Tribunal de Justiça de MT
“O grande desafio é transpor para o ambiente digital as garantias do mundo físico”, diz professor
Publicado em
19 de maio de 2026por
Da Redação
A crescente exposição de crianças e adolescentes ao ambiente virtual e os riscos provocados pelo avanço das novas tecnologias, especialmente da inteligência artificial (IA), pautaram os debates realizados na tarde desta segunda-feira (18) durante o 1º Encontro dos Direitos e Garantias Fundamentais de Crianças e Adolescentes na Perspectiva Nacional e Internacional e o 5º Encontro Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Mato Grosso, em Cuiabá.
Um dos destaques da programação foi a palestra “Los delitos digitales y cibernéticos que involucran a niños y adolescentes” (“Os crimes digitais e cibernéticos que envolvem crianças e adolescentes”), ministrada pelo professor doutor Enrique Jesús Martínez Pérez, catedrático de Direito Internacional da Universidad de Valladolid.
A mesa foi presidida pelo desembargador Márcio Vidal, diretor-geral da Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis). Também participaram como debatedores o professor Lauro Ishikawa e a juíza auxiliar da Vice-presidência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, Alethea Assunção Santos.
Durante a palestra, Enrique Martínez Pérez chamou a atenção para o crescimento das chamadas deepfakes, conteúdos manipulados por inteligência artificial capazes de criar vídeos e imagens falsas com aparência real, e apontou o fenômeno como uma das maiores ameaças atuais à infância e à adolescência no ambiente digital.
“Eu creio que a grande ameaça que têm as crianças e os adolescentes são, fundamentalmente, as deepfakes. O que se está tentando na Espanha e na União Europeia é introduzir progressivamente esse tipo de delito na legislação, justamente para evitar que novas aplicações possam ser utilizadas por qualquer pessoa, mesmo sem conhecimentos informáticos avançados, para produzir conteúdos abusivos”, afirmou, reconhecendo que o processo é complexo devido à necessidade de consenso entre os países integrantes do bloco europeu.
“Está se produzindo um certo ativismo judicial por parte do nosso Tribunal Supremo, que tem buscado transpor para o ambiente digital as garantias já consolidadas no mundo físico, sempre com o objetivo de proteger o interesse superior do menor”, destacou.
Segundo ele, as grandes plataformas digitais demonstram resistência às mudanças regulatórias, especialmente porque novas legislações podem impor restrições mais severas sobre o uso de ferramentas de inteligência artificial e conteúdos manipulados digitalmente.
Martínez Pérez também detalhou como funciona o sistema espanhol de proteção à infância, afirmando que a responsabilidade pela segurança de crianças e adolescentes é compartilhada entre diferentes instituições e setores da sociedade.
“Temos uma legislação integral de proteção da infância contra toda forma de violência. A responsabilidade não é apenas dos pais ou tutores, mas envolve polícia, educadores, instituições e toda a rede de proteção. É uma responsabilidade administrativa, educativa, penal e civil”, pontuou.
Ao comentar sobre a importância do intercâmbio internacional de experiências e da construção coletiva de estratégias de enfrentamento aos crimes virtuais, o desembargador Márcio Vidal destacou que o avanço tecnológico exige uma nova postura das instituições do sistema de Justiça.
“É fundamental debatermos a importância desses crimes digitais e a proteção da infância. O mundo está em transformação. Saímos de um estado analógico para um estado digital e, consequentemente de uma sociedade física para uma sociedade digital. E isso arrasta os problemas também”, afirmou.
O magistrado observou ainda que o papel do Judiciário vem se transformando diante da nova realidade tecnológica.
“No século 20, o papel do Judiciário era claramente repressivo. Hoje, ele passa a assumir também uma função preventiva diante das exigências deste século. A criança é mais uma vítima desse momento tecnológico e digital que estamos vivendo e, com isso, há uma série de crimes ocorrendo com muita frequência”, ressaltou.
Márcio Vidal também enfatizou a necessidade de integração entre as instituições que atuam na defesa da infância e da adolescência.
“A reunião, o debate, o diálogo e o trabalho de diversas instituições que compõem o sistema de Justiça são altamente saudáveis e necessários para que possamos, juntos, encontrar soluções capazes de diminuir a incidência desses crimes”, completou.
A juíza auxiliar da Vice-presidência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, Alethea Assunção Santos também destacou a necessidade de fortalecimento das redes de proteção e da atuação conjunta entre instituições, famílias e escolas diante dos novos desafios impostos pelo ambiente virtual.
