*Antonio Veronese, pintor ítalo-brasileiro, é autor de obras como “Tensão no Campo” ( Congresso Nacional); “Just Kids” (UNICEF), “Famine” (FAO, Roma) e “Save the Children” (símbolo dos 50 anos das Nações Unidas). Com 80 exposições individuais em 9 diferentes países , Veronese é considerado pela crítica francesa como “um dos dez pintores vivos que já deixaram seus rastros na história da Arte”.
BRASIL
Antônio Veronese: A História de Bentinho (Capítulo 4 – A Visita do Comendador)
Publicado em
27 de agosto de 2024por
Da Redação
Antônio Veronese: A História de Bentinho (Capítulo 4 – A Visita do Comendador)
A família Fragoso , incrédula e fascinada pelo “ar” aristocrático do inesperado visitante, colocou-o porta adentro não sabendo se passava um café , se ajeitava cabelos e roupas desgraciosos da manhã, ou se simplesmente disfarçava a desarrumação da acanhada residência tão bruscamente alterada em sua rotina matinal.
O pobre Fragozinho, tropeçando nas deferências o que denunciava seu nervosismo, “derramava-se” em comentários elogiosos à gravata, à bengala, ao carro, ao sotaque lusitano e mesmo à beleza da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, que ele dizia conhecer de duas ou três fotos de uma antiga publicação que, prontamente, fez questão de resgatar de um velho baú.
Lilina serviu café acompanhado de sequilhos, que era tudo de que se dispunha. O Comendador, extremamente polido, esforçava-se por desobrigar os Fragoso de quaisquer protocolos. Em vão! Nos mínimos gestos, a húmile família insistia em dar à visita toda “pompa e circunstância”, o que a penúria da despensa, a bagunça da casa e o andrajo dos anfitriões contribuíam para encenação da ópera-bufa.
Depois do café tomado, dos sequilhos elogiados e da embaraçosa escrupularia, conseguiu o Comendador, finalmente, perguntar por Betinho:
– Afinal, disse ele, deixara seus negócios no Rio, submetendo-se à penosa viagem, exclusivamente por preocupação com a situação do menino, por quem sentia-se responsável, ainda que não o conhecesse pessoalmente. Lamentou a falta de notícias por ocasião da morte de seu pai, o que impossibilitara sua vinda ao enterro. Reiterou seu profundo apreço pelo dileto compadre Antonio Bento, denunciando, no olhar, neste momento, um lampejo de emoção.
Contudo, atendera o mais prontamente possível ao apelo que recebera e ali estava, disposto a contornar a penosa situação em que as partes se encontravam.
– Afinal, frisou, educar uma criança é tarefa que exige tempo e recursos. Tempo, desculpou-se, infelizmente tinha-o escasso; mas recursos não faltariam à educação do menino. Para isso aqui estou!
E, parecendo querer encurtar a conversa, completou com voz grave e decidida:
– Quero que saibam que, a partir de hoje contribuirei mensalmente com dez contos de réis para a educação de Bentinho!
Depois, puxando do bolso polpuda carteira, para qual convergiram avidamente todos os olhares da sala, sacou dela a quantia correspondente ao primeiro mês, estalidando notas novinhas, as quais contou sem pressa e depositou, sem encontrar resistência, nas macérrimas mãos de Fragosinho.
Fez-se um silêncio de morte! A impressão que se tinha era a de que Fragosinho e Lilina haviam mergulhado num túnel de alucinantes fantasias, embriagados de sonhos e devaneios até então impensáveis . Com tal importância, calculava o chefe da casa, teriam suficiência não só para o sustento de Bentinho mas de toda a família, com sobras que permitiriam prazeres até então inimagináveis ao parcíssimo destino que lhes fora reservado.
A truculenta Lilina, avançada no naufrágio dos anos e do desleixo, em quem a ausência de sonhos e as agruras da vida haviam esculpido patético marmo, esforçava-se para disfarçar o delírio que a vultuosa soma oferecida lhe causara, conseguindo concluir, em rápido raciocínio matemático, contas feitas e noves fora, com quantos novos vestidos poderia enriquecer seu andrajoso guarda-roupas.
