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Reconstruindo Sonhos inicia primeiras turmas do ano no Araguaia

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Em uma sala de aula nova de 74 m², construída especialmente para oferta de cursos aos reeducandos da Cadeia Pública de São Félix do Araguaia (a 1.200km de Cuiabá), foi realizada a aula inaugural do projeto Reconstruindo Sonhos na comarca, na quinta-feira (4). Viabilizada com recursos de acordos de não persecução penal (ANPPs), transações penais e de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), destinados via Banco de Projetos e Entidades (Bapre) do Ministério Público de Mato Grosso, a sala representou investimento de R$ 50 mil. 

O Reconstruindo Sonhos é uma iniciativa do MPMT, desenvolvida com apoio de diversas instituições, que tem por objetivo fortalecer a reinserção social de reeducandos e reduzir a reincidência criminal por meio da qualificação, habilitação para o mercado de trabalho e ampliação da compreensão do sentido da vida. Lançado em setembro de 2021, o projeto já foi executado em 15 municípios de Mato Grosso, beneficiando 249 participantes ativos em 19 unidades prisionais, o que representa 46% de todo o sistema penal.

O projeto é desenvolvido em duas etapas. Na primeira, chamada de “Ampliação do sentido da vida”, são realizados 12 encontros semanais presenciais dentro das unidades, nos quais são abordados com os participantes temas como valores, humanização e espiritualidade, relações interpessoais, família, comunicação, trabalho, perspectiva de futuro, planejamento, entre outros. Terminada essa fase, ele segue com a oferta de cursos profissionalizantes, etapa chamada de “Qualificação profissional”.

Em São Félix do Araguaia, a turma é composta por 20 reeducandos e os cursos ofertados serão de instalador hidráulico, eletricista industrial, pintor de obras imobiliárias e assentador de revestimento cerâmico, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-MT) e a Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania (Setasc). 

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“É nosso dever recordar hoje, nesta inauguração, os esforços daqueles que nos antecederam, em especial do ex-juiz de Direito desta comarca e hoje promotor de Justiça substituto no MPMT, o amigo Adalberto Biazotto Junior, e do promotor de Justiça que me antecedeu, o amigo Fabricio Miranda Mereb. Ambos organizaram, em 29 de junho de 2023, dias antes de deixarem a comarca, uma reunião com os Prefeitos dos Municípios visando viabilizar os recursos necessários para o início das obras. Sem o esforço e confiança de ambos, nada disso teria sido edificado”, disse o promotor de Justiça Marco Antonio Prado Nogueira Perroni, da 2ª Promotoria de Justiça de São Félix do Araguaia, na cerimônia de entrega da sala.

Estiveram presentes na aula inaugural do projeto a prefeita municipal de São Félix do Araguaia, Janilza Taveira Leite, o diretor da Cadeia Pública de São Félix do Araguaia, Jackson de Souza, o presidente do Conselho da Comunidade da Execução Penal (Concep) do município, Jusmar Alves da Silva, a defensora pública Safira Vanessa Carneiro Costa, a representante da 27ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Mato Grosso, Silmara Lima, o gerente regional nordeste do Senai-MT, Vivaldo Matos Filho, o delegado da Polícia Civil Ivan Albuquerque e o 1º sargento da Polícia Militar Eudes Garcia Silva. 

Porto Alegre do Norte – Na quarta-feira (3), o projeto foi lançado na comarca de Porto Alegre do Norte (a 1.125km de Cuiabá). Dez reeducandos da Cadeia Pública do município foram selecionados para participar do Reconstruindo Sonhos. Na segunda etapa, eles terão cursos profissionalizantes de classificação de grãos de soja e milho, ofertado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT), e de mecânico de refrigeração e climatização residencial, oferecido pelo Senai-MT. 

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“O Reconstruindo Sonhos tem uma enorme capacidade transformadora, de realmente mudar a vida dos reeducandos e fazer com que voltem a sonhar, para que efetivamente sejam reinseridos no convívio social após o cumprimento da pena. Esse é o nosso grande objetivo”, defendeu a promotora de Justiça Fernanda Luckmann Saratt, da 2ª Promotoria de Justiça de Porto Alegre do Norte. 

