AGRONEGÓCIO
Estratégias do Governo de Minas para Combater os Efeitos da Estiagem no Campo
Publicado em
27 de setembro de 2024por
Da Redação
As mudanças climáticas, cujos impactos têm se intensificado, exigem medidas eficazes para garantir a produção agrícola e a conservação dos recursos naturais. O setor agropecuário tem buscado inovações que assegurem a sustentabilidade no campo, promovendo uma oferta constante de alimentos à população. Nesse contexto, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG) desempenha um papel crucial, implementando técnicas de convivência com a seca e auxiliando os produtores rurais a se adaptarem a essa nova realidade.
Bernardino Cangussu, coordenador técnico estadual da Emater-MG, explica que, neste ano, as mudanças climáticas se manifestaram principalmente através de um aumento na temperatura média e um significativo déficit hídrico. “Estamos em um período que, normalmente, não chove, mas os últimos meses foram atípicos, com o solo apresentando um déficit hídrico maior devido ao aumento do calor”, observa.
A proteção do solo para a recarga do lençol freático é considerada essencial para garantir uma boa produção em regiões que enfrentam estiagens frequentes. “O solo é a principal caixa de armazenamento de água que temos na propriedade”, afirma Cangussu.
Entre as técnicas incentivadas pela Emater-MG, destaca-se o uso de plantas de cobertura, que contribuem para a melhoria do solo e do sistema produtivo. Essas plantas não apenas previnem erosões, mas também buscam nutrientes em camadas mais profundas, aumentando a porosidade do solo e facilitando a infiltração de água. Desde 2021, a Emater-MG já implementou cerca de 700 unidades demonstrativas desse sistema em todo o estado, onde as plantas de cobertura são cultivadas em consórcio com culturas comerciais, como café, frutas e grãos.
“As raízes das plantas de cobertura atingem diferentes profundidades, favorecendo a aeração, quebrando a compactação do solo e incorporando matéria orgânica em camadas mais baixas. Além disso, criam galerias que facilitam a infiltração de água. A palhada que sobra após o corte dessas plantas protege o solo e reduz sua temperatura”, explica Cangussu.
Christina Ribeiro do Valle, produtora de Guaranésia, no Sul de Minas, adotou o cultivo de plantas de cobertura em seu cafezal há quatro anos, utilizando capim braquiária, girassol, nabo forrageiro e milheto. “Nunca mais deixo de usar plantas de cobertura. Se você colocar um termômetro no solo descoberto, vai marcar uns 40 graus. Com a cobertura, essa temperatura cai bastante. Além disso, no período das chuvas, as plantas de cobertura têm evitado as enxurradas que iam até a estrada, pois retêm a água”, comenta a produtora.
Outra prática disseminada pela Emater-MG é a construção de bacias de captação de água da chuva, conhecidas como ‘barraginhas’. Esses reservatórios não apenas previnem erosões causadas por enxurradas, mas também ajudam a armazenar e infiltrar a água da chuva, recarregando o lençol freático. Uma técnica similar é o terraceamento, popularmente chamado de ‘curva de nível’, que é utilizado em áreas com declive para reduzir a velocidade das enxurradas e facilitar a infiltração da água. “Quanto mais água armazenada no solo durante as chuvas, mais água disponível teremos durante a estiagem”, alerta Cangussu.
A Emater-MG também realiza ações contínuas nas propriedades rurais, incluindo o cercamento de nascentes e a recomposição das matas ciliares em rios e córregos.
Desafios no Norte de Minas
A região Norte de Minas tem enfrentado longos períodos de estiagem, sendo uma das mais afetadas do estado na última década. Um relatório agroclimático da Emater-MG revela que, entre janeiro e agosto deste ano, aproximadamente 170 mil famílias de agricultores foram diretamente impactadas pela seca. O estudo também identificou o secamento de mais de 300 cursos d’água na região, incluindo córregos, rios e reservatórios.
Como parte das ações de mitigação dos efeitos da seca, a Emater-MG está orientando mais de 50 mil produtores na produção de alimentação energética para o rebanho bovino, incluindo o plantio de forrageiras, a confecção de silagem e o incentivo ao cultivo de culturas adequadas à região, como sorgo forrageiro, palma, mandioca e cana-de-açúcar. Essas iniciativas abrangem 225 municípios, incluindo os vales do Mucuri e Jequitinhonha.
