AGRONEGÓCIO
Novo Zoneamento de Risco Climático redefine áreas aptas ao cultivo de cana-de-açúcar no Brasil
Publicado em
27 de janeiro de 2026por
Da Redação
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) publicou as novas portarias que atualizam o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para a cultura da cana-de-açúcar em sistema de sequeiro — voltada à produção de etanol, açúcar e outros derivados.
Essa é a primeira revisão do modelo desde a revogação do antigo Zoneamento Agroecológico da Cana (ZAE Cana), em 2019.
Metodologia atualizada amplia precisão das análises
A última versão do Zarc havia sido publicada em 2018.
Agora, os pesquisadores da Embrapa utilizaram uma metodologia revisada de cálculo de risco climático, incorporando novas classes de solo e uma série histórica climática mais recente, que cobre o período entre 1992 e 2022.
Além disso, o novo modelo passou a incluir municípios que antes estavam sob restrição de acesso a crédito público, conforme determinava o antigo ZAE Cana.
Segundo o pesquisador Santiago Cuadra, da Embrapa Agricultura Digital, as mudanças foram pontuais:
“Mesmo com a liberação de municípios da Amazônia e do Pantanal, as alterações foram pequenas. O excesso de chuvas na Amazônia e as altas temperaturas no Pantanal continuam limitando o cultivo nesses biomas”, explica.
Aptidão da cana segue concentrada no Centro-Sul do país
A cana-de-açúcar exige um período de cerca de seis meses de estiagem para viabilizar a colheita — condição que não ocorre na maior parte da Amazônia.
No Pantanal, as temperaturas elevadas também dificultam o desenvolvimento da cultura.
Municípios de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul que possuem áreas fora da planície pantaneira foram parcialmente incluídos, enquanto os que têm maior extensão dentro do bioma permaneceram fora da recomendação.
A área plantada com cana no Brasil tem oscilado entre 9,1 e 10,2 milhões de hectares nos últimos dez anos.
A região Centro-Sul concentra a maior parte da produção, com destaque para São Paulo (50%), Goiás (11%) e Minas Gerais (10%).
Produção familiar e outros usos ganham mais espaço
O Zarc de cana para outros fins — como cachaça, melaço e forragem animal — teve ampliação de abrangência, especialmente em áreas ligadas à agricultura familiar.
As restrições permanecem no semiárido nordestino, devido à escassez de água, e em regiões mais altas de Santa Catarina e sul de Minas Gerais, onde há ocorrência frequente de geadas.
Critérios de risco e produtividade orientam o novo zoneamento
O novo Zarc classifica as áreas em três níveis de risco de perda:
- até 20% (baixo risco),
- 30%,
- 40%,
e acima de 40%, faixa em que não há recomendação de plantio.
A avaliação considera fatores como armazenamento de água no solo, regime de chuvas, probabilidade de geadas e excesso ou falta de precipitação.
A produtividade de referência utilizada foi de 65 toneladas por hectare, com um Açúcar Total Recuperado (ATR) de 135 kg por tonelada de colmo.
Zarc: ferramenta estratégica para o crédito e seguro rural
Criado para reduzir riscos e orientar o planejamento agrícola, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) é um instrumento fundamental para o setor produtivo e financeiro.
Ele define as melhores janelas de plantio de mais de 50 culturas no Brasil, e serve como base para políticas públicas como o Proagro e o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).
Desde a safra 2025/26, o cumprimento das recomendações do Zarc é obrigatório para financiamentos de custeio acima de R$ 200 mil em linhas de crédito com recursos controlados.
Acesso facilitado para produtores
Os produtores podem consultar o zoneamento atualizado no aplicativo Zarc Plantio Certo, disponível gratuitamente para Android e iOS, ou pela versão web no endereço: embrapa.br/plantiocerto.
As portarias do novo Zarc da cana-de-açúcar em sequeiro já estão em vigor, enquanto as versões para áreas irrigadas, publicadas em 2022, continuam válidas.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
China e UE colocam R$ 28 bilhões da carne bovina sob pressão
Published
2 horas agoon
17 de julho de 2026By
Da Redação
A indústria brasileira de carne bovina chega ao segundo semestre com cerca de R$ 28 bilhões em receitas externas sob pressão. A limitação das vendas para a China pode retirar até R$ 22,95 bilhões do faturamento dos frigoríficos, enquanto a falta de uma certificação exigida pela União Europeia ameaça um mercado que movimentou aproximadamente R$ 5,1 bilhões em 2025.
A soma representa a exposição máxima das duas frentes e não uma perda integral já confirmada para 2026. No caso europeu, uma eventual interrupção começaria em setembro e atingiria apenas os embarques realizados depois da entrada em vigor das novas regras. Para a China, o cálculo considera as 748 mil toneladas que podem deixar de ser comercializadas neste ano.
A previsão da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) é que o Brasil envie cerca de 900 mil toneladas de carne bovina aos chineses em 2026. O volume corresponde a pouco mais da metade do recorde de aproximadamente 1,68 milhão de toneladas registrado no ano passado.
A redução decorre da salvaguarda adotada pelo governo chinês para proteger seus pecuaristas. O Brasil recebeu uma cota de aproximadamente 1,1 milhão de toneladas para 2026. A carne que ultrapassar esse limite estará sujeita a uma tarifa adicional de 55%, cobrança que praticamente inviabiliza a operação.