A solenidade de abertura contou com a presença do diretor da Cadeia Pública, Raimundo Ferreira Fonseca, do presidente do Conselho da Comunidade de Execução Penal (Concep) do município, Cláudio do Nascimento Brito Kanela, do juiz Caio Almeida Neves Martins, do delegado regional Bruno Gomes Borges, do comandante do 1º Pelotão de Polícia Militar de Porto Alegre do Norte, 1º Ten PM Eliezer Freitas da Silva, presidente da 27ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso, Sérgio Roberto Junqueira Zoccoli Filho, e do defensor público Vitor Lima Nava Martins. 

O Reconstruindo Sonhos conta com parceria do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso (TJMT), Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPMT), Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (Seciteci), do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT), Fundação Nova Chance (Funac), Instituto Ação Pela Paz e Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT).

Fonte: Ministério Público MT – MT

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Quem mal lê, mal sabe, mal ouve, mal vê

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Mato Grosso cresce, mas ainda precisa formar seus leitoresHá frases que parecem tão evidentes que passam despercebidas. “Quem mal lê, mal sabe, mal ouve, mal vê” é uma delas. À primeira vista, soa apenas como uma recomendação em favor dos livros, mas contém um diagnóstico incômodo: a deficiência de leitura não limita somente o que sabemos; compromete também a maneira como compreendemos aquilo que ouvimos, vemos e escolhemos.Não estamos falando apenas de romances e bibliotecas, mas também da bula do remédio, do contrato bancário, da intimação judicial, da notícia no celular e da promessa eleitoral. Entre o cidadão e seus direitos existe quase sempre um texto. Quem não o compreende precisa aceitar a interpretação alheia — e nem todo intérprete, convenhamos, é movido pela caridade.Não basta reconhecer as palavras. É possível atravessar uma página inteira sem perceber o argumento, a ironia, a omissão ou o interesse de quem escreveu. A alfabetização decifra o texto; a leitura efetiva permite desconfiar dele. Uma abre a porta; a outra nos ensina a descobrir quem está tentando entrar.Em Mato Grosso, esse alarme soa de forma estridente. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que apenas 36% dos mato-grossenses leram ao menos parte de um livro nos três meses anteriores à entrevista. É o pior resultado do Centro-Oeste e o segundo pior do país, à frente somente do Rio Grande do Norte.Detenhamo-nos por um instante nesse número. Em um estado que se orgulha de bater recordes econômicos, quase dois em cada três habitantes não haviam lido sequer parte de um livro no período pesquisado. Podemos celebrar safras e exportações, mas que futuro construiremos se a expansão material não vier acompanhada do desenvolvimento intelectual?A penúltima posição nacional não é mera curiosidade estatística. É um chamado urgente ao Governo do Estado, aos municípios, às escolas, às universidades, ao sistema de Justiça, às empresas, às famílias e a cada um de nós.Quem lê mal não terá dificuldade apenas na aula de português. Terá problemas para interpretar uma questão de matemática, acompanhar uma explicação de ciências ou seguir instruções técnicas. A leitura é o chão sobre o qual as outras disciplinas caminham.Sem ela, o estudante acumula lacunas. Muitas vezes, é tachado de desinteressado, indisciplinado ou incapaz quando está apenas perdido diante de uma linguagem que a escola pressupõe que ele domine. À medida que os textos se tornam mais complexos, sua dificuldade aumenta. A vergonha vira silêncio; o silêncio, afastamento; e o afastamento, por vezes, abandono.Esse déficit não termina com a formatura — quando ela acontece. O adulto com baixa proficiência leitora encontra mais dificuldades para aprender novas tecnologias, interpretar normas de segurança, compreender documentos e participar de cursos de capacitação. A limitação que começou na sala de aula reaparece no trabalho, na renda e na liberdade de escolher um caminho.Mato Grosso conhece bem essa contradição. Temos uma economia dinâmica, mas parte das vagas permanece aberta por falta de profissionais qualificados. Em julho de 2026, dados do Imea e do Senar-MT mostraram que quase 70% dos produtores rurais apontaram a falta de qualificação técnica como o principal entrave para contratar.Seria exagero atribuir toda essa carência à deficiência de leitura. Mas não existe qualificação consistente sem a capacidade de