350 perícias médicas em Cuiabá

A magistrada também apresentou resultados concretos de sua gestão como presidente do TJMT, no biênio 2023/2024, destacando a institucionalização da Justiça Restaurativa como política pública e sua expansão no campo educacional, com mais de 77 mil pessoas envolvidas em círculos de construção de paz e a formação de centenas de facilitadores. Ao narrar experiências práticas, como a condução de reuniões institucionais em formato circular e a aplicação de práticas restaurativas em escolas com crianças migrantes em situação de não-pertencimento, a desembargadora tornou ainda mais evidente a potência metodológica da escuta qualificada, da horizontalidade e da construção coletiva de soluções, inclusive em ambientes marcados por disputas de poder.

“Um episódio que me emocionou de uma maneira muito particular foi quando participamos de um círculo com crianças de uma escola do município de Várzea Grande, filhos de venezuelanos. Percebemos que, muitas vezes, o sofrimento que julgamos pequeno para nós pode ser devastador para o outro, e que nós nunca teremos a medida da dor do outro. O sofrimento daquelas crianças estava em coisas simples, como não se reconhecer nos costumes da escola. Uma criança chegou a dizer que se sentia como se estivesse em outro planeta. Quando ela foi ouvida e compreendida, isso mudou completamente sua relação com aquele espaço. É aí que percebemos a potência do círculo, de alcançar o que parece pequeno, mas que, para quem vive, é profundamente significativo”, refletiu a desembargadora Clarice.

Na mesma direção, Lorena Fabeni tensionou o debate ao situar a Justiça Restaurativa como um campo que exige leitura crítica das estruturas sociais, especialmente do patriarcado e das violências de gênero. Para a advogada, a incorporação da lente de gênero é condição indispensável para evitar a reprodução de violências estruturais no próprio fazer restaurativo. Ao compartilhar experiências na região amazônica, destacou a complexidade dos conflitos socioambientais e das violências contra mulheres, ressaltando que a Justiça Restaurativa demanda uma abordagem interseccional, capaz de considerar raça, território e desigualdades históricas.

“Para falar de Justiça Restaurativa, é necessário enfrentar o patriarcado como um sistema que atravessa o nosso fazer e o nosso estar no mundo. Se não incorporarmos essa lente, junto com a compreensão das questões de gênero, corremos o risco de, mesmo com boas intenções, reproduzir violências estruturais e até revitimizar mulheres. A Justiça Restaurativa exige essa leitura crítica e interseccional, especialmente em contextos como o da Amazônia, onde as violências de gênero, territoriais e sociais se entrelaçam de forma muito intensa”, provocou a advogada.

Leia Também:  Projeto Ribeirinho Cidadão leva esperança e dignidade à Comunidade de Porto Brandão

Já Silvia da Cunha Vieira trouxe uma perspectiva crítica e provocativa, ancorada em sua trajetória nos movimentos sociais e na formação em direitos humanos. Ao questionar a ideia de uma Justiça Restaurativa “feminina”, propôs compreendê-la como essencialmente feminista, não como um posicionamento de lado, mas como fundamento estrutural.

Sua fala enfatizou a necessidade de enfrentar as bases históricas de desigualdade, incluindo o racismo e a colonialidade, defendendo que a prática restaurativa não pode se dissociar dessas dimensões. Ao final, evocou a Justiça Restaurativa como um campo que convoca, simultaneamente, coragem e cuidado, sendo essencial assumir uma postura de mulheres “guerreiras e curadoras” na transformação das estruturas sociais.

“Para mim, não se trata de uma justiça feminina, mas de uma justiça feminista, porque não estamos falando de lado, estamos falando de base, de estrutura. Não é possível pensar Justiça Restaurativa sem enfrentar o racismo, a colonialidade e as desigualdades que organizam a nossa sociedade. A gente não se torna transformador ignorando essas dimensões. Por isso, eu acredito que a Justiça Restaurativa nos convoca a sermos, ao mesmo tempo, guerreiras e curadoras, com coragem para confrontar essas estruturas e com cuidado para transformar as relações”, desafiou Sílvia Vieira.

Ao articular experiências institucionais, acadêmicas e de base comunitária, o painel, mais uma vez, tornou evidente que o lugar das mulheres na Justiça Restaurativa no Brasil não se limita à participação, mas a um lugar de protagonismo na formulação de práticas, na disputa de sentidos e na construção de novos paradigmas de justiça, ancorados no diálogo, na responsabilização e na transformação das relações sociais.

