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Inteligência artificial tem problemas, mas não os levantados por Musk

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Elon Musk assinou carta pedindo pausa em experimentos com inteligência artificial
Reprodução/Instagram – 05.10.2022

Elon Musk assinou carta pedindo pausa em experimentos com inteligência artificial

“Desinformação estratégica”. É assim que o pesquisador Tarcízio Silva, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA e estudioso do racismo algorítmico, define a carta assinada por Elon Musk e por diversos empresários e acadêmicos estadunidenses na última semana. O texto critica o avanço da inteligência artificial (IA) mas, na visão de pesquisadores brasileiros, não pelo motivo correto.

É o que acredita Fernanda Rodrigues, mestre em Direitos da Sociedade em Rede pela UFSM e coordenadora de pesquisa no Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS). “É sempre importante ressaltar os perigos que o desenvolvimento irresponsável de IA pode representar, porém a carta não endereçou isso da forma mais embasada”, avalia a pesquisadora.

Na carta, Musk, empresários e acadêmicos pedem uma pausa em experimentos relacionados à inteligência artificial, citando riscos que Fernanda considera futuristas. “Devemos arriscar perder o controle de nossa civilização?”, questiona o texto.

“O texto fala muito sobre os riscos de uma IA futurística, que pode se sobrepor à vontade humana e gerar um perigo à própria existência desta, mas mesmo mencionando um exemplo nas referências, deixa de lado toda a produção científica que aponta os problemas já enfrentados hoje com o uso dessa tecnologia, como vieses discriminatórios, desinformação e discurso de ódio. Portanto, isso gera questionamentos a respeito da efetiva preocupação que esse texto apresenta”, analisa Fernanda.

A carta ainda menciona diretamente o GPT-4 , versão mais atualizada da inteligência artificial que deu origem ao famoso ChatGPT . A OpenAI, empresa criadora das tecnologias, teve Elon Musk como um de seus fundadores e, atualmente, o bilionário critica os rumos que a companhia tomou, sobretudo por receber forte financiamento da Microsoft. De acordo com reportagem do site Semafor, Musk tentou assumir o controle da OpenAI antes de deixá-la, mas teve a recusa de outros fundadores.

Além do bilionário, outros empresários também assinam a carta. Para Tarcízio, um dos principais objetivos do texto é “chacoalhar as inclinações do capital financeiro na circulação de recursos”. O pesquisador cita outro grande objetivo da carta, que seria o de “promover uma noção de que o principal problema da inteligência artificial é uma suposta possibilidade futura de superação das capacidades dos humanos, que perderiam o controle”, assim como acredita Fernanda.

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“A carta soterra atores acadêmicos, políticos e ativistas que estão propondo soluções multisetoriais de controle da tecnologia que poderiam beneficiar todas as pessoas”, afirma Tarcízio.

Os reais riscos da inteligência artificial

Apesar de ter forte viés econômico, a carta divulgada na última semana trouxe à tona um debate bastante conhecido entre pesquisadores e ativistas: os riscos da inteligência artificial.

O problema, porém, não gira em torno de consequências futuras, que parecem vir de filmes de ficção científica, mas sim de questões que já estão presentes no nosso cotidiano.

“Nós temos hoje diferentes estudos que falam sobre os riscos associados ao desenvolvimento de IA. Dentre eles, destaco a disseminação de notícias falsas, não só por meio de texto, mas também por geração de imagens e deepfake. Da mesma forma, tem sido igualmente preocupante a reprodução de vieses discriminatórios por sistemas de IA, seja por viés de gênero, raça, classe social ou outro”, comenta Fernanda.

Algoritmos de inteligência artificial que usamos cotidianamente, como os presentes nas redes sociais, são capazes de trazerem consequências graves. A disseminação de desinformação e discurso de ódio são algumas delas, assim como o racismo algorítmico.

O conceito revela que os sistemas de inteligência artificial carregam consigo preconceitos e viéses, trazendo resultados discriminatórios. Alguns exemplos famosos são o uso de reconhecimento facial na segurança pública, que acaba reforçando o racismo estrutural, ou o caso de 2020 em que o algoritmo do Twitter retirava pessoas negras das fotos ao fazer o corte automático das imagens, sempre privilegiando rostos brancos.

Além de viéses de raça, sistemas de IA também podem carregar viéses de classe social ou gênero. Um exemplo é esta reportagem de 2021 do portal iG , que revela que o sistema do Google utiliza um algoritmo tendencioso para definir o gênero de seus usuários.

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“Quando sistemas gigantescos possuem falhas contra grupos específicos, os impactos vão muito além dos danos individuais. As históricas desigualdades sociais podem ser aprofundadas se a mediação de recursos sociais é concentrada em poucas empresas através de plataformas”, analisa Tarcízio.

Empresas sem controle

Atualmente, a sociedade civil e pesquisadores discutem parâmetros que as empresas devem adotar para desenvolver inteligências artificiais éticas e responsáveis socialmente. Esse tipo de cuidado, porém, não é colocado em prática.

Sistemas poderosos de IA, como o ChatGPT e o Bard , do Google, foram disponibilizados aos usuários ainda em fase de testes, quando podem ter problemas que não foram previstos nem corrigidos pelas empresas. A preocupação dentre as empresas de tecnologia ainda é tão pequena que, recentemente, a Microsoft, que vem investindo fortemente em IA, demitiu toda a sua equipe de ética no setor, segundo o site especializado Platformer.

No mundo, existem poucas regulações a respeito do desenvolvimento de inteligências artificiais. O principal exemplo é o AI Act, da União Europeia, que define algumas regras que devem ser adotadas pelas empresas.

