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Viva o Povo Brasileiro

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Uma leitura de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo RibeiroViva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, ocupa um lugar singular no panorama da literatura nacional por transformar séculos de nossa trajetória coletiva em matéria narrativa e revelar, com extraordinária força, as raízes da estruturação social do país. Ao longo de suas páginas, o autor constrói um amplo retrato da formação do Brasil, no qual acontecimentos, personagens ficcionais e memórias coletivas se entrelaçam para expor as múltiplas camadas da experiência brasileira. A obra recebeu o Prêmio Jabuti de 1985, na categoria Romance, e o Prêmio Golfinho de Ouro, consolidando-se como uma das realizações mais significativas da ficção nacional. Seu autor seria posteriormente distinguido com o Prêmio Camões de 2008, o mais importante reconhecimento literário da língua portuguesa.O romance se desenvolve principalmente no Recôncavo Baiano, sobretudo na Ilha de Itaparica, cenário que funciona como um microcosmo da formação do país. Nesse espaço, carregado de memória e densidade cultural, a composição acompanha personagens e linhagens familiares que atravessam gerações, indicando o modo como as grandes transformações políticas e sociais repercutem na vida cotidiana.João Ubaldo envereda por cerca de três a quatro séculos da vida brasileira — do século XVII ao século XX —, interligando acontecimentos, como as invasões holandesas, a Guerra do Paraguai e Canudos, com ficção e elementos narrativos que, em certos momentos, evocam procedimentos associados ao realismo mágico. Embora Ubaldo não seja normalmente classificado de modo direto como autor desse movimento literário, alguns recursos presentes no romance dialogam com a coexistência entre realidade, memória coletiva e imaginação surrealista.O enredo percorre aproximadamente três séculos da experiência brasileira, mas não se organiza segundo uma cronologia linear rígida. O autor avança e recua no tempo, aproximando acontecimentos separados por décadas ou séculos. Esse movimento demonstra como certos traços estruturais da sociedade — desigualdade, violência, dominação e resistência — reaparecem sob novas formas ao longo das gerações.Os primeiros momentos da trama situam-se no século XVII, em meio ao Brasil colonial e às disputas pelo controle do território, incluindo o contexto das invasões holandesas. A partir desse cenário, o romance acompanha o processo de constituição da nossa sociedade, profundamente marcado pela escravidão, mistura cultural e rigidez de hierarquias sociais duradouras.Nos séculos posteriores aparecem episódios associados às transformações políticas do país, como os conflitos que cercaram a Independência, no início do século XIX, bem como o período do Império, com referências ao ambiente da Guerra do Paraguai. Nesse contexto, o autor incorpora elementos culturais ligados às tradições afro-brasileiras, evocando o universo religioso dos orixás, que coexistem com a vida política e militar do país. O romance alcança também acontecimentos decisivos do final do século XIX, como a abolição da escravidão, em 1888, e a Proclamação da República, em 1889, mudanças institucionais profundas que, contudo, não eliminaram as desigualdades herdadas do passado.À medida que a narrativa se aproxima do final do século XIX e das tensões que anunciam o século XX, a obra remete a conflitos sociais e políticos que marcaram profundamente a formação brasileira. Entre esses episódios destaca-se a Guerra de Canudos, frequentemente lembrada como um dos momentos mais dramáticos do confronto entre o poder estatal e populações marginalizadas do interior do país. A comunidade liderada por Antônio Conselheiro, no sertão baiano, foi percebida pelas autoridades republicanas como uma ameaça à ordem política recém-instalada e acabou sendo violentamente reprimida pelo Exército. O episódio constitui um marco da incompreensão do poder republicano, pois os sertanejos dificilmente poderiam pôr em risco os alicerces da República recém-implantada. No romance de João Ubaldo Ribeiro, a referência a Canudos irrompe de forma indireta, como parte do amplo pano de fundo que atravessa a narrativa e ilumina a persistência de conflitos estruturais na sociedade. Mais do que um evento isolado, Canudos aparece como metáfora das tensões entre poder e povo, entre centro e periferia, que se repetem ao longo da nossa formação.Ao longo desse vasto arco temporal, surgem personagens que representam diferentes dimensões de nossa experiência social. Alguns assumem um papel particularmente simbólico na reconstrução literária das origens do país. Entre essas figuras destaca-se Capiroba, personagem que remete às camadas mais profundas do nosso povo.Capiroba evoca as raízes indígenas e a relação ancestral com a terra, assumindo também uma dimensão que aponta para as nossas origens mais remotas. Sua presença recorda que a trajetória do Brasil não começa com a colonização europeia, mas com povos que já habitavam aquele território e possuíam suas próprias culturas e formas de organização social.Maria da Fé, uma das figuras mais marcantes do romance, encarna a força e a persistência do povo diante das adversidades. Sua trajetória é marcada por episódios de extrema violência. Ainda assim, sua presença no romance revela uma extraordinária capacidade de resistência e sobrevivência, simbolizando a continuidade do povo, apesar das opressões que marcaram sua experiência coletiva.Entre outros personagens que expressam as tensões sociais presentes no romance, destaca-se Amleto Ferreira, cujo percurso ilustra um processo de ascensão social dentro de uma sociedade profundamente cristalizada. Originado de condições modestas, ele, gradativamente, conquista prestígio e reconhecimento, aproximando-se dos círculos sociais mais influentes e incorporando os códigos culturais das classes dominantes. Sua história revela as ambiguidades da mobilidade social em uma sociedade marcada por desigualdades persistentes, sugerindo como a ascensão individual muitas vezes se associa à assimilação dos valores da própria elite.Os grandes senhores de terra surgem na figura do Barão de Pirapuama, que fotografa a mentalidade das elites escravocratas que dominaram vastas regiões do Brasil durante séculos. Por meio dele, o romance evidencia a estrutura de poder, baseada na concentração de riqueza, na exploração do trabalho e na naturalização da violência social.Ao reunir essas figuras num mesmo universo, Ubaldo constrói um retrato complexo da sociedade. A narrativa oficial — frequentemente centrada em governantes, militares ou instituições — desloca-se para o fundo da trama, enquanto, em primeiro plano, emergem as experiências daqueles que viveram os acontecimentos em sua dimensão concreta: escravizados, trabalhadores, camponeses, soldados, mulheres e homens comuns.Essa perspectiva nivela o romance às grandes obras da literatura nacional que alcançaram rara densidade na representação da experiência humana. Nesse ponto, a referência a Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, torna-se inevitável. Trata-se de um enredo que mergulha no universo existencial do sertão mineiro e recria, por meio de uma linguagem extraordinariamente inventiva, a vida, os conflitos e o modo de ser da gente dos sertões. Embora distintas em intenção e arquitetura literária, as duas obras demonstram como a literatura pode alcançar o universal a partir do chão que pisamos… Ao final da leitura de Viva o Povo Brasileiro, o leitor percebe que viveu muito mais do que uma sucessão de episódios do passado: transitou por uma longa experiência coletiva, marcada por violência, resistência, memória e transformação.Talvez seja justamente nesse ponto que resida a força mais profunda do romance. Ao revisitar séculos de trajetória social e colocar o povo no centro da obra, João Ubaldo Ribeiro nos lembra que o Brasil não foi construído apenas pelas decisões das elites políticas ou econômicas. Foi também, e sobretudo, moldado pela persistência silenciosa de milhões de homens e mulheres comuns.Assim, o título do livro deixa de ser apenas uma expressão retórica. Transforma-se em algo mais profundo: a presença do povo brasileiro na formação do país e um convite à consciência de sua própria força coletiva. Porque, no fim, a trajetória de uma nação não se limita à sucessão de acontecimentos que compõem o seu passado — ela reside também naquilo que o povo decide fazer com a memória de si mesmo.*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça em Mato Grosso.