Quando começou a pesar o silêncio na sala, esboçou Fragosinho uma formal resistência à oferta, afirmando não ser a doação necessária, ainda que mantivesse, bem cerrado na urna das mãos o maço de dez contos de réis. A patusca mulher então, na iminência da catástrofe e antes que o marido, como num terreiro de umbanda, incorporasse Oizus, arrancou-lhe o dinheiro das mãos, afogando-o de urgência nas profundezas do decote para, em seguida, dirigir fulminante olhar ao pusilânime marido. Fragozinho, consciente do risco que corria, preferiu dar de ombros e calar, resguardando-se de futuras tempestades…
Tendo agora o controle total da situação, Lilina desanuviou o olhar e, com um sorriso desfraldado no rosto, dirigiu-se exultante ao Comendador:
– Fique o senhor tranquilo; o menino terá do melhor que se pode dar!
– E por falar em Bentinho, onde está ele? perguntou o Comendador.
A mulher então, tendo já assegurado o inesperado “capital” nas vastidões cárneas dos peitos respondeu, assomada agora de absolutamente rara gentileza:
– Pescando, comendador, mas não deve tardar porque aqui o almoço servimos às onze em ponto. E o senhor, faço questão, fica conosco para almoçar!
O Comendador ainda tentou resistir, “não quero causar nenhum incômodo” retrucou, mas ela foi categórica, pois que em horas de interesse sabia ela, como ninguém, compor situações e costurar conveniências.
– Almoça conosco e não se fala mais nisso!
O susto de Bentinho
Não passou quarto de hora até que Bentinho entrasse na sala, trazendo três peixinhos de mixaria. Tomou um susto dos infernos! Ao ver Lilina correr em sua direção chegou a curvar-se esperando pelas bordoadas. Depois, pasmo, viu-se envolvido pelo volumoso abraço da mulher, que completou a cena insólita com a frase:
– Eis aqui o nosso Bentinho, Comendador, é como um filho para nós. Faz parte da família!
O susto estampado no rosto do menino ameaçou desmascarar a pantomima, mas a arguta mulher, com astúcia e destreza, tornou implexo o assunto e encorpada a conversa, tratando de enfatizar “a honraria de tão ilustre visita” com o intuito de desviar a atenção do português. Depois, dirigindo-se a Bentinho, ainda sufocado entre seus braços, ressaltou que ele devia agradecer o desvelo do Comendador, vindo de tão longe por seu cuidado.
O português, que via Bentinho pela primeira vez, ressaltou sua semelhança com o pai recém falecido. Os mesmos olhos, a face altiva, a testa larga, as sobrancelhas fartas e uma expressão que irradiava luminosidade a cada sorriso. Havia de ter herdado, presumia o fidalgo visitante, o mesmo caráter firme e o coração generoso, qualidades que aprendera a admirar no saudoso compadre, de quem falava com carinho e nostalgia. A amizade que sentia ainda por Antonio Bento sobrevivera à distância e à sua morte!
Ouvido sem ser interrompido pela pequena e atentíssima plateia, o comendador emocionou-se várias vezes lembrando do velho amigo marceneiro e a conversa, cheia de detalhes e remembranças, prolongou-se durante todo o almoço onde serviu-se magra galinha e uma saladinha chinfrim, regados por um bom tinto português trazido pelo comendador, que comeu e bebeu sem regatear.
Fragozinho, ainda chuchurreando seu último copo de vinho, polidamente declinou da oferta d’um puro havana que, uma vez aceso pelo Comendador, envolveu a casa de bálsamos exóticos e inebriantes expectativas…
Permaneceram sentados ainda por uma hora em torno da pequena mesa, atentos agora às saborosas histórias do português, como que hipnotizados por seus gestos largos e sobrantes e por seu mavioso sotaque d’além mar… Bentinho restou calado em seu canto, temeroso de falar algo que desagradasse à Lilina. Ele, que não presenciara o compromisso do Comendador com a vultuosa soma mensal, não entendia bem o que se passava e o porquê de tanta formalidade e reverência. Enquanto isso, a dona da casa, habilmente, estimulava a prolixidade do visitante, cuidando de manter cheio seu copo, agora de um tinto barato que resgatara do porão e, ao mesmo tempo em que procurava tornar acolhedora sua estada na casa, ansiava por sua partida, temerosa de que se desandasse a encenação.