A cota não considera apenas o momento em que a carga deixa os portos brasileiros. Produtos embarcados no fim de 2025, mas desembarcados na China neste ano, também foram contabilizados no limite de 2026. Por isso, mesmo que as exportações brasileiras não atinjam fisicamente 1,1 milhão de toneladas neste ano, o espaço comercial já pode estar esgotado.
Entre janeiro e junho, o Brasil embarcou 794,6 mil toneladas aos chineses. A indústria acelerou as vendas no primeiro semestre para aproveitar a tarifa regular de 12% antes do preenchimento da cota. Esse movimento aumentou a procura pelo produto e contribuiu para elevar os preços recebidos pelos exportadores.
Com o limite praticamente consumido, frigoríficos suspenderam em julho a produção de alguns cortes destinados especificamente ao mercado chinês. As empresas aguardam o balanço oficial das autoridades de Pequim para confirmar quanto da cota ainda está disponível.
A expectativa é retomar parte dos embarques a partir da segunda quinzena de novembro. Como a viagem marítima leva aproximadamente 40 dias, a carne chegará à China em 2027 e será contabilizada na cota do próximo ano.
A perda potencial de 748 mil toneladas foi calculada com base no preço médio de cerca de R$ 31,1 mil por tonelada registrado no primeiro semestre. Isso resulta em impacto de até R$ 22,95 bilhões. O valor é superior à projeção feita no início do ano, quando se estimava uma redução de R$ 15,3 bilhões.
O problema chinês coincide com o risco de interrupção das vendas para a União Europeia a partir de 3 de setembro. O bloco retirou temporariamente o Brasil da relação de países considerados aptos a comprovar o cumprimento das novas exigências sobre o uso de antimicrobianos na produção animal.
Antimicrobianos são medicamentos utilizados para combater microrganismos, como bactérias, fungos e parasitas. Na pecuária, parte dessas substâncias é empregada no tratamento e na prevenção de doenças. Outras podem ser utilizadas para melhorar o desempenho ou a eficiência produtiva dos animais.
A regra europeia não proíbe todo tratamento veterinário. A restrição alcança o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento ou para aumento de rendimento, além de determinadas substâncias reservadas ao tratamento de infecções em seres humanos. O objetivo declarado é reduzir o risco de resistência microbiana.
O impasse brasileiro está na comprovação. Para continuar exportando, o país precisa oferecer garantias oficiais de que os animais e os produtos enviados ao bloco atendem às regras durante todo o processo produtivo. A União Europeia informou que ainda não recebeu documentação suficiente para manter o Brasil na lista de fornecedores autorizados.
Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 128 mil toneladas de carne bovina ao bloco europeu, com receita próxima de R$ 5,1 bilhões. O mercado representa cerca de 6% das vendas externas do setor, mas compra cortes de maior valor que não encontram a mesma demanda na Ásia.
Segundo especialistas da indústria, a União Europeia também funciona como uma referência sanitária e comercial. Uma suspensão pode afetar a imagem da carne brasileira e influenciar exigências adotadas por outros compradores, mesmo que o volume diretamente envolvido seja menor que o destinado à China.
O governo brasileiro tenta negociar um período de transição e apresentar um sistema de controle capaz de atender às autoridades europeias. Também está em discussão a possibilidade de restringir nacionalmente algumas substâncias, mas produtores se opõem a uma proibição ampla que alcance medicamentos autorizados e utilizados com orientação veterinária.
Uma interrupção prolongada pode levar até dois anos para ser completamente revertida. Esse período corresponde, aproximadamente, ao intervalo entre o nascimento e o abate de bovinos que precisariam ser acompanhados desde o início da vida para comprovar o atendimento integral ao novo protocolo.
A perda simultânea de espaço na China e na Europa reduz a capacidade de escoamento da produção brasileira. Outros destinos podem aumentar suas compras, mas especialistas avaliam que nenhum mercado reúne escala suficiente para absorver rapidamente o volume retirado pelos chineses.
A Abiec trabalha com uma queda de 10% nas exportações totais de carne bovina em 2026. O Brasil vendeu 3,5 milhões de toneladas no ano passado. Se a projeção se confirmar, os embarques deste ano ficarão próximos de 3,15 milhões de toneladas.
A indústria já ajusta a produção à menor demanda. Frigoríficos adotaram férias coletivas, redução de jornadas, diminuição do número de abates e, em alguns casos, cortes de trabalhadores. As dificuldades atingem empresas de diferentes tamanhos e podem acelerar aquisições de unidades menores por grupos mais capitalizados.
Para o pecuarista, o primeiro efeito tende a ser menor disputa pelos animais e pressão sobre a arroba. A carne que deixa de ser exportada pode aumentar temporariamente a oferta no mercado interno. Esse movimento, porém, não significa necessariamente preços baixos por um período prolongado.
Com margens menores e custos ainda elevados, os frigoríficos podem reduzir abates e produção. A diminuição posterior da oferta criaria um efeito inverso e poderia voltar a elevar os preços da carne ao consumidor. O tamanho dessa reação dependerá do resultado das negociações com a União Europeia e da capacidade brasileira de encontrar novos compradores para substituir parte das vendas à China.
Fonte: Pensar Agro
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