Foto: Operários, Tarsila do Amaral. 1933.

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Fonte: Ministério Público MT – MT

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MPMT leva palestra às escolas sobre preservação do patrimônio

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O Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) promoveu, nesta quinta-feira (21), uma palestra sobre integridade e cidadania para estudantes da Escola Estadual João Brienne de Camargo, em Cuiabá. A atividade faz parte de um projeto voltado à prevenção de danos ao patrimônio público e ao incentivo da cultura de integridade entre os jovens da rede estadual de ensino.

Ao longo da palestra, os alunos foram convidados a refletir sobre o significado da democracia e sua relação com o dia a dia. A proposta foi demonstrar que a cidadania vai além do voto, envolvendo também responsabilidade coletiva e respeito às diferenças.

Os promotores de Justiça Gustavo Dantas Ferraz, da 10º Promotoria de Justiça Cível de Cuiabá, e Marcos Bulhões dos Santos, da 9ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital, conduziram a roda de conversa com os estudantes.

Marcos Bulhões destacou a importância de estimular, desde cedo, a prática da ética. Segundo ele, pequenos atos do cotidiano também impactam o ambiente coletivo. “A ideia é despertar nos jovens a noção do que é certo e justo. Quando cada um faz a sua parte, contribui para um ambiente com mais confiança entre as pessoas”, afirmou.

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O promotor também reforçou que agir corretamente independe do comportamento dos outros. “Mesmo que muitas pessoas ajam de forma errada, é essencial manter a integridade. Isso faz bem para a consciência e para toda a sociedade”, acrescentou.

O idealizador do projeto, promotor de Justiça Gustavo Dantas Ferraz, ressaltou a importância de preservar o patrimônio público. “Os bens públicos são de todos. Eles existem graças ao esforço da sociedade e precisam ser cuidados por cada cidadão, inclusive dentro da escola”, explicou.

Para o coordenador pedagógico da escola, Gerson Luiz de Souza, a presença do Ministério Público contribui para reforçar orientações já realizadas no ambiente escolar. “A palestra foi muito importante, principalmente porque enfrentamos problemas de depredação. Quando essa mensagem vem de fora, ganha ainda mais força entre os alunos”, avaliou.

Na quarta-feira (20), as palestras foram realizadas na Escola Estadual Jaime Veríssimo de Campos Júnior “Jaiminho”, em Várzea Grande, no período da manhã, e na Escola Estadual Pascoal Moreira Cabral, em Cuiabá, à tarde.

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Fotos: Luciana Silva

Fonte: Ministério Público MT – MT

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