Ministério Público MT
MPMT e CNJ destacam benefícios da solução consensual em entrevista
Publicado em
16 de julho de 2026por
Da Redação
Você prefere ter razão ou ser feliz? O dilema popular ganhou viés jurídico durante a entrevista desta quarta-feira (15) do projeto Diálogos com a Sociedade, realizada diretamente do estúdio do Espaço MP Por Elas, na 58ª Expoagro, em Cuiabá. O subprocurador-geral de Justiça Jurídico e Institucional do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), Marcelo Ferra de Carvalho, e o advogado e conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) Ulisses Rabaneda falaram sobre o tema “O Ministério Público resolutivo e a cultura da autocomposição” e defenderam que a solução consensual de conflitos contribui para a promoção do bem-estar social dos cidadãos.Durante a entrevista, Ulisses Rabaneda destacou que a busca pela felicidade está diretamente relacionada à capacidade de resolver conflitos e construir relações mais harmoniosas. “Todos os dias, nós acordamos buscando a felicidade. Não tem ninguém que acorda buscando ser triste. E você só acorda e consegue ser feliz se não tiver conflitos. Se tiver conflitos, você não é feliz. Então, quando se fala em busca da felicidade, nós estamos falando da resolução dos nossos conflitos e de viver absolutamente em paz. É isso que nós precisamos”, afirmou.Na mesma linha, Marcelo Ferra ressaltou que a insistência em provar quem está certo nem sempre representa a melhor solução para os envolvidos. Ao defender a cultura da autocomposição, ele lembrou o conhecido ensinamento de que, muitas vezes, um acordo é mais vantajoso do que uma longa disputa judicial. “Numa discussão, o cidadão não busca ser feliz, ele busca ter razão. Mas, quanto mais a gente puder resolver os problemas pela via consensual, e não pela via demandista, melhor será para todos, inclusive para o Ministério Público”, destacou.Ao abordar a evolução dessa atuação institucional, Marcelo Ferra explicou que o modelo contemporâneo do Ministério Público foi consolidado a partir da Constituição Federal de 1988, que ampliou as atribuições para além da esfera criminal, alcançando áreas como meio ambiente, defesa do consumidor, infância e cidadania. Segundo ele, diante do amplo conjunto de responsabilidades, a instituição passou, inicialmente, a recorrer com maior frequência à judicialização como forma de implementar os direitos e políticas públicas previstos.“Com o passar do tempo, o Ministério Público viu que aquilo não resolvia, que as demandas ficavam estancadas no Poder Judiciário e que, quando saía uma solução pela via do processo, não necessariamente essa solução resolveria o problema, pois dependeria de outros atores. Então, o Ministério Público percebeu que teria de atuar não de forma isolada, mas em parceria com outras instituições e com os demais Poderes, optando por resolver os conflitos não da forma tradicional, pela via judicial, mas por meio do diálogo, da conversa e da composição, para alcançar maior eficácia”, explicou. Do ponto de vista do Judiciário, Ulisses Rabaneda destacou que a da autocomposição é uma resposta à própria realidade do Sistema de Justiça brasileiro. Segundo ele, o país possui atualmente mais de 80 milhões de processos em tramitação e, embora os magistrados mantenham elevados índices de produtividade, julgando mais processos do que aqueles que ingressam anualmente no sistema, o estoque processual ainda permanece elevado.“Chegou-se à conclusão de que o espaço de confronto e a ideia de levar tudo ao Poder Judiciário não resolve o conflito. Temos observado que o espaço do consenso é mais efetivo. Cada um cede um pouco e vai para casa com o problema resolvido, sem mais um processo no Poder Judiciário. Desse modo, o Conselho Nacional de Justiça tem incentivado essa política, de modo a fazer com que o Poder Judiciário se concentre em resolver aquelas questões que são absolutamente mais graves”, informou. Ao falar sobre os benefícios do Ministério Público Resolutivo, Marcelo Ferra fez uma comparação para ilustrar a mudança de paradigma. Segundo ele, a sociedade costuma valorizar mais quem apaga um incêndio do que quem atua preventivamente para evitar que ele aconteça. O procurador de Justiça argumentou que a mesma lógica se aplica à atuação institucional: embora ações preventivas nem sempre recebam a mesma visibilidade, impedir a ocorrência de um problema ou solucioná-lo rapidamente gera resultados muito mais positivos para a população do que remediar danos já consumados.Participação da advocacia – A entrevista também abordou uma proposta em discussão no CNJ para ampliar a participação de advogados em procedimentos de mediação e conciliação. Ulisses Rabaneda defendeu que o consenso somente alcança sua plenitude quando ocorre em condições equilibradas para todas as partes envolvidas. “Então, a proposta apresentada foi a de que, em determinadas situações, seja garantido que aquele que vá a um ambiente de consenso esteja também representado por um advogado. Por exemplo, em ações de família, questões