AGRONEGÓCIO
Fluorescência da nanocelulose é capaz de detectar tanino em vinho tinto
Publicado em
8 de dezembro de 2023por
Da RedaçãoPesquisadores da Embrapa Instrumentação (SP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desenvolveram uma solução aquosa, conhecida como sensor em forma líquida, que permitiu uma descoberta importante: a fluorescência de nanocristais de celulose (CNC) tem potencial para monitorar o teor de ácido tânico em vinhos tintos. A solução composta de CNC pura se mostrou eficaz para apontar a presença de tanino, um parâmetro considerado fundamental por enólogos na estrutura e características organolépticas (aroma e sabor) e ainda atuar na estabilização da cor do vinho.
A constatação de que a autofluorescência da celulose se altera na presença do ácido tânico abre caminhos para o desenvolvimento de sensores ópticos à base de nanocristais de celulose para monitorar taninos, não só em vinhos, mas em produtos alimentícios e bebidas. Na demonstração, como prova de conceito, a pesquisa detectou a molécula de tanino associada à palatabilidade em vinhos tipo Cabernet Sauvignon e Tannat.
O presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE), o enólogo Ricardo Morari, explica que os taninos são compostos fenólicos que desempenham um papel importante na composição, qualidade e potencial de envelhecimento dos vinhos tintos. Além disso, ele diz que os taninos têm a capacidade de fixar pigmentos, contribuindo para a estabilidade da cor, além de fornecer estrutura e, quando bem integrados e equilibrados, proporcionam complexidade e elegância aos vinhos.
“A possibilidade de detecção instantânea desse componente através de uma nova tecnologia poderá fornecer ao enólogo uma informação importante para que ele possa entender melhor as características e a composição do produto que está elaborando, conduzindo a elaboração de maneira a extrair o máximo do potencial e qualidade desse vinho”, avalia Morari, que atua na Cooperativa Vinícola Garibaldi, localizada em Garibaldi (RS).
Ele conta que os taninos estão associados à sensação na boca de adstringência de bebidas como os vinhos. É o que torna a textura do vinho seca, amarga e encorpada por conta do seu efeito adstringente, mas também auxilia na conservação da bebida. Eles estão presentes em cascas de uvas, sementes e nos cabinhos dos cachos, conhecidos como engaços. Mas, embora seja um importante atributo sensorial enológico na determinação das qualidades do vinho, em excesso, é considerado um antinutriente.
“Assim, a determinação de tanino em amostras de alimentos por métodos analíticos ópticos – fotoluminescência – pode ser vantajosa, uma vez que esse tipo de procedimento é rápido, elimina a necessidade de experimentos e reagentes trabalhosos, ao mesmo tempo que proporciona relativa sensibilidade e seletividade”, afirma a pós-doutoranda Kelcilene Teodoro, que conduziu a pesquisa sob a supervisão do pesquisador da Embrapa Daniel Souza Corrêa.
Para o presidente da Associação Brasileira de Sommeliers de São Carlos, Mário Francisco Bucheroni, com esses sensores, os especialistas poderão ter uma informação a mais para a análise. “Quem sabe no futuro possa também ter informações sobre a origem, sementes, peles e barricas. Essa separação seria fundamental para o enólogo, no caso dos vinhos”, comenta o presidente.
Outra vantagem do sensor em forma líquida é que o método, em princípio, pode ser adaptado para aparelhos portáteis de fluorescência, facilitando o uso em diferentes locais.
De acordo com Teodoro, a literatura científica é escassa no que diz respeito à exploração de propriedades fluorescentes da celulose, que possam ser utilizadas em sensores químicos. “Geralmente, na área de sensores, a celulose ou a nanocelulose, embora bastante versátil, é combinada com outros materiais que desempenham o papel principal no mecanismo de detecção. Dessa forma, na maioria das aplicações, a nanocelulose atua como suporte ou substrato, enquanto sua autofluorescência inerente permanece ainda pouco explorada para aplicações em sensores”, esclarece a pesquisadora.

