BRASIL
Em entrevista ao GPS|Brasília, Paulo Niemeyer diz que o PPCub “é a ponta do iceberg”
Publicado em
2 de julho de 2024por
Da Redação
O Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCub) deveria garantir qualidade de vida aos brasilienses, preservação do projeto urbanístico de Lúcio Costa. Mas, em vez disso, o que se viu foi um festival de regras absurdas, que podem destruir, em poucos anos, o legado de Brasília.
Em entrevista ao GPS|Brasília , o arquiteto Paulo Niemeyer, bisneto de Oscar Niemeyer , um dos ícones da construção da capital, fez duras criticas ao plano. “ A gente tem que deixar muito claro que o PPCub é a ponta do iceberg. Tem o PDOT, o PDTU, todos os planos de de zoneamento. Qualquer um desses que passe com uma cláusula ou uma vírgula errada pode ser a morte da Brasília que a gente conhece, bela, linda e confraternizada”.
Como você viu o processo do PPCub, desde como foi apresentado pela Seduh até a aprovação pela Câmara Legislativa?
Eu vi com tristeza, mas com uma sensação de que é possível fazer um debate claro e trazer a pauta de Brasília para a discussão da população. Acho isso fundamental. É o momento de um debate muito sério com todos, pois Brasília é uam cidade fantástica, com suas escalas, e tem importância vital para o Brasil e a soberania nacional. A gente está levando esta discussão ao Senado, por meio da senadora Leila Barros, entendendo ainda a questão ambiental, com o problema das águas de Brasília, que servem ao Brasil. A gente conseguiu uma vitória ao criar um grupo com mais de 500 pessoas da sociedade civil e agregar uma turma séria e conectada com o que queremos da Brasília do futuro.
O PPCub não está ferindo de morte o trabalho do seu bisavô, Oscar Niemeyer, e de Lúcio Costa?
Sou arquiteto e urbanista e tive a honra de ter trabalhado com o Oscar (Niemeyer) por vários anos. Vi, participei e apoiei meu bisavô em tudo o que fez. Fui co-autor de vários projetos e uma das pautas que tínhamos no escritório era Brasília. Oscar falava que Brasília foi feita para 500 mil, no máximo 1 milhão de pessoas. Ou seja, 2 milhões já é um absurdo, 3 milhões é uma loucura. Brasília não tem que crescer. Ela foi planejada e projetada para ser assim. Qualquer coisa que você faça além disso é descaracterizar Brasília. A cidade não tem de ser de prédios e arranha-céus, porque é o que a diferencia de outras cidades. Qualquer coisa que tire área verde ou o vazio da arquitetura, que pode ser até o espaço entre prédios, acaba com a vitalidade do espaço público nas áreas remanescentes.
Muitos afirmam, ainda, que o PPCub não trata de questões fundamentais para a conservação da cidade, mas sim para uma expansão de Brasília…
Eu estive, hoje, passeando pela Asa Sul e vi a questão dos aparelhos de ar-condicionado nas fachadas. Uma coisa horrível, verdadeiras verrugas no prédio. Isso é uma temeridade. É uma campanha que tem que ser feita, com o incentivo do governo, com a sociedade, com a comunidade, com o pessoal do prédio e com o síndico, que tinha que se manifestar e ver qual é a solução. Para tudo tem solução e no caso de Brasília, isso é o foco. A gente tem que ter solução para Brasília, que é organizar o que ela já tem, melhorar as coisas e proteger as quadras. Como nas 700, quadras que são as históricas, onde tudo começou. Foi onde Oscar morou, onde meu pai morou, onde todos moraram. Eu já sou da quarta geração de Brasília. Mas é como se eu tivesse nascido aqui. Eu fui gerado em Brasília na década de 60 e nasci em Paris, no exílio com o Oscar e meu pai. A polícia entrou na casa do meu pai, na quadra 700. Então tenho essa história com Brasília e para mim sempre me emociono. Eu choro com e por Brasília.
A gente percebe que há uma forte influência de setores da construção civil neste processo de expansão de Brasília. Como você vê isso?
