BRASIL
Antônio Geraldo: “Saúde mental de atletas de alto rendimento”
Publicado em
31 de julho de 2024por
Da Redação
Pela primeira vez na história das participações do Brasil em Jogos Olímpicos, a delegação brasileira contará com a presença de um psiquiatra. Este é um marco significativo, em relação a quebra do preconceito e o reconhecimento da importância de se cuidar da saúde mental no esportista de alto rendimento, demonstrando maior conscientização sobre o assunto. O papel do psiquiatra inicia bem antes e é fundamental para garantir que os atletas não apenas alcancem seus objetivos físicos, mas também mantenham seu bem-estar psíquico e tenham maior rendimento.
Atletas de alto rendimento enfrentam uma pressão enorme para obter sucesso. O treinamento intenso, as competições constantes e as altas expectativas de desempenho podem afetar significativamente a saúde mental dos atletas. É uma situação crônica de pressão, de cobrança e resultados em relação a tudo que é investido. Atletas convivem sempre com a sensação de que podem perder tudo em um segundo. Se cair da barra, escorregar, perder por um detalhe mínimo, Se eles cometerem algum erro, podem vir a perder quatro anos de trabalho, oito anos de trabalho. A pressão é muito forte. Até a torcida, que é algo benéfico e legal, também contribuem para essa pressão que pode ser positiva ou negativa.
Tornou-se comum nos dias atuais vermos atletas de elite relatarem quadros como ansiedade e depressão no ambiente esportivo e fora dele. No entanto, o estigma e o preconceito relacionado às doenças mentais muitas vezes faz com que eles não falem sobre o assunto impedindo que busquem ajuda.
Outra questão que permeia o ambiente esportivo e é pouco falada são os transtornos alimentares, induzido por dietas rígidas e regradas. Temos a vigorexia, anorexia e bulimia, muito comuns no ambiente esportivo. Há também casos de outros quadros psiquiátricos como o caso do Michael Phelps, por exemplo, diagnosticado com TDAH desde a infância. Todas as pessoas com essas doenças necessitam de tratamentos específicos e muitas têm receio e se negam a fazerem o tratamento por medo de serem pegos no exame antidoping e suas carreiras serem prejudicadas.

O estigma e o preconceito relacionados às doenças mentais ainda são uma barreira no esporte. Muitos atletas podem hesitar em buscar ajuda por medo de serem vistos como fracos, incapazes, inseguros e etc. Esse estigma não apenas perpetua a vergonha, mas também pode impedir o tratamento adequado, prolongando os problemas e impactando negativamente no seu desempenho.
Importante lembrar que atletas são seres humanos e também têm vida pessoal, problemas familiares e dificuldades financeiras, fatores, tanto internos quanto externos que também podem afetar a sua saúde mental. O estresse diário, somado a uma sobrecarga nos treinamentos também pode impactar significativamente o estado mental dos atletas.
Além de tudo isso, atletas ainda precisam lidar com haters, cobranças nas mídias sociais e a falta de empatia das pessoas, que muitas vezes se alegram com as derrotas e os destratam quando eles falham. Mesmo nas poucas vitórias, elas não são aproveitadas como deveriam, limitando-se a breves momentos de fama e glória em vez de serem transformadas em investimentos que beneficiem a todos, proporcionando um cuidado melhor e melhores resultados para todos.
Apesar dos avanços e do crescente interesse em questões relacionadas ao psicológico dos atletas, o preconceito e a falta de conhecimento sobre a importância da psiquiatria ainda persistem. Muitos ainda associam a psiquiatria exclusivamente a condições de doença grave, ignorando que ela desempenha um papel importante para a prevenção de doenças e promoção da saúde.
A presença de um psiquiatra na delegação representa um passo importante para mudar essa perspectiva. Ao normalizar a presença desse profissional, contribuímos para a criação de um ambiente mais acolhedor e compreensivo, onde os atletas podem se sentir mais seguros para buscar ajuda sem receio de julgamento
É nesse momento que a psiquiatria se torna um recurso valioso. Não se trata apenas de tratar doenças mentais quando elas surgem ou estão em um estágio grave, mas de adotar uma abordagem preventiva. A psiquiatria pode ajudar a identificar sinais precoces de estresse e outros sintomas que possam levar a um quadro psiquiátrico, além de desenvolver estratégias de enfrentamento eficazes e promover o bem-estar dos atletas.