de guarda ou quando uma das partes já está representada por advogado. São situações em que, a despeito de estarmos em um espaço de diálogo, não se pode permitir que uma das partes esteja representada por advogado e a outra não. Porque, apesar de ao final haver um acordo, muitas vezes ele não será um acordo justo”, argumentou. Ao aprofundar nessa questão, o advogado ressaltou que a ausência de orientação técnica pode comprometer a efetiva proteção dos direitos de pessoas que desconhecem as consequências jurídicas de um acordo. Para ele, o verdadeiro objetivo da Justiça consensual deve ser resolver conflitos de forma satisfatória e equilibrada, evitando que uma solução aparentemente rápida produza novas insatisfações ou injustiças.ANPP – Outro instrumento abordado durante a entrevista foi o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP). Marcelo Ferra explicou que a medida permite solucionar infrações de menor gravidade sem a necessidade de percorrer todas as etapas de um processo criminal tradicional. Para ele, a possibilidade de formalizar um acordo logo na fase inicial gera ganhos para todas as partes envolvidas. Além de proporcionar uma resposta mais rápida ao caso concreto, libera recursos humanos e estruturais do sistema de Justiça para o enfrentamento de crimes mais graves, que não admitem soluções consensuais. Ulisses Rabaneda acrescentou que, historicamente, os brasileiros foram educados a enxergar o Poder Judiciário como o único caminho possível para resolver conflitos. Para ele, o desafio atual, portanto, consiste em fortalecer uma cultura pautada no diálogo, na mediação, na conciliação e na arbitragem. Assim, o conselheiro reconheceu o protagonismo do MPMT na implementação do ANPP, quando a instituição afastou a exigência de confissão formal do investigado como condição para celebração do acordo. Na avaliação do conselheiro, a medida ampliou a efetividade do instrumento e permitiu a recuperação mais rápida de recursos públicos, além da realização de investimentos sociais por meio de prestações de serviços à comunidade.Exemplos – Os entrevistados ainda citaram exemplos de resultados efetivos obtidos pela Justiça consensual. Ulisses Rabaneda citou o escândalo dos maquinários em Mato Grosso, que aguardava definição há mais de uma década, com situações que passaram a encontrar desfechos mais céleres, com retorno imediato de recursos aos cofres públicos e encerramento de litígios longos.Marcelo Ferra complementou citando ocorrências registradas em operações da Lei Seca, que frequentemente poderiam gerar dezenas de processos criminais. Sem os mecanismos de consenso, cada caso demandaria anos de tramitação, mobilizando magistrados, promotores de Justiça, advogados, policiais e servidores públicos. Para o procurador, a solução negociada evita a sobrecarga do Sistema de Justiça e permite que os agentes públicos permaneçam dedicados às suas funções essenciais, produzindo benefícios diretos para toda a sociedade.Defesa da democracia – Para encerrar, Marcelo Ferra refletiu sobre os desafios e o papel do Ministério Público na defesa da democracia. “O Ministério Público é uma instituição que, em sua essência, não existe fora de um regime democrático. E defender a democracia é uma obrigação de todos nós. Não há como conceber um Ministério Público livre e independente que não esteja inserido em um regime democrático”, finalizou. Assista aqui à entrevista na íntegra.
Fonte: Ministério Público MT – MT
Ministério Público MT
Travessia Pantaneira inicia escuta social na comunidade do Chumbo
Published
23 horas agoon
15 de julho de 2026By
Da Redação
“A gente queria uma resposta para ontem, porque já tem seis meses que estamos nessa demanda.” A cobrança do chefe distrital Odilei Souza Ponce pela reforma da escola da comunidade marcou o primeiro dia da segunda etapa da Travessia Pantaneira, realizada nesta terça-feira (15), no Distrito de Nossa Senhora Aparecida do Chumbo, em Poconé (a 100 km de Cuiabá). Durante a escuta social promovida pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), o líder comunitário apontou como principais necessidades das 253 famílias da localidade a melhoria da educação e o acesso à água potável de qualidade.A visita integra a programação da segunda etapa da Travessia Pantaneira, iniciativa desenvolvida pelo MPMT em parceria com a Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira, A Casa do Centro e a Associação dos Guardiões e Guardiãs do Pantanal de MT e MS (Aguapan). A proposta é ouvir diretamente moradores e lideranças locais sobre os principais desafios sociais e ambientais enfrentados pelas comunidades pantaneiras, fortalecendo a atuação institucional a partir de uma escuta social ativa e qualificada.Entre os dias 15 e 18 de julho, serão realizadas audiências públicas e visitas às comunidades do Chumbo, ao Pesqueiro do Beijão e ao Porto Jofre, além de agendas técnicas e institucionais em diferentes pontos do Pantanal. No primeiro dia da travessia, os moradores do Chumbo relataram dificuldades relacionadas à