Meu pai está vivo. Ele veio para Brasília de São Paulo e largou tudo lá. Meu avô era empresário na construção civil em São Paulo. Não tenho nada contra a construção civil, sou arquiteto. Construo, faço projetos de condomínios, faço projetos de prédios. Só que Brasília não é desse jeito. Tem outro tipo de projeto, outro modelo de pensamento, e que não é na área que não pode construir. Não tem jeito. Não é uma opção. É uma condição que a gente tem que adotar. Meu pai vem de São Paulo, vem morar em Brasília, trabalha com o Oscar. O (Atos) Bulcão é padrinho de casamento do meu pai. Minha mãe é neta de Oscar. Viveu, cresceu, estudou no Elefante Branco, aqui em Brasília. Moramos na quadra 700. Então, para mim, Brasília é minha história, minha cidade e minha vida. Eu brinco que sou filho de Brasília. Essa é a minha luta e estou disposto. Estou propondo no nosso grupo e nos grupos técnicos e de debate que participo. Há muita proposta, muita ideia, muita solução e tenho certeza que a gente tem que pegá-las e replicar.
Inchar Brasília, e especialmente o Plano Piloto, não parece a você uma má ideia? Vemos que falta desenvolvimento em áreas muito próximas do coração da capital e os anos passam e nunca há solução. O que você acredita ser uma solução para não esgotar a área central e desenvolver as cidades do quadrilátero?
Brasília tem que se estender. Para isso, a mobilidade urbana é fundamental. E, hoje, ela está mal resolvida. Ela não pode ficar no grupo de interesse. Tem de haver a tarifa zero, por exemplo, como a gente fez no Rio de Janeiro, e várias cidades estão adotando. A tarifa tem de ser subsidiada. Precisamos criar rodoviárias de transição para poder atender os transportes públicos locais. Aí os cidadãos passam pela transição e trocam por outro sistema que venha para o Plano Piloto. E você faz a integração das Regiões administrativas (RAs). Com isso, pode fazer com que as RAs fiquem tão modernas, bonitas e perfeitas quanto é a própria Brasília, maravilhosa, como tem que ser, com plano, com solução, porque tem tudo isso aí. Vários técnicos já discutiram tudo isso.
O PPCub também falha gravemente em pontos ambientais, não é?
Proteger manancial não é nenhuma opinião. Não tem como fazer um PPCub que não tenha proteção de manancial, de área verde. Brasília tem que começar a ser discutida a partir da área sustentável, a partir da área verde, a partir do vazio. Aí sim, essa é a área que não pode mexer, essa é o manancial que não pode mexer. Tem de cadastrar todas as nascentes, que têm que ser públicas. Você não pode pegar e matar uma nascente que abastece o Amazonas e o Maranhão. Você não pode pegar e ela ser privada. Acho que tem de fazer ao contrário. Você não pode pegar uma quadra, fazer o estudo dela e ver o que tem que mudar. Não, tem que pegar as áreas verdes, as áreas de mananciais, as áreas da serrinha e pegar toda a equipe que nós formamos aí, com o grupo que nós criamos, e discutir em busca dessa solução, a partir do meio ambiente para a escala gregária.
Fala-se bastante em privatização e em ocupação dos espaços públicos…
É um crime terem privatizado a rodoviária. Eu estive aqui em 1998 com meu bisavô, na última viagem do Oscar a Brasília. Estamos, inclusive, fazendo um filme sobre isso, com o apoio de vários empresários e do governo federal. Eu registrei a última viagem do Niemeyer, que foi para defender a escala gregária de Brasília. A praça para quem não tinha, e vários tecnocratas foram contra. Não permitiram que o Oscar terminasse o Plano Piloto que ele sonhou para Brasília! E hoje o PPCub vem dizendo o que pode fazer? Não é possível. Não dá.
O ideal, então, é que o PPCub, do jeito que está, voltasse para a discussão com a sociedade civil, pelo menos, porque ela participou muito pouco dele?
Eu acho que é isso. Não há outra opção. A gente tem que deixar muito claro que o PPCub é a ponta do iceberg. Tem o PDOT, o PDTU, todos os planos de de zoneamento. Qualquer um desses que passe com uma cláusula ou uma vírgula errada pode ser a morte de Brasília, no sentido que a gente conhece, bela, linda e confraternizada. Não é um ‘não construa em Brasília’. Há muita coisa a fazer, como passagens subterrâneas e várias questões de mobilidade e de caminhabilidade. Agora, não é construir, por exemplo, como eu vi na 208, uma garagem em área verde. Ali um prédio pegou e fez uma garagem privativa, e da forma mais absurda. De repente, você tem uma escala linda, na 208, uma das primeiras quadras de Brasília e aí você constrói um galpão no meio dela. Isso é surreal, um contrassenso, uma clara e evidente prova de onde vai se chegar com essa Brasília do futuro prevista no PPCub.
