AGRONEGÓCIO
Sistema de bioflocos revoluciona criação de tilápias com menor uso de água e alta eficiência ambiental
Publicado em
20 de outubro de 2025por
Da Redação
Um estudo conduzido pela Embrapa Meio Ambiente (SP), em parceria com a Itaipu Binacional (PR), confirmou que o sistema de bioflocos (BFT) é uma alternativa sustentável e econômica para a criação intensiva de tilápias. A tecnologia permite alto aproveitamento de nutrientes, baixo consumo de água e menor risco de poluição ambiental, tornando-se uma ferramenta estratégica diante dos desafios da produção de proteína animal.
Alta produtividade com baixo consumo de água
Durante 70 dias de cultivo experimental em tanques circulares de 4,2 m³, pesquisadores produziram cerca de 5 mil alevinos de tilápia por tanque, com densidade média de 395 peixes por metro cúbico.
De acordo com Tainara Blatt, técnica agrícola da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Foz do Iguaçu (PR), o sistema registrou taxa de sobrevivência de 98%, peso médio final de 20,4 g e conversão alimentar de 1,05, ou seja, 1,05 kg de ração para cada quilo de peixe produzido. “Esses resultados mostram o excelente desempenho zootécnico e a eficiência alimentar do sistema BFT, impulsionada pelo consumo do floco microbiano, rico em proteínas e bactérias probióticas”, explicou.
Reciclagem de nutrientes e menor impacto ambiental
A análise de balanço de massa mostrou que o sistema reteve 45,4% do nitrogênio, 46,3% do fósforo e 29,7% do carbono presentes na ração. Ao final do ciclo, as cargas residuais por tonelada de peixe foram de 10,24 kg de fósforo, 46,63 kg de nitrogênio e 442,47 kg de carbono — valores muito inferiores aos observados em tanques-rede, que podem liberar até 18,25 kg de fósforo e 700 kg de carbono por tonelada.
“O BFT recicla nutrientes com eficiência, reduzindo drasticamente o potencial de poluição dos corpos d’água”, destacou o pesquisador da Embrapa Hamilton Hisano. A tecnologia utiliza apenas 135 litros de água por quilo de tilápia produzida, o que aumenta a biossegurança e favorece sua adoção em regiões de escassez hídrica ou áreas urbanas.
Monitoramento contínuo e controle da qualidade da água
A água dos tanques foi monitorada constantemente para avaliar temperatura, oxigênio dissolvido, sólidos suspensos e nutrientes. O equilíbrio do sistema foi mantido com a adição de açúcar como fonte de carbono, mantendo a proporção C:N em 12:1, o que estimulou o crescimento bacteriano em detrimento das algas.
O nível de clorofila-a diminuiu ao longo do cultivo, comprovando o controle microbiano eficiente. Segundo os pesquisadores, o sistema fechado de bioflocos reduz o risco de escape de espécies e contaminação ambiental, obtendo impacto ambiental moderado (nível 4) em indicadores de sustentabilidade.
Desafio: alto consumo de energia
Apesar das vantagens ambientais, os pesquisadores André Watanabe e Celso Buglione, da Itaipu Binacional, apontaram o elevado consumo energético como principal desafio. O gasto foi estimado em 114,6 megajoules por quilo de peixe produzido, devido à necessidade de aeração contínua.
Para ampliar o uso do BFT, os especialistas defendem investimentos em energias renováveis e na modernização dos equipamentos de aeração e monitoramento.
Resíduos podem gerar novos produtos sustentáveis
Outro destaque do estudo é o reaproveitamento dos resíduos sólidos gerados pelo sistema. Eles podem ser transformados em fertilizantes agrícolas ou ingredientes para rações, agregando valor e promovendo circularidade na aquicultura.
Os pesquisadores defendem que futuras análises de ciclo de vida e pegada de carbono possam ampliar a compreensão dos impactos ambientais da piscicultura com bioflocos.
Produtores aprovam a tecnologia
A pesquisa com bioflocos na Embrapa começou em 2013 e ganhou novo impulso com a parceria da Itaipu. Durante o International Fish Congress & Fish Expo Brasil (IFC 2025), em Foz do Iguaçu, um dia de campo apresentou o sistema a produtores, técnicos e estudantes.
O produtor Valério Angelozi afirmou que pretende aplicar as técnicas aprendidas em sua propriedade: “O sistema reutiliza a água, melhora o bem-estar dos peixes e reduz perdas. É uma tecnologia viável e sustentável”.
O técnico da Embrapa Aníbal Santos ressaltou que o evento aproxima produtores das inovações tecnológicas, fortalecendo futuras parcerias. Já o produtor Flávio Cesar Urizzi, da SJ Fish, destacou que os resultados do estudo coincidem com a experiência prática dos piscicultores. “O BFT mantém alimento sempre disponível, produzindo peixes mais fortes e de melhor qualidade”, afirmou.
Tecnologia estratégica para o futuro da aquicultura
Os resultados obtidos confirmam o BFT como uma solução técnica e ambientalmente viável para intensificar a produção de tilápia com menor impacto ecológico. O sistema alia uso racional da água, reciclagem de nutrientes e controle sobre resíduos, alinhando-se às demandas globais por segurança alimentar e sustentabilidade.
Segundo os pesquisadores, o avanço da tecnologia depende de investimentos contínuos em pesquisa e inovação, fundamentais para consolidar o Brasil como referência em aquicultura sustentável.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Brasil importa 73% das vacinas contra doença fatal no gado
Published
10 minutos agoon
3 de setembro de 2026By
Da Redação
O Brasil colocou no mercado 9,98 milhões de doses de vacinas contra clostridioses em agosto, mas quase três em cada quatro vieram do exterior. Os dados mostram que a oferta mensal se manteve próxima de 10 milhões de doses, enquanto a produção nacional perdeu participação e aumentou a dependência das importações para proteger os rebanhos.