compreender textos, manuais, sistemas e procedimentos. Não se trata apenas da ausência de leitura literária, mas também, por exemplo, da dificuldade para interpretar os comandos de uma máquina agrícola de última geração.A vaga existe. O candidato também. E ambos podem permanecer separados por uma deficiência iniciada muitos anos antes, diante de uma página que não foi compreendida.A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, ajuda a dimensionar o impacto do problema. Relatórios recentes mostram que quase um em cada três adultos nas economias avaliadas possui fragilidades fundamentais em leitura ou matemática. Esses adultos tendem a apresentar piores resultados de emprego, renda, saúde, confiança social e participação cívica.As desvantagens não aparecem isoladamente. Acumulam-se ao longo da vida e, muitas vezes, alcançam a geração seguinte. Pais com baixa proficiência leitora costumam ter mais dificuldades para acompanhar a educação dos filhos, auxiliá-los nas atividades escolares e inseri-los em ambientes nos quais os livros façam parte da vida cotidiana. A deficiência deixa, então, de ser apenas individual e passa a reproduzir-se socialmente.É significativo que nações como Finlândia e Japão tenham tratado a formação intelectual como parte estrutural de seu desenvolvimento. Evidentemente, nenhum país se torna desenvolvido apenas porque sua população lê. O progresso depende de instituições, ciência, estabilidade, infraestrutura e investimento. Mas uma economia moderna não se sustenta sem pessoas capazes de aprender continuamente, interpretar informações, comparar alternativas e resolver problemas.Recursos naturais podem gerar riqueza. O conhecimento é que a transforma em progresso duradouro.Um estado que sabe produzir grãos, carne, energia e divisas precisa também criar leitores. Do contrário, corre o risco de erguer uma economia sofisticada sem preparar parcela expressiva da população para ocupar os postos criados por ela.Convém agora abandonar as estatísticas e fazer uma pergunta desconfortável: e você, amigo leitor, quantos livros concluiu neste ano de 2026?Não vale incluir mensagens, manchetes e postagens nas redes sociais. Todos nós as lemos. A pergunta se refere à leitura que exige permanência: aquela que nos obriga a acompanhar um argumento, enfrentar uma ideia contrária e sustentar a atenção enquanto o telefone, esse pequeno tirano de bolso, oferece divertimentos imediatos.Não se trata de transformar livros em troféus de vaidade. Há quem leia cinquenta e compreenda pouco; há quem leia cinco e saia profundamente modificado de cada um. A pergunta serve apenas para expor uma contradição: costumamos defender a leitura em público e abandoná-la em particular. Reclamamos que as crianças não leem enquanto passamos a noite deslizando o dedo sobre uma tela. Exigimos concentração dos estudantes, mas já não suportamos um texto que demore mais de três minutos para chegar à conclusão.Ao mesmo tempo, seria injusto simplesmente culpar quem não lê. Muitos conheceram os livros apenas como instrumentos de punição escolar: prova, questionário, resumo e nota baixa. Outros enfrentam jornadas exaustivas, vivem em casas sem livros ou jamais tiveram acesso a uma biblioteca acolhedora.Não basta distribuir obras e repetir que ler é importante. É necessário criar tempo, acesso, mediação e, sobretudo, exemplo. A criança precisa ver adultos lendo. O estudante precisa enxergar no livro algo além da resposta exigida pelo professor. O trabalhador necessita de educação continuada. A pessoa idosa precisa ser convidada a permanecer intelectualmente ativa.A leitura deve acompanhar a vida inteira: na infância, ajuda a descobrir o mundo; na maturidade, a não se deixar enganar por ele; na velhice, a continuar conversando com ele.Os livros não resolverão sozinhos nossas desigualdades. Não construirão escolas, não substituirão professores nem eliminarão a pobreza. Mas nenhuma sociedade enfrentará seriamente seus problemas se os cidadãos não compreenderem as palavras com que eles são apresentados — e, principalmente, aquelas com que tentam escondê-los.Quem mal lê não apenas mal sabe: também ouve sem distinguir, vê sem compreender e escolhe sem conhecer inteiramente aquilo que está escolhendo.Em Mato Grosso, formar leitores deixou de ser apenas uma aspiração cultural. Tornou-se uma necessidade educacional, econômica e democrática. É preciso abrir livros para que não continuemos fechando portas.*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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