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Saúde e nutrição com Clayton Camargos: quanto pão eu teria que comer para ficar bêbado?

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Saúde e nutrição com Clayton Camargos: quanto pão eu teria que comer para ficar bêbado?
Clayton Camargos

Saúde e nutrição com Clayton Camargos: quanto pão eu teria que comer para ficar bêbado?

Um estudo publicado no início do mês pela Associação Brasileira de Defesa do Consumidor , Proteste, revelou que algumas marcas populares nacionais de pães fatiados, também conhecidos como de fôrma, exibem um teor alcoólico importante, o que a entidade considera prejudicial aos seres humanos, especialmente para mulheres grávidas e bebês. Além disso, poderiam até mesmo afetar os testes de trânsito com bafômetro.

Vamos lá, como sempre digo, informação é prevenção:

Todos os pães com fermento contêm alguma quantidade de álcool. Você já sentiu o cheiro de um pão crescendo ou, melhor ainda, sentiu o cheiro do ar por baixo da massa que foi coberta enquanto crescia? Cheira muito a álcool. E aquele cheiro doce que o pão fresco tem sob as notas de reação de Maillard com fermento e castanhas? Álcool.

Porém, durante o processo de cozimento, a maior parte do álcool da massa evapora na atmosfera. Isso é basicamente a mesma coisa que acontece com grande parte da água da massa. E há muito se sabe que o pão contém álcool residual, em média 1,9%. Na década de 1920, a American Chemical Society até fez um relatório de um conjunto de experimentadores sobre o assunto: The Alcohol Content of Bread.

Clique aqui para acessar o relatório: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1709087/?page=1

Você também pode sentir o gosto do álcool nos pedaços pastosos de pão branco mal assado, que eu categoricamente não recomendo que tente fazer.

Lembrando dos conhecimentos da disciplina de bromatologia de priscas eras da faculdade, o senso comum divulga que o álcool é apenas o produto de um processo de fome” nas leveduras, uma vez que elas ficam sem oxigênio. Isto é errado.

As leveduras de cerveja e de pão mais comuns, do gênero Saccharomyces (e algumas do gênero Brettanomyces , também usadas para fabricar cerveja), produzirão álcool tanto no mosto de cerveja quanto na massa de pão imediatamente, independentemente da aeração.

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Clique aqui para acessar o estudo: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21377618/

Na verdade, este é um resultado surpreendente, pois contraria o que é mais eficiente para a célula (e, aliás, a versão simplista da biologia da levedura que é frequentemente ensinada aos cervejeiros caseiros). A expectativa seria que a célula realizasse respiração aeróbica (conversão completa de açúcar e oxigênio em dióxido de carbono e água) até que o oxigênio acabe, e só então revertesse para a fermentação alcoólica, que ocorre sem oxigênio, mas produz menos energia.

Em vez disso, se uma levedura Saccharomyces se encontrar num ambiente com elevado teor de açúcar, independentemente da presença de ar, começará a produzir etanol, desviando o açúcar para a via de respiração anaeróbica enquanto continua a executar o processo aeróbico em paralelo.

Esse fenômeno é conhecido como efeito Crabtree, e especula-se que seja uma adaptação para suprimir organismos adversários no ambiente com alto teor de açúcar porque o etanol tem propriedades anti-sépticas às quais as leveduras são tolerantes, mas os concorrentes não. É uma peculiaridade da biologia do Saccharomyces que se conhece fazendo cultura de células de levedura… como eu à ocasião das disciplinas da graduação.

Clique aqui para acessar o estudo: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25161062/

O teor alcoólico em diferentes tipos de pão varia significativamente devido às diferenças nos ingredientes e nos processos de fermentação. Por exemplo, conforme comentei, o pão branco pode conter 1,9% de álcool por volume, enquanto o pão de centeio normalmente tem um teor de álcool muito mais baixo, cerca de 0,18%, devido à interação única entre farinha de centeio, fermento e açúcar. O pão integral tem a menor quantidade de álcool, com apenas 0,03 gramas de etanol por 100 gramas.

