AGRONEGÓCIO
Solos de lavouras precisarão de recuperação após enchentes no Rio Grande do Sul
Publicado em
4 de junho de 2024por
Da RedaçãoUma das preocupações dos produtores rurais atingidos pelas fortes enchentes em diversas regiões do Rio Grande do Sul nas últimas semanas vem, a partir de agora, com a reconstrução de seus negócios. Além da perda de animais, máquinas e propriedades, a perda dos solos para os plantios nas propriedades rurais assoladas pelas águas também se trata de mais um prejuízo para os agricultores.
Conforme o diretor da SIA Brasil, Serviço de Inteligência em Agronegócios, Davi Teixeira, esta é uma perda fundamental nos negócios agropecuários dos produtores rurais gaúchos. “Talvez a maior riqueza dos seus negócios agropecuários, das suas vidas, algo construído ao longo de muitos anos, é o solo. O solo é a memória do sistema de produção agropecuária, é ele que registra tudo que o produtor vem fazendo ao longo dos anos na construção da sua fertilidade, na construção de uma camada fértil para que ali as culturas e as criações possam desempenhar o seu potencial genético”, observa.
Para o gerente de Sustentabilidade da SIA Brasil, Gustavo Heissler, quando ocorrem essas ocasiões de fortes chuvas, que estão gerando uma série de enxurradas, principalmente nesse alto volume observado, especialmente em áreas mais declivosas, se visualiza a perda dos horizontes superficiais do solo. “São as primeiras camadas mais acima no solo. Um ponto que precisamos destacar quando abordamos essa temática é que, via de regra, o horizonte ou as porções mais férteis do solo são justamente essas da camada mais superficial. São as porções onde trabalhamos mais ativamente o solo e a fertilidade. Quando construímos a fertilidade, é justamente essa camada que, em alguns pontos, foi perdida. Aparentemente, no primeiro momento, talvez não percebamos tanto esse fenômeno, mas é importante estarmos atentos a isso, porque essa perda pode, em teoria, gerar diminuição na produtividade dos sistemas agrícolas por algum período”, destaca.
Heissler frisa que existem algumas técnicas que aceleram o processo de recuperação destes solos, tais como o plantio direto, pois se através da adoção desta prática se estimula o solo a trabalhar de forma contínua e protegida, criando um ambiente propício para a ciclagem de nutrientes e o desenvolvimento de microrganismos benéficos. “A diversificação de culturas também é uma excelente ferramenta nesse momento, inclusive para melhorar a diversidade do solo e manter a saúde do ecossistema agrícola, além de ser uma estratégia para trazer nutrientes ao solo. Podemos utilizar espécies que têm como característica a chamada adubação verde”, pondera o especialista, acrescentando, ainda, como terceira prática para aceleração da recuperação das áreas degradadas a aplicação de ferramentas de agricultura de precisão (como aplicação de fertilizantes à taxa variável), visto que as enxurradas podem resultar na formação de manchas de fertilidade ao longo das áreas.
A professora do Departamento de Solos, da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Amanda Posselt Martins, revela que o que está se vendo em muitas propriedades rurais gaúchas é a perda de toda a camada superficial do solo, que é justamente a mais fértil, construída ao longo de anos em áreas historicamente utilizadas por agricultores e pecuaristas para a obtenção de seu ganha-pão. “Sabemos que o solo fértil é algo que se constrói ao longo de anos de muito trabalho e bom manejo, especialmente na nossa condição de clima subtropical, em que a fertilidade de um solo está diretamente relacionada ao teor de matéria orgânica. Ou, em outras palavras, relacionada à vida do solo. Assim como a água levou a casa de muitas pessoas, também levou a casa de uma infinidade de organismos responsáveis por promover a fertilidade dos nossos solos, que são a base da produção agropecuária gaúcha. Agora, temos um trabalho de recomeço também para a fertilidade dos nossos solos”, observa.
Amanda propõe, junto a um grupo de professores da Faculdade de Agronomia da UFRGS, um novo olhar para a agricultura e a pecuária, com a implementação de manejos que são capazes de regenerar a fertilidade do solo em um menor espaço de tempo, como é o caso dos sistemas integrados de produção e dos sistemas agroflorestais, sempre baseados em práticas conservacionistas de manejo do solo. “Esses dois sistemas, os sistemas integrados e os sistemas agroflorestais, já vêm sendo estudados há muito tempo por diversas pesquisas realizadas aqui na UFRGS e se caracterizam justamente por promover uma maior biodiversidade do sistema produtivo, tanto acima quanto abaixo da superfície do solo. Isso é resultado de muitos anos de pesquisas, que comprovam que tais práticas resultam em altas produtividades primárias, ou seja, uma maior produtividade do produto agrícola que gera o retorno econômico, que é de interesse direto do produtor rural, e também algo que é de interesse da sociedade como um todo, que é uma prestação muito maior de funções do solo, mitigando a severidade de eventos climáticos extremos”, salienta.
A professora da UFRGS diz, ainda, que é urgentemente necessário que se tenha mais árvores nas lavouras e pastagens do Rio Grande do Sul. “As raízes, especialmente as das árvores, auxiliam os nossos solos a terem uma maior taxa de infiltração de água e, consequentemente, menos água e menos solo chegarão ao leito do rio em um evento de chuva extrema, como a que tivemos algumas semanas atrás. Em contrapartida, em anos de estiagem, como os que tivemos recentemente, essa água armazenada nas camadas mais profundas do solo pode ser redistribuída para camadas superficiais do solo por essas árvores, e assim ser disponibilizada para os cultivos anuais de lavoura e pastagem, que possuem raízes menos profundas”, complementa.