Carta das Mulheres na Justiça Restaurativa – A leitura da Carta das Mulheres na Justiça Restaurativa marcou o fechamento simbólico do evento. O documento foi apresentado como resultado das discussões, das escutas e das construções coletivas realizadas ao longo dos três dias de programação em Salvador. Em termos institucionais, a carta funciona como elemento de registro político e programático de uma rede que busca ampliar espaço e influência dentro do sistema de Justiça. Nesse contexto, o encerramento do II Encontro Nacional Mulheres na Justiça Restaurativa consolidou três eixos principais: a ampliação da articulação institucional, o reconhecimento de trajetórias femininas na área e a produção de referências documentais e bibliográficas para sustentar a continuidade da agenda restaurativa em âmbito nacional.

Fotos: Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA)

Autor: Naiara Martins

Fotografo:

Departamento: Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa – NugJur

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

COMENTE ABAIXO:
Advertisement

Tribunal de Justiça de MT

‘Copa do Judiciário’ expande campanha para 2o Grau de jurisdição e aproxima TJMT do Selo Diamante

Published

on

Print de tela que mostra o presidente do TJMT, juízes auxiliares e a vice-diretora geral sentados em torno de uma mesa redonda de vidro, durante reunião de lançamento da Copa do Judiciário no segundo grau.Com o objetivo de manter o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) entre os mais excelentes do país, a campanha “Copa do Judiciário”, que utiliza o álbum de figurinhas como forma de tornar visível o cumprimento das metas do Prêmio de Qualidade do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e engajar magistrados e servidores, expandiu seu alcance do primeiro para o Segundo Grau de jurisdição.