Depois de conversar toda a conversa, de sucessivas trocas de reverências, por ser tão longa a viagem de volta e dado o avançado da hora, o Comendador dirigiu-se a Bentinho num tom afetuoso, quase paternal:
– Meu bom menino. O mínimo que posso fazer por ti, em reconhecimento a tanto que teu bom pai fez por mim, é propiciar-te tudo que um menino deve ter para crescer forte, bem-educado e feliz. Quando soube da morte de teu pai e da difícil situação por que passavam teus tutores , não vacilei em vir até aqui para levar-te comigo para o Rio de Janeiro…
O coração de Bentinho disparou no seu peito apertado! Ir para o Rio de Janeiro?!
– Mas, continuou o Comendador, percebo agora o quanto és amado por essa família, onde tratam-te como a um filho. Por essa razão, acredito que será melhor que permaneças aqui, além de tudo, por estares mais adaptado à realidade desta pequena cidade do que à de uma metrópole como o Rio de Janeiro.
– Desta forma, continuou, e sempre pensando no que possa ser o melhor para ti, acredito que aqui devas permanecer, no seio desta família que te acolheu com tanta dedicação e amor. Para tanto, comprometi-me com dona Lilina e senhor Fragoso, meu bom Bentinho, a destinar soma mensal com suficiência para tua educação.
Minha esposa, Maria Déa, gostaria imensamente de tê-lo conosco lá no Rio, mas as circunstâncias conduzem-me a esta decisao à luz do bom senso. Saiba, no entanto, continuou o Comendador ante mutismo absoluto da platéia, que qualquer coisa que eu possa fazer que acrescente algo a teu bem-estar, o farei de bom grado, bastando para isso que me escrevas.
O menino ouviu sem emitir palavra. A simples menção de ser levado para o Rio causara-lhe tal emoção e contentamento que sentira turvar-se a visão. Queria falar, espernear, gritar, enumerar em prantos todas as mágoas e sofrimentos acumulados pela tirania de Lilina, advogar a plenos pulmões sua ânsia de deixar aquela casa, de libertar-se do jugo de tristezas que lhe reservara o infortúnio destino. Mas calou-se, aprisionado pela timidez e o medo. Via escapar-lhe diante da inocência de seu olhar de menino, a oportunidade única de conhecer a tão sonhada cidade do Rio de Janeiro…Queria falar, mas nada falou, encarcerado à cadeira no canto da sala sob o soslaio ameaçador da gorda mulher. Depois veio uma vontade enorme de chorar, mas não chorou.
Nos últimos raios de sol daquela tarde, o reluzente chevrolet partiu, deixando atrás de si uma densa nuvem de poeira e tanto de esperanças adiadas. Bentinho acompanhou-o até onde seus olhos podiam sonhar. Com ele, na lonjura do horizonte, partiam seus sonhos, seus desejos, sua ventura.
(Continua na próxima semana)
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Fonte: Nacional
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BRASIL
Credores aprovam plano do Grupo HPAR e fortalecem recuperação judicial da companhia
Assembleia com 80% de adesão consolida continuidade do conglomerado e reforça confiança do mercado
Published
2 meses agoon
15 de maio de 2026By
Da Redação
O Grupo HPAR teve o plano de recuperação judicial aprovado nesta quarta-feira (13/05), durante Assembleia Geral de Credores realizada no processo que tramita na 1ª Vara Cível de Cuiabá (MT). A decisão representa uma das etapas mais relevantes da reestruturação financeira do Grupo.
O plano recebeu apoio maciço dos credores, alcançando adesão de 80,58% do valor total dos créditos presentes à assembleia. Instituições financeiras como Daycoval e Bradesco deram voto favorável às condições previstas no plano e no termo aditivo apresentado pelas recuperandas.
A aprovação consolida a continuidade operacional do Grupo HPAR, que atua nos setores de tecnologia, telecomunicações, infraestrutura de redes e serviços corporativos, reunindo as empresas Globaltask, SPE Piauí Conectado, H.Tell Telecom e Bao Bing Infraestrutura.