Já o produtor rural de São Gabriel (RS), Murilo Teixeira Gonçalves, reforça que o solo é a base de qualquer sistema e para isso existem três pilares: o pilar químico, o pilar físico e o pilar biológico. “Precisamos de um equilíbrio entre eles para manter os próprios microrganismos do solo. O que ocorreu com esse excesso de chuva, especialmente num período de colheita? Muitos dos nossos solos estavam descobertos ou sem uma planta de cobertura, e com isso sabemos que a energia cinética da gota da chuva atinge diretamente o solo, salpicando e levando pequenos agregados que acabam selando os poros superficiais, por onde a água deveria infiltrar. Portanto, tivemos muita perda por erosão, com o solo sendo deslocado pela água devido à falta de uma estrutura de macroporos, responsáveis pela taxa de infiltração de água no solo, ou por falta de cobertura”, enfatiza.
Gonçalves lembra também que em algumas áreas na sua propriedade, já havia implantado algumas culturas nas quais observou que todo o sistema radicular conseguiu manter os agregados e a parte orgânica, que é a parte mais especial e rica do solo, evitando sua perda. “Acho que isso destaca a importância de sempre ter alguma planta ocupando o solo, sem deixá-lo exposto ao sol. Isso também impede que a gota da chuva incida diretamente no solo, quebrando sua energia na massa da folha da planta que o cobre. Acredito que isso nos leva a refletir sobre a necessidade de um plantio direto bem feito. Ainda temos algumas pessoas que, em áreas onde não é necessário, realizam o manejo mecânico do solo, o que é muito prejudicial. Observamos muitas lavouras perdendo grandes quantidades de solo devido a esse manejo mecânico. Portanto, devemos procurar fazer essa diversidade de plantas, mantendo o solo coberto o máximo de tempo possível, para obter uma melhor taxa de infiltração e menos perda por erosão”, conclui.
Fonte: Assessoria de Comunicação do Serviço de Inteligência em Agronegócios (SIA Brasil)
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Chuva falha no Centro-Oeste e sobra no Sul na largada da safra
Published
5 horas agoon
1 de outubro de 2026By
Da Redação
Outubro começa com risco de replantio da soja no Centro-Oeste e de paralisação das máquinas no Sul. A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indica chuva abaixo da média em Mato Grosso e Goiás, enquanto o Rio Grande do Sul pode receber até 200 milímetros acima do normal em algumas áreas.
O contraste ocorre no início do plantio da safra 2026/27, estimada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 366,6 milhões de toneladas de grãos. A soja deverá ocupar 49,3 milhões de hectares, mas a semeadura ainda ocorre de forma pontual nas áreas de sequeiro de Mato Grosso. Em Mato Grosso do Sul e no Paraná, as condições permitiram o início dos trabalhos.
O maior risco no Centro-Oeste não é apenas o atraso do plantio. O Inmet alerta que chuvas isoladas, seguidas por períodos secos, podem provocar germinação irregular, falhas na formação das lavouras e necessidade de replantio. Em Goiás e no Distrito Federal, as temperaturas podem superar em mais de 2°C a média histórica de outubro, acelerando a perda de água do solo.
A decisão de esperar pela regularização das chuvas também afeta o milho segunda safra. Quanto mais tarde a soja for semeada e colhida, menor será a janela para implantar o cereal dentro do período de menor risco climático.
No Matopiba, formado por partes de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a previsão também é desfavorável. As precipitações de setembro aliviaram o risco de incêndios, mas não foram suficientes para recompor a umidade do solo na maioria das áreas de sequeiro. O plantio de soja e milho deverá depender de chuvas mais regulares.
Em Mato Grosso do Sul, a condição tende a ser melhor, principalmente no sudoeste e no leste do Estado. Mesmo assim, o centro-norte e o Pantanal podem receber chuva abaixo da média, o que exige atenção antes da entrada das semeadoras.
No Sul, o excesso de umidade cria o problema inverso. A chuva pode reduzir as janelas para o preparo do solo e o plantio de soja, milho e arroz. No Rio Grande do Sul, o acumulado de outubro pode ficar aproximadamente 75 milímetros acima da média e alcançar excesso de até 200 milímetros no oeste do Estado.
O trigo é a cultura mais exposta neste momento. Parte das lavouras está em fases críticas de desenvolvimento ou de colheita. A combinação de chuva frequente e calor favorece doenças como giberela, ferrugem, oídio e manchas foliares, além de aumentar o risco de perda de qualidade e germinação do grão ainda na espiga.
Em São Paulo, a chuva tende a favorecer o plantio da soja e o desenvolvimento da cana-de-açúcar, das pastagens e das hortaliças. Minas Gerais e Espírito Santo, porém, devem enfrentar precipitações irregulares e temperaturas elevadas. Para o café, a condição pode prejudicar a uniformidade da florada e o pegamento dos frutos.
A previsão é influenciada pelo El Niño, que tem 95% de probabilidade de alcançar intensidade muito forte entre outubro e dezembro. O fenômeno ajuda a explicar a tendência de seca no Centro-Norte e chuva acima da média no Sul, mas não determina sozinho o volume que cairá em cada propriedade.
Para o produtor, a recomendação prática é não definir a semeadura apenas pela ocorrência de uma chuva. No Centro-Oeste, será necessário conferir se existe umidade suficiente no perfil do solo para sustentar a emergência das plantas. No Sul, o desafio será aproveitar os intervalos de tempo seco sem entrar com máquinas em áreas encharcadas.
Fonte: Pensar Agro
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