Os arquitetos e urbanistas têm dito que a gente está fazendo vários urbanicídios com a cidade. Você concorda com esse termo?
Concordo. O que é ser urbano? É a construção, a paisagem urbana, a paisagem ambiental. O plano urbano é tudo que é uma cidade. E o vazio faz parte. Você pode ter um planejamento urbano ruim, mas pode gostar e falar que, no pior momento dela, é a paisagem urbana que você quer. Aí não é urbanicídio. Eu concordo com o termo urbanicídio quando você tem um plano, como no caso de Brasília, que foi totalmente projetada desde a concepção, pensada e planejada urbanisticamente. Ela tem diretrizes e vertentes de como ia se desenvolver e qual era o plano de acontecer aquilo. Claro, com uma ou outra variação ou nuance. Agora, não é mudar a escala. Urbanicídio é quando você deteriora ou quase invalida o planejamento que para ela foi feito. Urbanicídio é quando se faz um arremedo de planejamento urbano, puxadinhos ou faz o que quer que seja que não está dentro de um planejamento macro e regional.
Existe ainda uma crítica de que o PPCub concentrou-se em adensar Brasília e deixou de lado o desenvolvimento das cidades do DF. O que você pensa disso?
Eu defendo a tese de que Brasília não é só o Plano Piloto, mas também as RAs, o quadradinho como um todo. Então esse planejamento urbano tem que ser macro e regional. E isso envolve, por exemplo, a mobilidade urbana. Eu vi meu bisavô trabalhando na prancheta, com 102 anos. Eu e ele desenhando em cima do Eixo Monumental. O Oscar era contra os carros e estava querendo apresentar para Brasília a proposta de um VLT que viesse da W3 e à rodoviária, conectando até o Congresso e o Alvorada. Nós estávamos começando a desenhar isso, identificando onde poderiam ser os bolsões de estacionamento e que pudesse haver uma valorização do caminhar do pedestre e como isso podia ser. O Oscar dizia que a melhor cidade do mundo, depois do Rio de Janeiro, era Paris, que você podia passear, ver as lojas, ver as quadras, e isso tem em Brasília. Só está mal resolvido. Era o que o Oscar dizia: Brasília está mal resolvida. E o Oscar, com 102 anos, estava discutindo isso. A questão do VLT já é importante. O metrô também. Essas são questões que tem de se resolver.
Para terminar: como você vê a preservação da obra do seu bisavô e o futuro de Brasília?
Arquitetos que vêm do exterior dão um bom exemplo. Alguns dizem que estiveram em Brasília e não conseguiram fotografar este ou aquele monumento porque estava roxo no dia. Ou apagado. Você não consegue, por exemplo, ver o projeto original do Niemeyer, como ele pensou, que é arquitetura branca, caiada, horizontalidade no horizonte, na paisagem, e que você vê através da arquitetura de Niemeyer. Isso é uma característica muito importante de Brasília. As pessoas precisam entender que se isso que está sendo discutido for permitido, pode ser que daqui a 10 anos você abra sua janela e na frente veja a cozinha do vizinho, o que é uma temeridade. Isso é o grave.
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Fonte: Nacional
BRASIL
Credores aprovam plano do Grupo HPAR e fortalecem recuperação judicial da companhia
Assembleia com 80% de adesão consolida continuidade do conglomerado e reforça confiança do mercado
Published
1 mês agoon
15 de maio de 2026By
Da Redação
O Grupo HPAR teve o plano de recuperação judicial aprovado nesta quarta-feira (13/05), durante Assembleia Geral de Credores realizada no processo que tramita na 1ª Vara Cível de Cuiabá (MT). A decisão representa uma das etapas mais relevantes da reestruturação financeira do Grupo.
O plano recebeu apoio maciço dos credores, alcançando adesão de 80,58% do valor total dos créditos presentes à assembleia. Instituições financeiras como Daycoval e Bradesco deram voto favorável às condições previstas no plano e no termo aditivo apresentado pelas recuperandas.
A aprovação consolida a continuidade operacional do Grupo HPAR, que atua nos setores de tecnologia, telecomunicações, infraestrutura de redes e serviços corporativos, reunindo as empresas Globaltask, SPE Piauí Conectado, H.Tell Telecom e Bao Bing Infraestrutura.
