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Comercialização da soja enfrenta desafios no Brasil em meio à estabilidade em Chicago e demanda chinesa enfraquecida

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Cenário nacional: lentidão nas vendas e pressão logística

A comercialização da soja no Brasil segue em ritmo lento, com produtores enfrentando dificuldades logísticas, gargalos de armazenagem e pressão sobre os preços em diversas regiões.

No Rio Grande do Sul, a TF Agroeconômica destaca que a comercialização tem sido impactada por perdas na produção e entraves logísticos. Os preços reportados para entrega até 7 de agosto foram de R$ 139,00 no porto (+0,72%). No interior, os valores variaram conforme a praça:

  • Cruz Alta: R$ 133,00 (pagamento 29/08)
  • Passo Fundo: R$ 133,00 (+0,76%)
  • Ijuí: R$ 132,00 (+0,76%)
  • Santa Rosa/São Luiz: R$ 132,00 (+0,76%)
  • Panambi: R$ 122,00 por saca no balcão

Em Santa Catarina, o aumento da produção estadual somado à chegada da safra de inverno está sobrecarregando a capacidade de escoamento. No porto de São Francisco, o preço da saca caiu 1,16%, sendo cotada a R$ 137,13.

No Paraná, as cotações variam conforme a região, refletindo os desafios logísticos:

  • Paranaguá: R$ 140,22 (+0,16%)
  • Cascavel: R$ 125,72 (+0,17%)
  • Maringá: R$ 126,26 (+2,08%)
  • Ponta Grossa: R$ 127,35 (+0,16%) e R$ 118,00 no balcão
  • Pato Branco: R$ 138,68

No Mato Grosso do Sul, a lentidão nas vendas é atribuída à falta de armazenagem e à dificuldade logística, que limitam a capacidade de negociação dos produtores. Os preços do spot ficaram estáveis em várias praças:

  • Dourados, Campo Grande, Maracaju e Sidrolândia: R$ 120,22 (com variação de até +0,90%)
  • Chapadão do Sul: R$ 118,69 (+0,10%)
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Já no Mato Grosso, embora o estado tenha ampliado as exportações para a China, enfrenta um gargalo logístico crítico. As cotações nas principais praças foram:

  • Campo Verde e Primavera do Leste: R$ 119,60 (+0,10%)
  • Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e Sorriso: R$ 116,77 (+0,11%)
  • Rondonópolis: R$ 119,60 (+0,10%)
Chicago: estabilidade com viés negativo e foco nos prêmios no Brasil

Na Bolsa de Chicago (CBOT), os contratos futuros da soja apresentaram estabilidade na manhã desta quinta-feira (31), refletindo a ausência de novos fatores de impacto. Às 7h20 (horário de Brasília), o contrato de setembro permanecia estável em US$ 9,75 por bushel, enquanto o de novembro recuava levemente, a US$ 9,95 por bushel.

O mercado segue cauteloso após perdas superiores a 1% na sessão anterior, influenciado pela falta de avanço nas negociações entre China e Estados Unidos — o último encontro, em Estocolmo, sequer tratou de produtos agrícolas, como a soja. Com isso, a demanda chinesa pela oleaginosa norte-americana continua fraca.

Nesta quinta-feira, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) deve divulgar os números semanais de exportações, que podem provocar reações pontuais nos contratos futuros. No entanto, as condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento das lavouras nos EUA seguem como fator de pressão sobre os preços.

Clima positivo nos EUA e queda em Chicago

Na quarta-feira (30), a soja registrou nova sessão de queda em Chicago. O contrato de agosto — referência para a safra brasileira — caiu 1,43% (14,00 cents/bushel), encerrando o dia em US$ 967,75. Já o contrato de setembro recuou 1,39%, fechando a US$ 975,75/bushel.

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Os derivados também acompanharam o movimento de baixa:

  • Farelo de soja (agosto): queda de 0,38%, a US$ 260,70/ton curta
  • Óleo de soja: recuo de 1,81%, a US$ 56,50/libra-peso

Entre os principais fatores para a queda estão as boas condições climáticas nos Estados Unidos, com previsão de chuvas acima da média nas próximas duas semanas, e a ausência da China entre os principais compradores, país que normalmente responde por cerca de 50% das exportações norte-americanas.

Analistas também avaliam a possibilidade de uma trégua tarifária de 90 dias entre EUA e China, o que pode adiar novas decisões de compra por parte dos chineses. Além disso, após recordes de importações no início do ano e o aumento dos estoques locais de farelo, a demanda chinesa tende a diminuir nos próximos meses. De acordo com o analista Wang Wenshen, as compras do quarto trimestre podem ficar abaixo do esperado caso os preços permaneçam baixos e as margens das processadoras continuem apertadas.

Prêmios continuam sustentando preços no Brasil

Enquanto Chicago enfrenta volatilidade, os prêmios de exportação no Brasil seguem em destaque, atingindo os melhores níveis do ano comercial. Esses prêmios têm sido fundamentais para estimular a comercialização da safra 2024/25 no país, compensando parte da pressão exercida pelas dificuldades logísticas e pela oscilação do mercado internacional.