educação, abastecimento de água, saneamento básico, comunicação e infraestrutura.Ao apresentar as reivindicações da comunidade, Odilei Ponce destacou a demora no início das obras de reforma da escola local. Segundo ele, a demanda já foi levada à Prefeitura de Poconé e ao Governo do Estado, mas ainda não houve uma solução efetiva. O chefe distrital também relatou a preocupação dos moradores com a qualidade da água consumida pela população e com a ausência de caixas d’água para dezenas de famílias da região.Outra demanda apresentada durante a escuta foi a falta de sinal de telefonia móvel. Moradora da comunidade, Marilene de Oliveira Campos ressaltou que a limitação compromete o acesso a serviços essenciais. “O único meio de comunicação que temos é o wi-fi, através da internet privada, para quem tem condições de pagar, e ainda assim é um sinal de péssima qualidade”, relatou.Ela explicou que, em situações de emergência, os moradores precisam recorrer a familiares na cidade para acionar serviços como o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar. Marilene Campos defendeu a instalação de uma torre de telefonia móvel na região, o que também beneficiaria comunidades vizinhas.A professora e integrante da Associação das Comunidades Negras Quilombolas do Chumbo, Juziane Luisa de Lima Silva, destacou a necessidade de fortalecer a educação e garantir a valorização da identidade quilombola. “Se hoje eu tenho lugar de fala, é graças à minha ancestralidade e àqueles que me antecederam. Eu nunca falo apenas por mim, mas a partir da história dos que vieram antes de nós e lutaram para que hoje tivéssemos condições melhores de vida”, afirmou.Durante sua participação, a professora defendeu que a educação seja tratada como prioridade nas políticas públicas e observou que os indicadores educacionais refletem a falta de investimentos históricos no setor. Ela também chamou atenção para a importância de preservar a identidade quilombola e ampliar o reconhecimento das especificidades dessas comunidades. A procuradora de Justiça Ana Luiza Ávila Peterlini de Souza reforçou que a proposta da Travessia Pantaneira é aproximar o Ministério Público da realidade vivenciada pelas comunidades tradicionais do Pantanal e dar encaminhamento efetivo às demandas apresentadas. “Nós pudemos ouvir as demandas da comunidade e as suas dificuldades. Vamos catalogar todas essas informações para, na sequência, encaminhá-las aos promotores de Justiça responsáveis, que poderão adotar as providências necessárias”, destacou.Segundo a procuradora, a escuta realizada no Chumbo evidenciou necessidades urgentes relacionadas à infraestrutura escolar, à qualidade da água e ao fortalecimento da agricultura familiar. Ela citou a importância da reforma da única escola que atende a comunidade, as preocupações envolvendo possível contaminação da água e a necessidade de ampliar o apoio às famílias que vivem da produção rural. “Também identificamos a necessidade de criar condições para que as pessoas permaneçam no campo, sem que seus filhos precisem deixar a comunidade em busca de oportunidades nas cidades”, apontou.Conforme o promotor de Justiça Mario Anthero Silveira de Souza Bueno Schober, titular da 1ª Promotoria de Justiça de Poconé, o município ocupa uma posição estratégica por ser uma das principais portas de entrada do Pantanal mato-grossense e, por isso, concentra desafios socioambientais que exigem atenção permanente dos órgãos públicos.Ao comentar as reivindicações apresentadas durante a escuta, o promotor informou que o Ministério Público já instaurou procedimento para apurar a situação da água proveniente dos poços tubulares que abastecem a comunidade e acompanhará o andamento da reforma da unidade escolar. Segundo ele, a instituição também fiscalizará o cumprimento dos prazos anunciados pelo poder público para a execução das melhorias.“A comunidade quilombola do Chumbo terá sua identidade resguardada, assim como os direitos das crianças, adolescentes e de todos os moradores, para que possam viver com dignidade, exercer atividades como o extrativismo e a agricultura e contar com água de qualidade e melhores condições de ensino e aprendizagem”, afirmou.Presente na visita, a vice-prefeita de Poconé, Camila Silva, ressaltou a importância da aproximação institucional promovida pela Travessia Pantaneira. “Nós queremos parabenizar o Ministério Público, que através da Travessia Pantaneira está indo in loco às comunidades para ouvir as demandas e ver de que forma pode nos ajudar”, afirmou. Sobre a reforma da escola, ela explicou que o município enfrenta entraves burocráticos para a execução da obra, mas informou que já existem recursos destinados tanto à reforma da unidade atual quanto à construção de uma nova escola no distrito.Também participam da comitiva os promotores de Justiça Henrique Schneider Neto, Joelson de Campos Maciel, Liane Amelia Chaves Mansano, Adalberto Ferreira de Souza Junior e Claudio Angelo Correa Gonzaga.
Fonte: Ministério Público MT – MT
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