Infográfico Kelcilene Teodoro
“Nós buscamos ampliar o uso de nanocelulose no ramo de sensores, encontrando aplicações inovadoras para esse material, já que verificamos que sua propriedade de autofluorescência tem potencial para ser utilizada como sensor óptico, fenômeno pouco relatado na literatura”, relata Corrêa.
Rota enzimática
O estudo foi realizado no Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (LNNA), sediado na Embrapa Instrumentação, em São Carlos (SP), com a proposta de investigar o aproveitamento da propriedade de autofluorescência de nanocristais de celulose para usá-la como ferramenta na detecção dos taninos. A pesquisa integra esforços contínuos de um grupo de cientistas para promover novas aplicações aos materiais celulósicos sustentáveis frente à demanda crescente por dispositivos optoeletrônicos em um cenário automatizado.
A obtenção dos nanocristais foi realizada por rota enzimática, que é o isolamento de nanoestruturas de celulose a partir de tratamentos mediados por enzimas, a partir de cavacos de madeira de seringueira branqueados, cedidos pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócio (Apta), de Colina (SP).
De acordo com Teodoro, estudos de síntese de nanocristais de celulose (CNC – foto) a partir de hidrólise enzimática apontam tendência de menor custo energético, associados a condições experimentais de temperatura e pressão mais amenas, além da geração de resíduos menos tóxicos, em relação à hidrólise ácida com ácidos minerais. Assim, apresentam grande potencial para sustentabilidade no processo de obtenção de nanoceluloses.
Potencial sensor
Os pesquisadores testaram a aplicabilidade do sensor na forma líquida em bebidas obtidas a partir das uvas Cabernet Sauvignon e Tannat. O processo de detecção consistiu em adicionar diferentes concentrações de ácido tânico comercial à suspensão aquosa de nanocristais de celulose extraídos da madeira da seringueira. As mudanças nos espectros de fluorescência dos nanocristais de celulose foram monitoradas imediatamente após a mistura do tanino com a suspensão aquosa.
“Constatamos que a propriedade de fotoluminescência advinda de agregados de nanocristais de celulose foi capaz de identificar ácido tânico (foto) em diferentes vinhos tintos de modo eficiente, em concentrações que podem ser de interesse industrial. Observamos também que compostos, normalmente encontrados nas matrizes do vinho, não causaram alterações significativas no sinal detectado”, explica a pesquisadora.
A eficiência de aplicação do sensor em amostras de vinhos brasileiros foi validada por meio do método de medida das taxas de recuperação. “Nesse método, os dados obtidos para ácido tânico em vinhos foram comparados aos registrados para o ácido tânico em água. Os resultados alcançaram taxas elevadas de recuperação próximas a 100% – de 99,7% para o vinho Cabernet Sauvignon e 95,3% para o vinho Tannat”, conta Teodoro.
Para Corrêa, essas descobertas sugerem que os sensores ópticos baseados em nanocristais de celulose têm potencial para serem usados no monitoramento da qualidade de produtos alimentícios e bebidas. “As nanoceluloses são tradicionalmente exploradas como agentes de reforço mecânico, mas o ganho em sustentabilidade utilizando a celulose para substituir materiais tóxicos, não renováveis ou de alto custo, tem chamado a atenção das indústrias de madeira e papel, e esforços colaborativos têm surgido em todo o mundo para desenvolver novos produtos ecológicos e amigáveis”, diz o pesquisador.
Os cientistas enfatizam benefícios adicionais conferidos pela celulose à plataforma de sensoriamento, como a sua natureza atóxica, biodegradável, versátil e sustentável. Com base em suas fontes de origem e características físico-químicas, as nanoceluloses podem ser classificadas como nanocristais de celulose (CNCs), nanofibrilas de celulose (CNFs) e celulose bacteriana (BC).
O estudo “Exploring the potential of cellulose autofluorescence for optical detection of tannin in red wines” foi publicado on-line na revista Carbohydrate Polymers. Além de Teodoro e Corrêa, assinam o artigo os pesquisadores da Embrapa Instrumentação Maria Alice Martins e Luiz Henrique Capparelli Mattoso, e os bolsistas do LNNA e do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia do Departamento de Química da UFSCar Rafaela S. Andre, Maycon J. Silva e Rodrigo Schneider.