Foto: Unsplash

A graduação alcoólica do pão é geralmente baixa e não suficiente para causar intoxicação, mas é um subproduto exemplar do processo de fermentação.

Como nota lateral, pesquisei sobre um tipo de pão dos tempos medievais chamado “pão mágico”, que parecia deixar as pessoas bêbadas, mas, na verdade, continha apenas um fungo que produzia uma substância alucinógena, que aparentemente também causou danos cerebrais.

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Clique aqui para acessar o estudo: https://www.brepolsonline.net/doi/pdf/10.1484/J.FOOD.5.108966

É improvável ficar bêbado com cerveja com um volume de etanol inferior a 0,25%, porque seu corpo pode quebrá-la mais rápido do que você consegue beber/absorver. Há sim algum etanol na levedura, mas os níveis são extremamente baixos porque é processado imediatamente.

A levedura não tem uma razão bioquímica para produzir etanol no ambiente em que o pão é fermentado e, portanto, é inverossímil alcoolizar-se com ela. Tentar produzir pão em condições semelhantes às da cerveja também não ajudará, porque então não será possível fazer pão, o que é um paradoxo. De fato, é impossível ficar bêbado com pão. Desculpe pela resposta chata.

Você tem alguma dúvida sobre saúde, alimentação e nutrição? Envie um e-mail para [email protected] e poderei responder sua pergunta futuramente.

Nenhum conteúdo desta coluna, independentemente da data, deve ser usado como substituto de uma consulta com um profissional de saúde qualificado e devidamente registrado no seu Conselho de Categoria correspondente.

Clayton Camargos é sanitarista pós graduado pela Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP/Fiocruz. Desde 2002, ex gerente da Central Nacional de Regulação de Alta Complexidade (CNRAC) do Ministério da Saúde. Subsecretário de Planejamento em Saúde (SUPLAN) da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF). Consultor técnico para Coordenação-Geral de Fomento à Pesquisa Em Saúde da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da Saúde. Coordenador Nacional de Promoção da Saúde (COPROM) da Diretoria de Serviços (DISER) da Fundação de Seguridade Social. Docente das graduações de Medicina, Nutrição e Educação Física, e coordenador dos estágios supervisionados em nutrição clínica e em nutrição esportiva do Departamento de Nutrição, e diretor do curso sequencial de Vigilância Sanitária da Universidade Católica de Brasília (UCB). Atualmente é proprietário da clínica Metafísicos.

CRN-1 2970.

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Fonte: Nacional

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Credores aprovam plano do Grupo HPAR e fortalecem recuperação judicial da companhia

Assembleia com 80% de adesão consolida continuidade do conglomerado e reforça confiança do mercado

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O Grupo HPAR teve o plano de recuperação judicial aprovado nesta quarta-feira (13/05), durante Assembleia Geral de Credores realizada no processo que tramita na 1ª Vara Cível de Cuiabá (MT). A decisão representa uma das etapas mais relevantes da reestruturação financeira do Grupo.

O plano recebeu apoio maciço dos credores, alcançando adesão de 80,58% do valor total dos créditos presentes à assembleia. Instituições financeiras como Daycoval e Bradesco deram voto favorável às condições previstas no plano e no termo aditivo apresentado pelas recuperandas.

A aprovação consolida a continuidade operacional do Grupo HPAR, que atua nos setores de tecnologia, telecomunicações, infraestrutura de redes e serviços corporativos, reunindo as empresas Globaltask, SPE Piauí Conectado, H.Tell Telecom e Bao Bing Infraestrutura.

Internamente, o grupo trata a aprovação como um marco estratégico para preservação das atividades empresariais diante da crise provocada pelo descumprimento do contrato envolvendo a PPP-Piauí Conectado, considerada uma das maiores iniciativas de infraestrutura digital do país. O projeto implantou aproximadamente 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.