Internamente, o grupo trata a aprovação como um marco estratégico para preservação das atividades empresariais diante da crise provocada pelo descumprimento do contrato envolvendo a PPP-Piauí Conectado, considerada uma das maiores iniciativas de infraestrutura digital do país. O projeto implantou aproximadamente 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.
O grupo sustenta que houve encampamento ilegal da infraestrutura implantada sem a correspondente indenização pelos investimentos realizados.
O plano aprovado prevê que os recursos financeiros advindos (1) do procedimento de arbitragem que sujeita o Estado do Piauí, (2) da ação judicial de execução que tem contra o Banco do Brasil, garantidor do investimento realizado ou (3) da decisão que determina o pagamento da garantia na recuperação judicial — classificados como “Eventos de Liquidez” — sejam destinados ao cumprimento das obrigações previstas na recuperação judicial e ao pagamento dos credores.
Entre os principais pontos de tensão está o litígio envolvendo garantias financeiras relacionadas à PPP. Segundo o grupo, o Banco do Brasil teria se recusado a liberar o dinheiro depositado e vinculado ao investimento realizado, esgotando financeiramente a empresa para levá-la à quebra para posterior tomada dos investimentos efetuados. Um recurso de agravo de instrumento, que vai decidir a liberação do valor para a empresa está pautado para ser julgado dia 20/05 no TJMT.
Para o advogado especialista em recuperação judicial do Grupo ERS, Euclides Ribeiro, a aprovação do plano demonstra maturidade do ambiente negocial e reforça a viabilidade econômica do grupo.
“Essa aprovação representa um importante sinal de confiança dos credores na capacidade de recuperação da companhia e principalmente na tese de que o Banco do Brasil deve sim liberar o dinheiro bloqueado pois é garantidor e caucionante dos recursos que estão na conta corrente do projeto. O processo demonstrou que, mesmo em cenários de forte complexidade institucional e financeira, é possível construir soluções jurídicas voltadas à manutenção da operação, proteção dos empregos e satisfação coletiva dos credores”, afirmou.
A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado é acompanhada com atenção por investidores, operadores de PPPs e agentes do mercado financeiro, diante dos possíveis impactos sobre a segurança jurídica de projetos públicos de infraestrutura no Brasil.
Entenda o caso
A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado transformou-se em uma das maiores disputas jurídico-empresariais já registradas no setor de infraestrutura digital brasileiro. A concessionária foi responsável pela implantação do projeto Piauí Conectado, considerado um dos maiores projetos públicos de conectividade do país, com cerca de 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.
O modelo foi estruturado como uma Parceria Público-Privada (PPP), na qual a iniciativa privada realizou os investimentos necessários para construção, operação e manutenção da infraestrutura tecnológica estadual, enquanto o Estado se comprometeu contratualmente a remunerar a concessionária ao longo dos 30 anos da concessão.
Segundo as recuperandas, aproximadamente R$ 650 milhões foram investidos diretamente na implantação da rede óptica, datacenter, centros operacionais e infraestrutura de telecomunicações. A empresa sustenta que o projeto contribuiu para elevar o Piauí aos primeiros lugares nacionais em indicadores de conectividade entre 2022 e 2024.
A partir de 2023, com a posse do governador Rafael Fonteles, a relação entre a concessionária e o Governo do Piauí sofreu uma mudança abrupta e o conflito escalou rapidamente.
Segundo a concessionária, apesar de o contrato ter sido integralmente executado e a rede ter permanecido plenamente operacional durante toda a execução da concessão, o Estado passou a promover retenções massivas das contraprestações mensais previstas contratualmente, comprometendo severamente o fluxo financeiro da operação, tudo arquitetado para tomada da empresa pelo Estado sem pagamento dos investimentos.
Na sequência, sucederam-se auditorias técnicas, instauração de processos sancionatórios, decretação de intervenção estatal e, posteriormente, a caducidade da concessão. Além do conflito com o Governo do Piauí, o Grupo HPAR obteve a negativa do Banco do Brasil em pagar a garantia prestada, em que pese já ter ganho a arbitragem na Câmara Brasil Canadá. Segundo as recuperandas, a não liberação dessas garantias agravou significativamente o cenário de crise financeira das empresas.

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