A pesquisa teve o apoio do Sistema Nacional de Laboratórios em Nanotecnologias (SisNANO), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Rede de Nanotecnologia para Pesquisa em Agricultura (Rede AgroNano) e Embrapa.
Análise sensorial
A enóloga da vinícola Terras Altas, localizada em Bonfim Paulista, distrito de Ribeirão Preto (SP), Luísa Antunes Tannure, explica que o processo atual para avaliar os taninos é realizado de forma sensorial na uva e no vinho. Na época de maturação da uva no campo, são feitas análises químicas para detectar o pH, acidez e açúcar em ºBrix, e provadas as uvas, avaliando textura e cor de sementes e cascas.
“Se as sementes estiverem com coloração marrom e crocante é um sinal de que os taninos estão com polimerização adequada. No vinho também avaliamos se a sensação na boca gerada pelos taninos está adequada”, conta a enóloga.
Ela diz que também realiza a análise de IPT (Índice de Polifenóis Totais) para medir taninos e outros compostos fenólicos sem separá-los. A análise química consiste em algumas etapas e tem início com a diluição do vinho e colocação de uma amostra em um aparelho chamado espectrofotômetro, que realiza a leitura imediata. Tannure explica que depois é feita uma conta simples, mas que não mede taninos exclusivamente.
“Como o equipamento é caro, essa análise é terceirizada, mas o custo para realizá-la é baixo. A análise geralmente é feita após a fermentação alcoólica ou malolática (feita por bactérias com a liberação de dióxido de carbono) para se obter dados do vinho no tanque e antes de engarrafar. Com isso, é possível obter um laudo do produto antes de finalizá-lo”, explica a enóloga. Ela ainda acrescenta que, para a tomada de decisões no dia a dia da vinícola, apenas a análise sensorial é suficiente. “A de IPT é importante, mas não imprescindível”, conclui.
Fonte: Embrapa Instrumentação
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Vacilos do Trump faz Brasil se aproximar da liderança mundial no agro
Published
18 horas agoon
31 de agosto de 2026By
Da Redação
A distância que durante décadas separou Brasil e Estados Unidos no comércio mundial do agronegócio praticamente desapareceu. Em 2025, os norte-americanos exportaram o equivalente a cerca de R$ 883 bilhões em produtos agrícolas, enquanto as vendas brasileiras chegaram a aproximadamente R$ 871 bilhões. Uma diferença de apenas 1,4% entre dois países que começaram este século em posições muito distantes.
Os dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram mais do que uma aproximação circunstancial. Enquanto o Brasil ampliou produção, produtividade e presença em novos mercados, as exportações norte-americanas cresceram em ritmo bem menor e passaram a enfrentar dificuldades em destinos estratégicos.
Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou R$ 871 bilhões, considerando a conversão dos valores divulgados oficialmente. Foi o maior resultado da série histórica e representou crescimento de 3% sobre o ano anterior.
Os Estados Unidos encerraram o mesmo período com aproximadamente R$ 883 bilhões em exportações agrícolas.
A diferença de cerca de R$ 12 bilhões é pequena diante do tamanho do comércio dos dois países e mostra quanto a posição relativa mudou.
No início dos anos 2000, as exportações agrícolas americanas eram mais de duas vezes e meia superiores às brasileiras. Em apenas cinco anos, enquanto as vendas externas dos Estados Unidos cresceram aproximadamente 14%, as brasileiras avançaram 68%.
O movimento continua em 2026.
Entre janeiro e julho, o agronegócio brasileiro exportou aproximadamente R$ 533 bilhões, novo recorde para o período. Somente em julho foram cerca de R$ 84 bilhões, também a maior marca já registrada para o mês.
Parte da aproximação pode ser explicada por uma diferença estrutural entre os dois concorrentes.
Os Estados Unidos possuem uma fronteira agrícola praticamente consolidada e enfrentam limitações para aumentar significativamente sua área cultivada. Na pecuária bovina, o rebanho norte-americano está próximo dos menores níveis das últimas sete décadas, situação que reduziu a disponibilidade de animais e aumentou a necessidade de importação de carne.