O grupo sustenta que houve encampamento ilegal da infraestrutura implantada sem a correspondente indenização pelos investimentos realizados.

O plano aprovado prevê que os recursos financeiros advindos (1) do procedimento de arbitragem que sujeita o Estado do Piauí, (2) da ação judicial de execução que tem contra o Banco do Brasil, garantidor do investimento realizado ou (3) da decisão que determina o pagamento da garantia na recuperação judicial — classificados como “Eventos de Liquidez” — sejam destinados ao cumprimento das obrigações previstas na recuperação judicial e ao pagamento dos credores.

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Entre os principais pontos de tensão está o litígio envolvendo garantias financeiras relacionadas à PPP. Segundo o grupo, o Banco do Brasil teria se recusado a liberar o dinheiro depositado e vinculado ao investimento realizado, esgotando financeiramente a empresa para levá-la à quebra para posterior tomada dos investimentos efetuados. Um recurso de agravo de instrumento, que vai decidir a liberação do valor para a empresa está pautado para ser julgado dia 20/05 no TJMT.

Para o advogado especialista em recuperação judicial do Grupo ERS, Euclides Ribeiro, a aprovação do plano demonstra maturidade do ambiente negocial e reforça a viabilidade econômica do grupo.

“Essa aprovação representa um importante sinal de confiança dos credores na capacidade de recuperação da companhia e principalmente na tese de que o Banco do Brasil deve sim liberar o dinheiro bloqueado pois é garantidor e caucionante dos recursos que estão na conta corrente do projeto. O processo demonstrou que, mesmo em cenários de forte complexidade institucional e financeira, é possível construir soluções jurídicas voltadas à manutenção da operação, proteção dos empregos e satisfação coletiva dos credores”, afirmou.

A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado é acompanhada com atenção por investidores, operadores de PPPs e agentes do mercado financeiro, diante dos possíveis impactos sobre a segurança jurídica de projetos públicos de infraestrutura no Brasil.

Entenda o caso

A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado transformou-se em uma das maiores disputas jurídico-empresariais já registradas no setor de infraestrutura digital brasileiro. A concessionária foi responsável pela implantação do projeto Piauí Conectado, considerado um dos maiores projetos públicos de conectividade do país, com cerca de 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.

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O modelo foi estruturado como uma Parceria Público-Privada (PPP), na qual a iniciativa privada realizou os investimentos necessários para construção, operação e manutenção da infraestrutura tecnológica estadual, enquanto o Estado se comprometeu contratualmente a remunerar a concessionária ao longo dos 30 anos da concessão.

Segundo as recuperandas, aproximadamente R$ 650 milhões foram investidos diretamente na implantação da rede óptica, datacenter, centros operacionais e infraestrutura de telecomunicações. A empresa sustenta que o projeto contribuiu para elevar o Piauí aos primeiros lugares nacionais em indicadores de conectividade entre 2022 e 2024.

A partir de 2023, com a posse do governador Rafael Fonteles, a relação entre a concessionária e o Governo do Piauí sofreu uma mudança abrupta e o conflito escalou rapidamente.

Segundo a concessionária, apesar de o contrato ter sido integralmente executado e a rede ter permanecido plenamente operacional durante toda a execução da concessão, o Estado passou a promover retenções massivas das contraprestações mensais previstas contratualmente, comprometendo severamente o fluxo financeiro da operação, tudo arquitetado para tomada da empresa pelo Estado sem pagamento dos investimentos.

Na sequência, sucederam-se auditorias técnicas, instauração de processos sancionatórios, decretação de intervenção estatal e, posteriormente, a caducidade da concessão. Além do conflito com o Governo do Piauí, o Grupo HPAR obteve a negativa do Banco do Brasil em pagar a garantia prestada, em que pese já ter ganho a arbitragem na Câmara Brasil Canadá. Segundo as recuperandas, a não liberação dessas garantias agravou significativamente o cenário de crise financeira das empresas.

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