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), 7,30 milhões de doses disponibilizadas no mês passado foram importadas, o equivalente a 73,16% do total. As fábricas brasileiras forneceram 2,68 milhões de doses, ou 26,84%.
Em julho, haviam sido colocadas no mercado 10,16 milhões de doses, das quais 60,31% eram importadas. Na passagem de um mês para o outro, a oferta total diminuiu 1,7%, mas a produção nacional caiu aproximadamente 34%. As importações cresceram 19% e sustentaram o abastecimento.
O balanço não significa necessariamente que as vacinas chegaram de forma regular a todas as regiões. O número divulgado pelo governo corresponde às doses liberadas para comercialização, e não à quantidade efetivamente vendida, distribuída em cada Estado ou aplicada nos animais.
O acompanhamento mensal começou depois de uma escassez registrada no início do ano. Fabricantes interromperam a produção e a comercialização de imunizantes entre o fim de 2025 e janeiro de 2026, reduzindo a oferta em um mercado já concentrado. Desde então, o governo passou a acelerar a análise de lotes importados e a negociar com as empresas a ampliação da produção.
As clostridioses não são uma única doença. O nome reúne diferentes enfermidades provocadas por bactérias do gênero Clostridium e, principalmente, pelas toxinas produzidas por esses microrganismos. Entre as mais conhecidas estão o botulismo, o carbúnculo sintomático, chamado no campo de manqueira, a gangrena gasosa, a enterotoxemia e o tétano.
Essas bactérias conseguem formar esporos resistentes, que permanecem por longos períodos no solo, na água, em restos de animais e no ambiente das propriedades. Em determinadas condições, os microrganismos se multiplicam ou produzem toxinas que atingem o sistema nervoso, os músculos ou o aparelho digestivo dos animais.
No botulismo, a toxina provoca paralisia progressiva, dificuldade para caminhar e engolir e, nos casos graves, parada respiratória. A contaminação pode ocorrer pelo consumo de água ou alimento impróprio e pelo contato com restos de animais em pastagens, silagens ou suplementos.
O carbúnculo sintomático atinge principalmente bovinos jovens e bem alimentados. A doença provoca febre, dificuldade de locomoção e inchaço dos músculos. A evolução é muito rápida e a mortalidade pode se aproximar de 100%. Em muitas ocorrências, o animal é encontrado morto antes que o produtor perceba sinais claros.
A enterotoxemia está associada à produção de toxinas no intestino e pode surgir após mudanças bruscas na alimentação, especialmente em sistemas intensivos. O tétano e a gangrena gasosa estão relacionados à contaminação de ferimentos, inclusive aqueles provocados por procedimentos de manejo.
As clostridioses geralmente não se espalham entre os animais da mesma forma que uma virose altamente contagiosa. O risco está na presença dos agentes no ambiente e na dificuldade de tratamento. Como a evolução costuma ser rápida, a vacinação preventiva é considerada a principal forma de controle.
O prejuízo começa com a morte do animal, mas não termina nela. O produtor perde o valor investido em genética, alimentação, medicamentos, mão de obra e tempo de criação. Também pode ter gastos com diagnóstico, descarte da carcaça, atendimento veterinário e revisão do manejo sanitário e nutricional.
Pelos preços atuais, um bezerro vale cerca de R$ 3,4 mil. Um bovino terminado com 18 arrobas pode superar R$ 6,2 mil, considerando a cotação do boi gordo próxima de R$ 347 por arroba. Em confinamentos, a perda inclui ainda toda a alimentação consumida até o momento da morte, o que torna o prejuízo maior conforme o animal se aproxima do abate.
Levantamentos realizados em confinamentos colocam as clostridioses entre as principais causas sanitárias de mortalidade. Em propriedades sem vacinação adequada, surtos de botulismo ou manqueira podem atingir vários animais em poucos dias e comprometer o resultado de um lote inteiro.
Não existe uma estimativa oficial consolidada do prejuízo anual provocado por essas doenças em todo o País. O impacto nacional ocorre pela soma das mortes nas propriedades, da menor produção de carne e leite e do aumento das despesas sanitárias. Diferentemente da febre aftosa, as clostridioses não costumam provocar o fechamento generalizado de mercados internacionais, mas reduzem a eficiência econômica da pecuária.
Com um rebanho de aproximadamente 238 milhões de bovinos, além de milhões de ovinos e caprinos que também podem ser imunizados, o Brasil precisa de oferta contínua. Uma única aplicação nem sempre completa a proteção. Animais vacinados pela primeira vez geralmente precisam de dose inicial e reforço, conforme a idade, o produto utilizado e a orientação do médico-veterinário.
Por isso, não é possível comparar diretamente as quase 10 milhões de doses liberadas em agosto com o tamanho total do rebanho e concluir que o volume é suficiente ou insuficiente. A necessidade varia ao longo do ano e depende do histórico de vacinação, da categoria animal e dos riscos presentes em cada propriedade.
A retomada das importações reduziu o risco imediato de falta, mas a queda da produção nacional mantém o setor exposto a atrasos logísticos, oscilações cambiais e problemas nos países fornecedores. O desafio agora é garantir que a oferta permaneça regular e chegue às regiões pecuárias antes de ocorrerem falhas nos calendários de imunização.
O Mapa informou que trabalha com a indústria para ampliar a fabricação no País, viabilizar as importações e acelerar a fiscalização e a liberação dos produtos. Para o produtor, a orientação é não substituir ou adiar o protocolo por conta própria e procurar o médico-veterinário responsável para definir a vacina e o calendário adequados ao rebanho.
Fonte: Pensar Agro
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