O Brasil ainda possui maior capacidade de crescimento da produção, seja pela incorporação de áreas já abertas, seja principalmente pelo aumento da produtividade e pela possibilidade de realizar duas ou até três safras na mesma área durante o ano.
Essa vantagem aparece com clareza na soja.
Brasil e Estados Unidos estão entre os grandes responsáveis pela oferta mundial da oleaginosa, mas o Brasil assumiu a liderança tanto na produção quanto nas exportações e passou a ocupar uma parcela crescente do mercado chinês.
A China é justamente onde a diferença entre os dois países se tornou mais evidente.
Em 2025, os chineses compraram aproximadamente R$ 285 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro. O país asiático respondeu sozinho por 32,7% de tudo o que o setor exportou.
No comércio agrícola norte-americano ocorreu o movimento contrário.
A China, que durante anos esteve entre os principais compradores dos Estados Unidos, caiu para a sexta posição entre os destinos do agro americano em 2025. As vendas recuaram 66% em apenas um ano, para aproximadamente R$ 43 bilhões.
O próprio USDA associa essa retração às tarifas recíprocas e à redução das compras chinesas de soja norte-americana.
A disputa comercial entre Washington e Pequim acelerou uma mudança que já vinha ocorrendo por razões produtivas. Diante das tarifas impostas aos produtos americanos, importadores chineses aumentaram a procura por fornecedores alternativos, e o Brasil estava em posição privilegiada para atender essa demanda.
O efeito ultrapassou a soja.
O Brasil ampliou participação internacional em carnes, algodão, milho e outros produtos agropecuários e passou a disputar mercados que historicamente tinham forte presença dos Estados Unidos.
Na carne bovina, a inversão é particularmente significativa. O Brasil consolidou-se como maior exportador mundial, enquanto os Estados Unidos, pressionados pela redução de seu rebanho, aumentaram as importações para abastecer o próprio mercado.
Essa situação levou recentemente o governo norte-americano a ampliar em 300 mil toneladas a quantidade de carne bovina magra que poderá entrar no país dentro da cota com tarifa reduzida até o fim deste ano, criando uma oportunidade adicional para fornecedores como o Brasil.
A política comercial adotada pelo governo Donald Trump acrescentou uma nova variável a essa disputa.
As tarifas impostas pelos Estados Unidos atingiram também produtos brasileiros e criaram dificuldades para cadeias que dependem mais diretamente daquele mercado. Café, carnes, suco de laranja e determinados produtos industrializados estão entre os segmentos mais expostos às decisões de Washington.
O efeito sobre o conjunto do agronegócio brasileiro, entretanto, é limitado pela diversificação dos destinos.
Em 2025, os Estados Unidos compraram aproximadamente R$ 59 bilhões em produtos do agro brasileiro, equivalentes a 6,7% das exportações do setor. A China comprou quase cinco vezes esse valor.
Essa diferença ajuda a explicar por que medidas comerciais americanas podem provocar impactos severos em determinadas cadeias sem necessariamente interromper o crescimento das exportações do agronegócio como um todo.
Também mostra por que a abertura de mercados passou a ter peso estratégico para o Brasil. Quanto maior o número de compradores disponíveis para carnes, grãos, fibras, café, frutas e produtos processados, menor a dependência de decisões comerciais tomadas por um único país.
Para o produtor rural, a aproximação dos Estados Unidos no ranking mundial não representa apenas uma disputa estatística. Mercados adicionais significam mais alternativas para escoar a produção e podem aumentar a concorrência entre compradores, especialmente nas cadeias em que o Brasil já possui grande excedente exportável.
Há, porém, um risco nessa trajetória. A crescente concentração das vendas brasileiras na China aumenta a exposição às decisões do país asiático. Quase um terço das receitas do agro brasileiro no exterior depende atualmente daquele mercado.
Por isso, o próximo passo da expansão brasileira passa não apenas por vender mais, mas por diversificar compradores e aumentar o valor agregado dos produtos exportados.
A distância para os Estados Unidos, de qualquer forma, nunca foi tão pequena. Depois de décadas perseguindo o maior exportador agrícola do mundo, o Brasil chega à segunda metade de 2026 em condições de disputar uma posição que, no início deste século, parecia muito distante.
Fonte: Pensar Agro
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