Para a magistrada, crianças e adolescentes estão cada vez mais expostos a diferentes formas de violência no meio digital, o que exige preparo constante do sistema de Justiça e da sociedade.
“Os desafios são enormes porque crianças e adolescentes estão expostos a todo tipo de violência, não só ao aliciamento e à exploração sexual, mas também a convites para integrar organizações criminosas. Então, é muito importante que, além da família, toda a sociedade esteja preparada para o enfrentamento desse tipo de situação”, afirmou.
A magistrada ressaltou que o Brasil já possui instrumentos legais importantes voltados à proteção da infância no ambiente digital, citando como exemplo a legislação que restringe o uso de celulares nas escolas e o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente, que estabelece regras mais rígidas para proteger menores de 18 anos na internet.
“Nós já temos leis que nos apoiam nesse enfrentamento. A legislação que trata da utilização de celulares nas escolas foi um grande avanço porque, além da proibição, prevê também que esse assunto seja debatido com os alunos. Isso é extremamente importante”, pontuou.
A magistrada também enfatizou que o combate aos crimes digitais contra crianças e adolescentes depende da integração entre os órgãos do sistema de Justiça e da atuação comunitária nas comarcas do interior e da Capital.
“Eventos como este são extremamente importantes para a capacitação dos atores do sistema de Justiça — juízes, promotores, advogados e defensores — e também para estabelecermos essa interlocução entre as instituições. Aqui nós pensamos ações conjuntas, e essas informações são levadas para todas as comarcas do estado”, destacou.
Ao finalizar, a juíza reforçou que a proteção da infância e da adolescência deve ser tratada como uma responsabilidade coletiva.
“A proteção das crianças e dos adolescentes deve ser feita de forma coletiva, com toda a sociedade”, concluiu.
O coordenador-geral dos cursos de Direito da Escola Alfa Educação — UNIALFA/FADIS, Lauro Ishikawa, ponderou que “nossa presença neste espaço representa não apenas um gesto de apoio institucional, mas também um compromisso concreto com a construção e o fortalecimento das garantias fundamentais das crianças e dos adolescentes”.
Ao acompanhar a exposição do professor Enrique Martínez Pérez, cuja atenção e cuidado em compartilhar previamente sua apresentação possibilitaram um debate mais próximo e qualificado, Lauro destacou a reflexão acerca do chamado “ativismo judicial”. Segundo ele, o tema conduz à importante discussão sobre o papel do Poder Judiciário diante das lacunas da legislação, especialmente quando estão em jogo direitos humanos e fundamentais, exigindo do magistrado uma atuação capaz de assegurar proteção efetiva.
O evento ocorre no auditório da sede das Promotorias de Justiça da Capital e reúne magistrados, promotores, especialistas brasileiros e internacionais, pesquisadores e profissionais da rede de proteção para discutir desafios contemporâneos ligados à infância e à juventude. A programação segue também nesta terça-feira (19).
Autor: Patrícia Neves
Fotografo:
Departamento: Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Lei Maria da Penha: magistradas do TJMT destacam avanços, desafios e a luta para salvar vidas
Published
8 horas agoon
7 de agosto de 2026By
Da Redação
A cada mulher que rompe o silêncio, uma história de coragem se sobrepõe ao medo. Há 20 anos, a Lei Maria da Penha passou a oferecer instrumentos concretos para proteger vítimas de violência doméstica e familiar, transformando a forma como o Brasil enfrenta um problema que, por muito tempo, permaneceu invisível dentro dos lares. Apesar dos avanços conquistados desde então, magistradas do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) alertam que a mudança cultural ainda é o maior desafio para impedir que novas mulheres tenham suas vidas interrompidas pela violência.
A juíza Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa, que atuou por muitos anos na 1ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e atualmente responde pela 2ª Vara Especializada de Família e Sucessões, destaca que a legislação representou uma mudança histórica ao reconhecer diferentes formas de violência contra a mulher e criar mecanismos de proteção mais efetivos.
Segundo ela, além de ampliar o conceito de violência doméstica para incluir as agressões psicológica, sexual, patrimonial e moral, a Lei Maria da Penha instituiu medidas protetivas com análise prioritária, fortaleceu a punição aos agressores e criou varas especializadas com equipes multidisciplinares e atuação integrada com a rede de proteção.
A juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, titular da 2ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a
Mulher de Cuiabá, também aponta a visibilidade dada ao problema como um dos maiores legados da legislação.