Nos últimos dois anos, em parceria com as prefeituras e a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), foram abertas 8,6 mil bacias de captação de água da chuva e construídos 257 quilômetros de terraços. Mais de 2 mil hectares de pastagens e culturas foram conservados com as ‘curvas de nível’. “Estimamos que esse conjunto de ações proporcionará a retenção e infiltração de mais de 12 milhões de metros cúbicos de água por ano”, afirma José Arcanjo Pereira, gerente regional da Emater-MG em Montes Claros.
Ele também destaca o apoio da Emater-MG na obtenção de crédito rural emergencial, na orientação técnica para projetos de abastecimento de água e nas negociações com instituições financeiras. Em janeiro de 2024, a empresa doou sementes de feijão para agricultores familiares afetados pela severa estiagem do ano anterior, beneficiando mais de 12 mil famílias, principalmente nas regiões Norte, Noroeste e nos vales do Jequitinhonha, Mucuri e Rio Doce.
Impacto das Queimadas
A prolongada estiagem, aliada ao aumento das temperaturas, favoreceu a ocorrência de queimadas em todo o país. Um levantamento da Emater-MG indica que, de julho a setembro, o fogo atingiu 110 mil hectares de pastagens em Minas Gerais, o que representa 0,5% do total do estado ocupado por pastos. Na cultura da cana-de-açúcar, 50,8 mil hectares foram afetados, equivalente a 5,97% do total. O estudo também mostrou que o fogo foi registrado em 2,1 mil hectares de café (0,26% do total) e 467 hectares de fruticultura (0,55% da área ocupada).
As áreas de florestas plantadas também sofreram, com 16,8 mil hectares atingidos por queimadas, o que representa 0,89% do total. O levantamento abrangeu 687 municípios, dos quais 447 (65,1%) registraram prejuízos nas atividades agropecuárias devido ao fogo.
Para orientar os produtores rurais sobre os riscos das queimadas, a Emater-MG lançou uma cartilha. O material alerta que o uso do fogo para qualquer tipo de manejo na propriedade deve ser autorizado pelos órgãos competentes. A cartilha está disponível para consulta gratuita na Livraria Virtual no site da empresa: www.emater.mg.gov.br.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
MP das dívidas rurais entra na reta final sem garantir renegociação aos produtores
Published
5 horas agoon
24 de agosto de 2026By
Da Redação
A Medida Provisória 1.376/2026, criada para permitir a renegociação de mais de R$ 100 bilhões em dívidas rurais, entra nesta semana em uma fase decisiva no Congresso sem que produtores tenham acesso amplo e uniforme às novas linhas de crédito. A partir de sábado (29.08), o texto passa a tramitar em regime de urgência e começa a bloquear a votação de outras matérias na Câmara dos Deputados.
O primeiro período de vigência da MP termina em 12 de setembro. O prazo pode ser prorrogado por mais 60 dias caso a votação não seja concluída, mas o calendário expõe a distância entre a urgência financeira das propriedades e o ritmo de execução da medida. A comissão mista encarregada de analisar o texto foi instalada em 12 de agosto e ainda precisa aprovar um parecer antes que a proposta siga para os plenários da Câmara e do Senado.
Enquanto o Congresso discute alterações, os produtores enfrentam dificuldades para transformar a autorização legal em contratos. A regulamentação do Conselho Monetário Nacional (CMN) foi publicada em 23 de julho, mas a portaria que permitiu ao Tesouro Nacional equalizar as taxas de juros saiu apenas em 13 de agosto, quase um mês depois da edição da MP.
A Portaria 2.423 autorizou limites próximos de R$ 25,8 bilhões para operações com juros subsidiados. Os recursos foram distribuídos entre dez bancos e sistemas cooperativos, incluindo Banco do Brasil, Banrisul, Banco da Amazônia, Banco de Brasília, Banpará, Sicoob, Sicredi, Cresol, Credicoamo e Banco DLL.
A publicação retirou um dos principais entraves regulatórios, mas não tornou a contratação automática. Cada instituição ainda precisa organizar seus procedimentos internos, verificar o enquadramento das dívidas e analisar a capacidade de pagamento, o risco e as garantias apresentadas pelo produtor. Até agora, não foi divulgado um balanço nacional consolidado que mostre quanto dos R$ 25,8 bilhões já se converteu efetivamente em contratos.