A abordagem preventiva deve começar com a promoção de uma cultura que valorize a saúde mental tanto quanto o desempenho físico. Criar programas de apoio, educar treinadores e equipes sobre os sinais que devem estar atentos de que há problemas de saúde mental e como oferecer suporte e outros recursos podem ser muito úteis. Ter médicos psiquiatras integrados à equipe esportiva pode fazer uma grande diferença nesse contexto.
Ainda há um longo caminho a percorrer para superar o estigma associado à saúde mental no contexto esportivo. O fato de ter um psiquiatra na delegação é um avanço, mas não garante a solução completa do problema. Precisamos de mais acesso não só dentro da delegação, mas também de um trabalho contínuo contra o preconceito 365 dias ao ano e oferecer oportunidades de tratamento para os atletas, que muitas vezes enfrentam a falta de patrocínio e de ajuda financeira. Alguns recebem suporte, enquanto outros ficam sem nenhuma possibilidade de tratamento, o que é muito ruim.
Em resumo, atletas de alto rendimento trazendo a saúde mental para o debate e compartilhando as suas experiências podem servir de exemplo e inspirar muitas pessoas. A saúde mental é uma parte essencial do sucesso esportivo de um atleta e deve ser tratada com a mesma seriedade que o treinamento físico. Cuidar da saúde mental, vale ouro!
Antônio Geraldo da Silva é médico formado pela Faculdade de Medicina na Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES. É psiquiatra pelo convênio HSVP/SES – HUB/UnB. É doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto – Portugal e possui Pós-Doutorado em Medicina Molecular pela Faculdade de Medicina da UFMG. Entre 2018 e 2020, foi Presidente da Associação Psiquiátrica da América Latina – APAL.
Atualmente é Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Diretor Clínico do IPAGE – Instituto de Psiquiatria Antônio Geraldo e Presidente do IGV – Instituto Gestão e Vida. Associate Editor for Public Affairs do Brazilian Journal of Psychiatry – BJP. Editor sênior da revista Debates em Psiquiatria. Review Editor da Frontiers. Acadêmico da Academia de Medicina de Brasília. Acadêmico Correspondente da Academia de Medicina de Minas Gerais. Coordenador Nacional da Campanha “Setembro Amarelo®”, da Campanha ABP/CFM Contra o Bullying e o Cyberbullying e da Campanha de Combate à Psicofobia. É autor de dezenas de livros e artigos científicos em revistas internacionais e também palestrante nacional e internacional.
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Fonte: Nacional
BRASIL
Credores aprovam plano do Grupo HPAR e fortalecem recuperação judicial da companhia
Assembleia com 80% de adesão consolida continuidade do conglomerado e reforça confiança do mercado
Published
4 semanas agoon
15 de maio de 2026By
Da Redação
O Grupo HPAR teve o plano de recuperação judicial aprovado nesta quarta-feira (13/05), durante Assembleia Geral de Credores realizada no processo que tramita na 1ª Vara Cível de Cuiabá (MT). A decisão representa uma das etapas mais relevantes da reestruturação financeira do Grupo.
O plano recebeu apoio maciço dos credores, alcançando adesão de 80,58% do valor total dos créditos presentes à assembleia. Instituições financeiras como Daycoval e Bradesco deram voto favorável às condições previstas no plano e no termo aditivo apresentado pelas recuperandas.
A aprovação consolida a continuidade operacional do Grupo HPAR, que atua nos setores de tecnologia, telecomunicações, infraestrutura de redes e serviços corporativos, reunindo as empresas Globaltask, SPE Piauí Conectado, H.Tell Telecom e Bao Bing Infraestrutura.
Internamente, o grupo trata a aprovação como um marco estratégico para preservação das atividades empresariais diante da crise provocada pelo descumprimento do contrato envolvendo a PPP-Piauí Conectado, considerada uma das maiores iniciativas de infraestrutura digital do país. O projeto implantou aproximadamente 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.