“Um dos principais avanços foi, principalmente, a visibilidade da violência doméstica contra a mulher. Hoje, nós conseguimos entender que não se trata de um problema no âmbito privado, como se entendia no passado, mas ela se tornou o centro do debate público. Hoje, nós discutimos não apenas a violência física, mas também a violência psicológica, moral, patrimonial, sexual e, mais recentemente, a violência vicária”, afirma.
Para a magistrada, dar visibilidade ao problema também permite produzir estatísticas e direcionar políticas públicas voltadas à prevenção e ao acolhimento das vítimas.
Desafio permanente
Mesmo após duas décadas da Lei Maria da Penha, as duas magistradas concordam que a violência doméstica não será combatida apenas com a aplicação da legislação.
Para a juíza Ana Graziela, trata-se de um problema social e estrutural. “A violência doméstica e familiar contra a mulher, para além de um problema judicial, é um problema social e estrutural. Esse é o maior desafio, a mudança social e estrutural do que gera e fomenta essa violência, não bastando a aplicação correta da lei para findar a violência e proteger as vítimas. Por isso se mostra tão importante a articulação em rede”, ressalta.
A magistrada observa ainda que nos últimos anos houve aumento das denúncias envolvendo violência psicológica e patrimonial, impulsionado pelo maior conhecimento sobre os direitos das mulheres. Ao mesmo tempo, o crescimento dos casos de feminicídio em Mato Grosso preocupa o Judiciário, que busca identificar fatores de risco para fortalecer as ações preventivas.
Na mesma linha, a juíza Tatyana lembra que o aumento das penas para feminicídio representa uma resposta importante do Estado, mas não é suficiente para mudar uma realidade construída ao longo de gerações. “Infelizmente, como a gente vê que isso não é um problema só legislativo, é um problema cultural, mesmo com a implantação da lei, no ano passado nós tivemos um aumento de feminicídio”, afirma.
Rede que protege
As magistradas destacam que nenhuma instituição consegue enfrentar a violência doméstica sozinha.
Ana Graziela defende investimentos permanentes em políticas públicas, fortalecimento das Delegacias Especializadas, ampliação da Patrulha Maria da Penha, atendimento psicológico e ações que promovam a autonomia financeira das mulheres. Para ela, a atuação integrada da rede é indispensável para garantir proteção efetiva às vítimas.
Tatyana reforça que o trabalho em rede também precisa olhar para o futuro, apostando na educação como instrumento de transformação social.
Ela cita iniciativas desenvolvidas pelo Poder Judiciário, como o projeto Lei Maria da Penha Vai às Escolas e o A Escola Ensina, a Mulher Agradece, que levam o debate sobre respeito, igualdade e prevenção da violência às salas de aula. “Por meio da educação, a gente pode transformar essa cultura de violência para uma cultura de respeito”, afirma.
Romper o silêncio salva vidas
Outro ponto destacado pelas magistradas é a importância da denúncia e das medidas protetivas de urgência.
Segundo Tatyana, Mato Grosso concede medidas protetivas em poucas horas, um dos melhores desempenhos do país. Ela ressalta que esses mecanismos têm papel fundamental na preservação da vida das mulheres. “As medidas protetivas realmente salvam vidas. No ano passado foram quase 20 mil medidas protetivas deferidas dentro do nosso estado. Milhares de mulheres estão protegidas por medidas protetivas e é de forma célere”, destaca.
Às mulheres que ainda enfrentam situações de violência, Ana Graziela deixa uma mensagem de acolhimento. “Procurem ajuda, seja de familiares, amigos ou ajuda especializada, se informem sobre os seus direitos, sobre as medidas de proteção que podem lhes ser deferidas e sobre as ações judiciais e sociais que podem ser adotadas”, orienta, lembrando que o Tribunal de Justiça de Mato Grosso disponibiliza atendimento psicológico, social e diversas ações de apoio por meio do Centro Especializado de Atendimento às Vítimas (CEAV).
Tatyana faz um apelo semelhante e reforça que a denúncia deve vir acompanhada de uma rede de apoio. “O que eu diria para essa mulher é que ela procure primeiramente uma rede de apoio. Se for uma situação de emergência, realmente vá até uma delegacia especializada da mulher e ofereça essa denúncia. A partir desse momento em que ela procura essa ajuda inicial, serão feitos os encaminhamentos necessários para que ela possa realmente romper com esse ciclo da violência”, conclui.
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