Internamente, o grupo trata a aprovação como um marco estratégico para preservação das atividades empresariais diante da crise provocada pelo descumprimento do contrato envolvendo a PPP-Piauí Conectado, considerada uma das maiores iniciativas de infraestrutura digital do país. O projeto implantou aproximadamente 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.
O grupo sustenta que houve encampamento ilegal da infraestrutura implantada sem a correspondente indenização pelos investimentos realizados.
O plano aprovado prevê que os recursos financeiros advindos (1) do procedimento de arbitragem que sujeita o Estado do Piauí, (2) da ação judicial de execução que tem contra o Banco do Brasil, garantidor do investimento realizado ou (3) da decisão que determina o pagamento da garantia na recuperação judicial — classificados como “Eventos de Liquidez” — sejam destinados ao cumprimento das obrigações previstas na recuperação judicial e ao pagamento dos credores.
Entre os principais pontos de tensão está o litígio envolvendo garantias financeiras relacionadas à PPP. Segundo o grupo, o Banco do Brasil teria se recusado a liberar o dinheiro depositado e vinculado ao investimento realizado, esgotando financeiramente a empresa para levá-la à quebra para posterior tomada dos investimentos efetuados. Um recurso de agravo de instrumento, que vai decidir a liberação do valor para a empresa está pautado para ser julgado dia 20/05 no TJMT.
Para o advogado especialista em recuperação judicial do Grupo ERS, Euclides Ribeiro, a aprovação do plano demonstra maturidade do ambiente negocial e reforça a viabilidade econômica do grupo.
“Essa aprovação representa um importante sinal de confiança dos credores na capacidade de recuperação da companhia e principalmente na tese de que o Banco do Brasil deve sim liberar o dinheiro bloqueado pois é garantidor e caucionante dos recursos que estão na conta corrente do projeto. O processo demonstrou que, mesmo em cenários de forte complexidade institucional e financeira, é possível construir soluções jurídicas voltadas à manutenção da operação, proteção dos empregos e satisfação coletiva dos credores”, afirmou.
A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado é acompanhada com atenção por investidores, operadores de PPPs e agentes do mercado financeiro, diante dos possíveis impactos sobre a segurança jurídica de projetos públicos de infraestrutura no Brasil.
Entenda o caso
A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado transformou-se em uma das maiores disputas jurídico-empresariais já registradas no setor de infraestrutura digital brasileiro. A concessionária foi responsável pela implantação do projeto Piauí Conectado, considerado um dos maiores projetos públicos de conectividade do país, com cerca de 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.
O modelo foi estruturado como uma Parceria Público-Privada (PPP), na qual a iniciativa privada realizou os investimentos necessários para construção, operação e manutenção da infraestrutura tecnológica estadual, enquanto o Estado se comprometeu contratualmente a remunerar a concessionária ao longo dos 30 anos da concessão.
Segundo as recuperandas, aproximadamente R$ 650 milhões foram investidos diretamente na implantação da rede óptica, datacenter, centros operacionais e infraestrutura de telecomunicações. A empresa sustenta que o projeto contribuiu para elevar o Piauí aos primeiros lugares nacionais em indicadores de conectividade entre 2022 e 2024.
A partir de 2023, com a posse do governador Rafael Fonteles, a relação entre a concessionária e o Governo do Piauí sofreu uma mudança abrupta e o conflito escalou rapidamente.
Segundo a concessionária, apesar de o contrato ter sido integralmente executado e a rede ter permanecido plenamente operacional durante toda a execução da concessão, o Estado passou a promover retenções massivas das contraprestações mensais previstas contratualmente, comprometendo severamente o fluxo financeiro da operação, tudo arquitetado para tomada da empresa pelo Estado sem pagamento dos investimentos.
Na sequência, sucederam-se auditorias técnicas, instauração de processos sancionatórios, decretação de intervenção estatal e, posteriormente, a caducidade da concessão. Além do conflito com o Governo do Piauí, o Grupo HPAR obteve a negativa do Banco do Brasil em pagar a garantia prestada, em que pese já ter ganho a arbitragem na Câmara Brasil Canadá. Segundo as recuperandas, a não liberação dessas garantias agravou significativamente o cenário de crise financeira das empresas.

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