O grupo sustenta que houve encampamento ilegal da infraestrutura implantada sem a correspondente indenização pelos investimentos realizados.
O plano aprovado prevê que os recursos financeiros advindos (1) do procedimento de arbitragem que sujeita o Estado do Piauí, (2) da ação judicial de execução que tem contra o Banco do Brasil, garantidor do investimento realizado ou (3) da decisão que determina o pagamento da garantia na recuperação judicial — classificados como “Eventos de Liquidez” — sejam destinados ao cumprimento das obrigações previstas na recuperação judicial e ao pagamento dos credores.
Entre os principais pontos de tensão está o litígio envolvendo garantias financeiras relacionadas à PPP. Segundo o grupo, o Banco do Brasil teria se recusado a liberar o dinheiro depositado e vinculado ao investimento realizado, esgotando financeiramente a empresa para levá-la à quebra para posterior tomada dos investimentos efetuados. Um recurso de agravo de instrumento, que vai decidir a liberação do valor para a empresa está pautado para ser julgado dia 20/05 no TJMT.
Para o advogado especialista em recuperação judicial do Grupo ERS, Euclides Ribeiro, a aprovação do plano demonstra maturidade do ambiente negocial e reforça a viabilidade econômica do grupo.
“Essa aprovação representa um importante sinal de confiança dos credores na capacidade de recuperação da companhia e principalmente na tese de que o Banco do Brasil deve sim liberar o dinheiro bloqueado pois é garantidor e caucionante dos recursos que estão na conta corrente do projeto. O processo demonstrou que, mesmo em cenários de forte complexidade institucional e financeira, é possível construir soluções jurídicas voltadas à manutenção da operação, proteção dos empregos e satisfação coletiva dos credores”, afirmou.
A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado é acompanhada com atenção por investidores, operadores de PPPs e agentes do mercado financeiro, diante dos possíveis impactos sobre a segurança jurídica de projetos públicos de infraestrutura no Brasil.
Entenda o caso
A crise envolvendo a SPE Piauí Conectado transformou-se em uma das maiores disputas jurídico-empresariais já registradas no setor de infraestrutura digital brasileiro. A concessionária foi responsável pela implantação do projeto Piauí Conectado, considerado um dos maiores projetos públicos de conectividade do país, com cerca de 7.500 quilômetros de fibra óptica interligando os 224 municípios do Estado do Piauí.
O modelo foi estruturado como uma Parceria Público-Privada (PPP), na qual a iniciativa privada realizou os investimentos necessários para construção, operação e manutenção da infraestrutura tecnológica estadual, enquanto o Estado se comprometeu contratualmente a remunerar a concessionária ao longo dos 30 anos da concessão.
Segundo as recuperandas, aproximadamente R$ 650 milhões foram investidos diretamente na implantação da rede óptica, datacenter, centros operacionais e infraestrutura de telecomunicações. A empresa sustenta que o projeto contribuiu para elevar o Piauí aos primeiros lugares nacionais em indicadores de conectividade entre 2022 e 2024.
A partir de 2023, com a posse do governador Rafael Fonteles, a relação entre a concessionária e o Governo do Piauí sofreu uma mudança abrupta e o conflito escalou rapidamente.
Segundo a concessionária, apesar de o contrato ter sido integralmente executado e a rede ter permanecido plenamente operacional durante toda a execução da concessão, o Estado passou a promover retenções massivas das contraprestações mensais previstas contratualmente, comprometendo severamente o fluxo financeiro da operação, tudo arquitetado para tomada da empresa pelo Estado sem pagamento dos investimentos.
Na sequência, sucederam-se auditorias técnicas, instauração de processos sancionatórios, decretação de intervenção estatal e, posteriormente, a caducidade da concessão. Além do conflito com o Governo do Piauí, o Grupo HPAR obteve a negativa do Banco do Brasil em pagar a garantia prestada, em que pese já ter ganho a arbitragem na Câmara Brasil Canadá. Segundo as recuperandas, a não liberação dessas garantias agravou significativamente o cenário de crise financeira das empresas.

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