O lançamento da Copa do Judiciário na segunda instância ocorreu na manhã desta quinta-feira (9), em evento virtual que contou com a participação de mais de 120 magistrados e servidores, dentre eles o presidente do TJMT, desembargador José Zuquim Nogueira; o corregedor-geral da Justiça, desembargador José Luiz Leite Lindote; o secretário-geral do TJMT e juiz auxiliar da Presidência, Agamenon Alcântara Moreno Júnior, os juízes auxiliares da Presidência Christiane da Costa Marques Neves e Túlio Duailibi Alves de Souza; o juiz auxiliar da CGJ, Jorge Alexandre Martins Ferreira; a diretora e a vice-diretora geral do TJMT, respectivamente Andréa Marcondes e Renata Bueno, além de magistrados, magistradas, servidores e servidoras.
O presidente do TJMT, desembargador José Zuquim Nogueira destacou a criatividade da proposta. “Transforma metas, indicadores e conquistas institucionais em uma dinâmica leve, capaz de engajar magistrados, servidores e equipes. A produtividade do Tribunal aparece nos números, mas nasce no trabalho das pessoas. Cada resultado entregue à sociedade carrega um grande esforço, cooperação e compromisso diário. Que esse álbum fortaleça esse espírito de equipe e nos ajude a reconhecer com leveza quem faz o TJMT avançar”, declarou, parabenizando a Corregedoria-Geral da Justiça (CGJ), que inicialmente lançou o projeto, por meio do Departamento de Aprimoramento da Primeira Instância (DAPI).
Foto vertical que mostra o desembargador José Luiz Leite Lindote em pé, sorrindo e segurando uma bola de futebol, no seu gabinete. Ele é um homem branco, de cabelo grisalho, usando terno cinza, camisa branca, gravata e sapato social preto.O corregedor-geral da Justiça, desembargador José Luiz Leite Lindote destaca que, ao aproveitar o clima de Copa do Mundo de Futebol e traduzir na linguagem do esporte os indicativos do Prêmio CNJ de Qualidade, a Copa do Judiciário busca motivar magistrados e servidores, mantendo o time unido em busca de melhores resultados.
“Ao preencherem o álbum com as figurinhas, eles estarão cumprindo metas e indicativos do Selo de Qualidade de uma forma simples e até divertida. E como o resultado alcançado no Primeiro Grau foi expressivo e a motivação visível entre os servidores, nós resolvemos trazer essa iniciativa também para o Segundo Grau, a fim de que possamos, de uma forma mais efetiva, renovar o Selo Diamante”, declarou.
O juiz auxiliar da CGJ, Jorge Alexandre Martins Ferreira conta que a ideia de realizar a Copa do Judiciário surgiu da equipe do DAPI, voltada primeiramente ao Primeiro Grau. “Como o engajamento foi muito legal, foi muito participativo, nós levamos a ideia para a Presidência para que levasse também para os demais departamentos do Segundo Grau e realizar um álbum de toda a gestão”, afirma.
Foto horizontal que mostra o juiz  Jorge Alexandre Martins Ferreira da cintura pra cima, em pé, sorrindo e segurando uma bola de futebol. Ele é um homem branco, de cabelos castanhos, usando camisa azul marinho, terno azul e gravata listrada. Segundo o magistrado, a união de todo o Tribunal alavanca as chances do TJMT obter o Selo Diamante de Qualidade do CNJ pelo segundo ano consecutivo. “Antes do lançamento do álbum, nós estávamos com uma perspectiva de alcançar em torno de 78% da pontuação do Prêmio. Essa projeção já subiu para mais de 84%. Então, já estamos chegando no Diamante, cuja meta é 85%. Eu acredito que isso vai tornar todo mundo pertencente para que todos se engajem pra trazer o nosso bicampeonato e novamente o Diamante para o TJ Mato Grosso”, comentou, animado.
Com a expansão da Copa do Judiciário para o Segundo Grau de jurisdição, a Coordenadoria de Planejamento entra em campo para acompanhar a implantação do álbum e monitorar o seu preenchimento pelas unidades. “O Tribunal de Justiça de Mato Grosso vem, ao longo dos anos, melhorando muito seu desempenho pela participação direta de servidores e magistrados. E esse momento lúdico permite a todos nós que nos sintamos participantes e integrantes desse grande projeto. O momento da Copa traz essa alegria de participação e integração entre as equipes”, avaliou o coordenador de Planejamento do TJMT, Afonso Maciel.
Ele lembra o histórico recente e positivo do Tribunal, com cinco Selos Ouro consecutivos e um Selo Diamante no Prêmio CNJ de Qualidade, salto histórico no Índice de Produtividade Comparada da Justiça (IPC-Jus) de 82% para 98%, redução de 7% do acervo processual, além de ser o 5º tribunal com menor taxa de congestionamento (52,7%). Diante disso, o coordenador reforça o apelo para que todos estejam empenhados no cumprimento das metas, cujo prazo final de produtividade da maioria delas é 31 de julho.
“Este é um momento importantíssimo do jogo! O prêmio está no seu último mês de grande impacto com relação aos incisos, então, é o momento de o tribunal engajar, de estar todo mundo comprometido. A hora é agora! É hora de fecharmos o placar e fecharmos com percentual que nos leve novamente à excelência, a um tribunal diamante”, incentiva.
Print de tela que mostra um painel do álbum de figurinhas da Copa do Judiciário. Álbum de figurinhas – Elaborado na versão digital para todos os magistrados e servidores e física para cada unidade, são necessárias 213 figurinhas para completar o exemplar. Cada figurinha representa um indicador das metas do Prêmio CNJ de Qualidade. O álbum permite visualizar, de forma simples e colaborativa, a evolução do cumprimento dos incisos constantes no edital do Prêmio, relativos a temas como Gestão Participativa, Socioambiental, Saúde, Prevenção do Assédio, Gestão Documental, Justiça Restaurativa, entre outros.
Durante o evento de lançamento do álbum na Segunda Instância, as equipes técnicas do Departamento de Aprimoramento da Primeira Instância (DAPI) e da Coordenadoria de Planejamento do TJMT (Coplan) apresentaram a estrutura da campanha, a organização do álbum e a dinâmica do seu preenchimento, ao longo do ciclo de mobilização para o Prêmio CNJ de Qualidade.
À medida que o álbum é preenchido, é possível acompanhar em tempo real e de forma transparente o atendimento dos critérios do Prêmio CNJ de Qualidade. Cada um dos incisos do álbum representa uma pontuação a ser obtida e, conforme essa pontuação vai sendo evidenciada, as figurinhas são disponibilizadas para as equipes, até que se complete o álbum. O prazo final de produtividade é 31 de julho para os principais eixos.
Com a expansão da Copa do Judiciário, todos os magistrados e servidores já podem acessar o site copajud.tjmt.jus.br para visualizar e preencher o álbum de figurinhas. Basta cadastrar login e senha informando nome completo, matrícula e seleção do perfil e da unidade.
Ao clicar em cada figurinha, é possível verificar quais são os seus objetivos e formas de serem conquistadas. Além da visualização do álbum digital, o site da Copa do Judiciário conta com um painel de monitoramento para visualizar quais figurinhas foram ou não alcançadas, bem como um gráfico de evolução de preenchimento das figurinhas.

Autor: Celly Silva

Leia Também:  Judiciário promove Mutirão do Seguro Obrigatório para agilizar 350 perícias médicas em Cuiabá

Fotografo:

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

COMENTE ABAIXO:
Continuar lendo

CUIABÁ

MATO GROSSO

POLÍCIA

FAMOSOS

ESPORTES

MAIS LIDAS DA SEMANA