No Brasil, existe o Projeto de Lei 21/2020, conhecido como Marco Legal da Inteligência Artificial, que foi aprovado no plenário da Câmara dos Deputados em 2021, mas não chegou a ser votado no Senado. No ano passado, uma comissão de juristas do Senado elaborou um substitutivo a partir deste PL da Câmara e de outros dois apresentados no Senado.

“A gente ainda está aguardando para que esse novo texto, mais aprofundado, seja colocado em pauta para que possa ser melhor discutido com todos os setores da sociedade”, afirma Fernanda.

Fonte: Tecnologia

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Credores aprovam plano do Grupo HPAR e fortalecem recuperação judicial da companhia

Assembleia com 80% de adesão consolida continuidade do conglomerado e reforça confiança do mercado

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O Grupo HPAR teve o plano de recuperação judicial aprovado nesta quarta-feira (13/05), durante Assembleia Geral de Credores realizada no processo que tramita na 1ª Vara Cível de Cuiabá (MT). A decisão representa uma das etapas mais relevantes da reestruturação financeira do Grupo.

O plano recebeu apoio maciço dos credores, alcançando adesão de 80,58% do valor total dos créditos presentes à assembleia. Instituições financeiras como Daycoval e Bradesco deram voto favorável às condições previstas no plano e no termo aditivo apresentado pelas recuperandas.

A aprovação consolida a continuidade operacional do Grupo HPAR, que atua nos setores de tecnologia, telecomunicações, infraestrutura de redes e serviços corporativos, reunindo as empresas Globaltask, SPE Piauí Conectado, H.Tell Telecom e Bao Bing Infraestrutura.

Internamente, o grupo trata a aprovação como um marco estratégico para preservação das atividades empresariais diante da crise provocada pelo descumprimento do contrato envolvendo a PPP-Piauí Conectado, considerada uma das maiores iniciativas de infraestrutura digital do país. O projeto implantou aproximadamente 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.

O grupo sustenta que houve encampamento ilegal da infraestrutura implantada sem a correspondente indenização pelos investimentos realizados.

O plano aprovado prevê que os recursos financeiros advindos (1) do procedimento de arbitragem que sujeita o Estado do Piauí, (2) da ação judicial de execução que tem contra o Banco do Brasil, garantidor do investimento realizado ou (3) da decisão que determina o pagamento da garantia na recuperação judicial — classificados como “Eventos de Liquidez” — sejam destinados ao cumprimento das obrigações previstas na recuperação judicial e ao pagamento dos credores.

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Entre os principais pontos de tensão está o litígio envolvendo garantias financeiras relacionadas à PPP. Segundo o grupo, o Banco do Brasil teria se recusado a liberar o dinheiro depositado e vinculado ao investimento realizado, esgotando financeiramente a empresa para levá-la à quebra para posterior tomada dos investimentos efetuados. Um recurso de agravo de instrumento, que vai decidir a liberação do valor para a empresa está pautado para ser julgado dia 20/05 no TJMT.

Para o advogado especialista em recuperação judicial do Grupo ERS, Euclides Ribeiro, a aprovação do plano demonstra maturidade do ambiente negocial e reforça a viabilidade econômica do grupo.

“Essa aprovação representa um importante sinal de confiança dos credores na capacidade de recuperação da companhia e principalmente na tese de que o Banco do Brasil deve sim liberar o dinheiro bloqueado pois é garantidor e caucionante dos recursos que estão na conta corrente do projeto. O processo demonstrou que, mesmo em cenários de forte complexidade institucional e financeira, é possível construir soluções jurídicas voltadas à manutenção da operação, proteção dos empregos e satisfação coletiva dos credores”, afirmou.

A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado é acompanhada com atenção por investidores, operadores de PPPs e agentes do mercado financeiro, diante dos possíveis impactos sobre a segurança jurídica de projetos públicos de infraestrutura no Brasil.

Entenda o caso

A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado transformou-se em uma das maiores disputas jurídico-empresariais já registradas no setor de infraestrutura digital brasileiro. A concessionária foi responsável pela implantação do projeto Piauí Conectado, considerado um dos maiores projetos públicos de conectividade do país, com cerca de 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.

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O modelo foi estruturado como uma Parceria Público-Privada (PPP), na qual a iniciativa privada realizou os investimentos necessários para construção, operação e manutenção da infraestrutura tecnológica estadual, enquanto o Estado se comprometeu contratualmente a remunerar a concessionária ao longo dos 30 anos da concessão.

Segundo as recuperandas, aproximadamente R$ 650 milhões foram investidos diretamente na implantação da rede óptica, datacenter, centros operacionais e infraestrutura de telecomunicações. A empresa sustenta que o projeto contribuiu para elevar o Piauí aos primeiros lugares nacionais em indicadores de conectividade entre 2022 e 2024.

A partir de 2023, com a posse do governador Rafael Fonteles, a relação entre a concessionária e o Governo do Piauí sofreu uma mudança abrupta e o conflito escalou rapidamente.

Segundo a concessionária, apesar de o contrato ter sido integralmente executado e a rede ter permanecido plenamente operacional durante toda a execução da concessão, o Estado passou a promover retenções massivas das contraprestações mensais previstas contratualmente, comprometendo severamente o fluxo financeiro da operação, tudo arquitetado para tomada da empresa pelo Estado sem pagamento dos investimentos.

Na sequência, sucederam-se auditorias técnicas, instauração de processos sancionatórios, decretação de intervenção estatal e, posteriormente, a caducidade da concessão. Além do conflito com o Governo do Piauí, o Grupo HPAR obteve a negativa do Banco do Brasil em pagar a garantia prestada, em que pese já ter ganho a arbitragem na Câmara Brasil Canadá. Segundo as recuperandas, a não liberação dessas garantias agravou significativamente o cenário de crise financeira das empresas.

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