A diferença entre o volume autorizado e o tamanho do problema também aumenta a pressão. Levantamento elaborado a partir de informações do Banco Central aponta que o crédito rural acumulava R$ 197,2 bilhões em saldos considerados problemáticos em junho, equivalentes a aproximadamente 22,5% da carteira ativa.
Desse total, R$ 38,1 bilhões estavam inadimplentes, R$ 20,9 bilhões correspondiam a operações em atraso, R$ 31,6 bilhões haviam sido prorrogados e R$ 106,4 bilhões estavam em financiamentos já renegociados. Os números indicam que o valor disponível nas linhas subsidiadas poderá atender apenas a uma parcela da demanda.
O próprio Banco do Brasil, principal financiador do campo, identificou uma carteira potencial de até R$ 100 bilhões que poderia ser enquadrada na medida. O montante envolve aproximadamente 113 mil clientes, entre produtores inadimplentes e tomadores com contratos anteriormente prorrogados ou renegociados.
A MP atende produtores rurais e cooperativas de produção agropecuária que comprovem perdas em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025. Também é necessário demonstrar redução mínima de 30% da renda bruta esperada, causada por eventos climáticos extremos ou pela queda dos preços dos produtos financiados.
A comprovação depende de laudo elaborado por profissional legalmente habilitado. Esse requisito é um dos pontos questionados por representantes do setor, principalmente em regiões nas quais as perdas foram generalizadas e já reconhecidas por levantamentos oficiais, decretos de emergência e registros das próprias instituições financeiras.
Pelas regras gerais, agricultores familiares enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) podem contratar até R$ 400 mil, com juros de 6% ao ano. Para os médios produtores do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), o limite é de R$ 2 milhões, com taxa de 9%. Os demais produtores podem acessar até R$ 4 milhões, com juros de 12% ao ano.
Nessa modalidade, o prazo de pagamento chega a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação. Os juros, contudo, precisam ser pagos durante o período de carência.
Há condições melhores para produtores que comprovem perdas mais severas. Quem registrar prejuízos em pelo menos três safras, provocados por eventos climáticos extremos, e redução mínima de 40% da renda poderá obter prazo de até dez anos. Os limites chegam a R$ 500 mil no Pronaf, R$ 2,5 milhões no Pronamp e R$ 8 milhões para os demais produtores, com taxas de 5%, 8% e 11% ao ano, respectivamente.
Mesmo preenchendo os requisitos, o produtor não tem aprovação garantida. O risco das operações continua sob responsabilidade das instituições financeiras, que podem exigir novas garantias ou negar o crédito após a análise. Essa condição ajuda a explicar por que a existência de recursos autorizados não significa que todo produtor endividado conseguirá aderir.
O prazo para contratação termina em 12 de novembro. Como parte desse período já foi consumida pela regulamentação, produtores e entidades do setor alertam para o risco de concentração dos pedidos nas últimas semanas, demora na análise dos documentos e esgotamento dos limites disponíveis em determinadas instituições.
No Congresso, a quantidade de propostas de mudança revela a insatisfação com o alcance do texto original. A MP recebeu 144 emendas. Entre as alterações sugeridas estão a inclusão de mais operações de investimento, capital de giro e Cédulas de Produto Rural (CPRs), a ampliação das datas de enquadramento, a redução das exigências para comprovação das perdas e a extensão dos prazos de pagamento.
Também há pressão para que a medida contemple produtores que renegociaram contratos anteriormente, mas voltaram a perder safras, além daqueles cujas dívidas foram transferidas, cedidas ou substituídas por outros instrumentos financeiros. O desafio será ampliar o público sem elevar o custo fiscal a um nível que impeça um acordo para a aprovação.
Para o produtor, a orientação é procurar imediatamente a instituição credora e formalizar o interesse na renegociação. Contratos, extratos das operações, comprovantes de perdas, registros de produtividade, documentos fiscais e laudos técnicos devem ser reunidos antes da abertura do pedido. O protocolo da solicitação também é importante para demonstrar que a procura ocorreu dentro do prazo.
A entrada da MP em regime de urgência aumenta a pressão política, mas não resolve os obstáculos encontrados nas agências bancárias. O resultado da medida será definido menos pelo volume anunciado e mais pela quantidade de produtores que conseguirem superar as exigências, aprovar o crédito e assinar os contratos até novembro.
Fonte: Pensar Agro
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