Tribunal de Justiça de MT
Invisibilidade do Autismo Feminino: capacitação debate sobre diagnóstico tardio e camuflagem social
Publicado em
10 de dezembro de 2025por
Da Redação
Pouco compreendido pela sociedade e ainda permeado por estereótipos, o autismo em meninas e mulheres foi o foco do painel “Invisibilidade do Autismo na Mulher”, que encerrou a 6ª edição do TJMT Inclusivo: Capacitação e Conscientização em Autismo, realizado em Cuiabá, no dia 5. A palestra, conduzida pela médica psiquiatra Aline Quintal, promoveu uma reflexão profunda sobre a forma como o autismo feminino se manifesta e é percebido – ou muitas vezes quase ignorado – ao longo da vida.
O evento reuniu mais de mil participantes, ampliando o debate e fortalecendo a compreensão social sobre as múltiplas formas de existir, sentir e viver o autismo.
A psiquiatra destacou que o aumento dos critérios diagnósticos, em 2013, contribuiu para maior identificação de pessoas com autismo, sendo comprovado pelas estatísticas e pela percepção cotidiana de escolas e profissionais. Ainda assim, o diagnóstico em meninas continua sendo mais complexo, muitas vezes tardio e permeado por interpretações equivocadas.
Aline Quintal ponderou que o autismo é uma condição crônica, marcada por impacto significativo na vida da pessoa, da família e de toda a rede de cuidado. Exige avaliação multiprofissional e contínua observação dos critérios clínicos, que, nas meninas, costumam se apresentar de forma “diferente”, embora igualmente presentes.
Um dos aspectos centrais da palestra foi o conceito de camuflagem social: estratégias inconscientes ou aprendidas utilizadas por meninas e mulheres para mascarar características autísticas. Esse comportamento, embora favoreça a adaptação social superficial, gera exaustão intensa e retarda o reconhecimento dos sintomas.
A psiquiatra citou exemplos de pacientes que aprendem a conter movimentos repetitivos colocando as mãos no bolso, que ensaiam previamente diálogos inteiros para parecerem naturais ou que copiam expressões de personagens para se integrar ao ambiente. “Não significa que os sintomas não existam; eles apenas estão disfarçados”, explicou.
A camuflagem, segundo ela, influencia diretamente o diagnóstico tardio na vida adulta, quando muitas mulheres chegam aos consultórios exaustas, com quadros de depressão, ansiedade ou burnout, e só então se reconstrói a história de dificuldades sensoriais e sociais presentes desde a infância.
A médica reforçou a importância da convivência escolar para o desenvolvimento de crianças autistas. Embora terapias especializadas sejam essenciais, elas não substituem a vivência real proporcionada pela escola. “O lugar da criança é na escola”, destacou. Para a médica, o ambiente escolar funciona como um grande estímulo social e sensorial, insubstituível para o desenvolvimento.
A integração entre saúde, educação, terapia ocupacional, psicologia, fonoaudiologia e toda a rede de apoio é fundamental para garantir melhores condições de desenvolvimento.
Outro ponto abordado foi a origem histórica dos critérios diagnósticos. Criados nos anos 1940 a partir de estudos exclusivamente com meninos, esses parâmetros por décadas invisibilizaram as formas femininas de expressão do autismo, reforçando a ideia de que meninas só seriam diagnosticadas quando apresentassem quadros muito graves.
Hoje, revisões estatísticas mostram que meninas vêm sendo identificadas com mais frequência, revelando que havia, e ainda há, um contingente oculto de mulheres autistas que passam a vida sem diagnóstico.
Com maior acesso à informação e ao debate público sobre neurodivergência, muitas mulheres têm reconhecido em si mesmas características autísticas, seja por identificação com relatos, seja após o diagnóstico de filhos. Essa autopercepção tem levado mais mulheres a procurarem avaliação especializada, embora ainda exista atraso significativo na identificação em comparação aos meninos.
Durante o painel, a médica explicou teorias que buscam compreender a diferença de prevalência entre homens e mulheres, desde hipóteses genéticas até modelos que relacionam perfis cognitivos à maior ou menor vulnerabilidade ao transtorno. Contudo, ressaltou que nenhuma teoria explica o fenômeno de forma plena, reforçando a necessidade de ampliar a pesquisa e o olhar clínico sobre o autismo feminino.
TJMT Inclusivo
O “TJMT Inclusivo – Capacitação e Conscientização em Autismo”, etapa Cuiabá, foi organizado pela Comissão de Acessibilidade e Inclusão do Poder Judiciário de Mato Grosso, pela Escola Superior da Magistratura (Esmagis-MT) e pela Escola dos Servidores, em parceria com a Prefeitura de Cuiabá e com apoio da Igreja Lagoinha.
A edição realizada na capital reuniu magistrados, servidores, profissionais da saúde e da educação, cuidadores de aluno com deficiência (CAD), familiares de pessoas autistas, estudantes e a sociedade em geral.
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Capacitação e Conscientização em Autismo do TJ leva mais de mil pessoas a se aprimorarem sobre tema
Autor: Patrícia Neves
Fotografo: Alair Ribeiro
Departamento: Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude
Published
2 meses agoon
9 de agosto de 2026By
Da Redação

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.
Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.
Já estava escrito
“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.
Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.
“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.
A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.
Legado construído com exemplo
Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.
Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.
Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.
Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.
Apoio incondicional
Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.
Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.
Adoção
Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.
Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.
Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.
Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.
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