Fonte: Portal do Agronegócio

Fonte: Portal do Agronegócio

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Safra recorde já não basta para garantir rentabilidade ao produtor

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A perspectiva de uma nova safra recorde encontra o produtor brasileiro diante de um desafio que cresce na mesma proporção da produção: financiar uma atividade mais tecnológica, mecanizada e intensiva em capital, num ambiente de juros elevados, margens menores e bancos mais seletivos. O avanço do crédito privado amplia as alternativas disponíveis, mas também exige profissionalização da gestão e uma análise mais rigorosa sobre o retorno proporcionado pelo patrimônio investido.

Dados do Banco Central (BC), compilados por entidades do setor, mostram que 23,5% da carteira ativa de crédito rural apresentava algum nível de problema em julho de 2026. Eram R$ 207,5 bilhões em operações inadimplentes, atrasadas, renegociadas ou prorrogadas. O indicador não representa apenas parcelas vencidas, mas revela o aumento do estresse financeiro acumulado depois de safras afetadas pelo clima, custos elevados e preços menos favoráveis.

Ao mesmo tempo, o financiamento bancário tradicional perdeu força. Em 12 meses, o volume de crédito rural concedido sem considerar instrumentos do mercado de capitais recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. A área atendida pelas linhas convencionais de custeio caiu quase 26%, de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares.

Esse espaço vem sendo ocupado gradualmente por cooperativas, tradings, fornecedores de insumos, fundos de investimento e emissões no mercado de capitais. O estoque dos instrumentos privados de financiamento do agronegócio alcançou R$ 1,34 trilhão em julho, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Somente as Cédulas de Produto Rural (CPRs) somavam R$ 580,8 bilhões, distribuídos em aproximadamente 372 mil títulos.

Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende (foto), a diversificação das fontes de recursos é necessária, mas não pode ser confundida com crédito fácil ou capacidade ilimitada de endividamento.

“O crédito privado será cada vez mais importante para complementar o Plano Safra e o financiamento bancário. O produtor, porém, precisa avaliar o custo efetivo, o prazo, as garantias exigidas e a compatibilidade das parcelas com o fluxo de caixa da propriedade. Trocar uma dívida por outra mais cara, sem corrigir a origem do desequilíbrio, apenas transfere o problema para a safra seguinte”, afirma.

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A necessidade de capital aumentou com a transformação da agropecuária brasileira. Produzir em escala passou a exigir máquinas de maior capacidade, agricultura de precisão, armazenagem, irrigação, conectividade, sistemas de gestão, insumos tecnológicos e equipes especializadas. A valorização das terras também elevou o volume de patrimônio imobilizado nas operações.

Essa evolução permitiu ganhos de produtividade e consolidou o Brasil entre os maiores fornecedores mundiais de alimentos, fibras e energia. Mas também tornou as propriedades mais sensíveis ao custo do dinheiro. Quando os juros aumentam e as margens recuam, uma atividade pode apresentar lucro contábil e, ainda assim, não remunerar adequadamente todo o capital empregado.

É nesse ponto que ganha importância o conceito de Valor Econômico Agregado, conhecido pela sigla EVA. O indicador calcula o resultado operacional do negócio depois de descontado o custo de todo o capital utilizado, inclusive recursos próprios, terras quitadas, máquinas e demais ativos.

Uma propriedade pode encerrar o ciclo com resultado positivo no balanço, mas destruir valor se o retorno obtido ficar abaixo do que aquele patrimônio poderia render em uma alternativa de menor risco. A terra própria, por exemplo, não deixa de ter custo econômico porque está quitada. Ela representa capital que poderia ser arrendado, vendido ou aplicado em outro investimento.

“O produtor sempre acompanhou produtividade, custo por hectare e preço de venda. Esses indicadores continuam fundamentais, mas já não são suficientes para medir a saúde econômica do negócio. Também é necessário saber se o resultado remunera a terra, as máquinas, o capital de giro e o risco assumido durante a safra”, diz Rezende.

A aplicação dessa análise não significa abandonar investimentos ou reduzir a produção. O objetivo é identificar quais atividades, áreas e estruturas realmente geram retorno. A avaliação pode mostrar que determinado talhão produz bem, mas possui custo elevado; que uma máquina permanece ociosa; ou que o arrendamento oferece resultado melhor do que a compra de terras financiada.

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O mesmo raciocínio vale para a contratação de crédito. Recursos obtidos a juros superiores ao retorno esperado pela atividade diminuem o valor econômico da propriedade, mesmo quando ajudam a ampliar o faturamento. Por isso, crescimento de receita, aumento de área e recorde de produção não significam necessariamente fortalecimento financeiro.

A busca por recursos privados também coloca a governança no centro das negociações. Instituições financeiras e investidores analisam demonstrações contábeis, histórico de produção, previsibilidade de caixa, endividamento, garantias, regularidade ambiental e fundiária, contratos e capacidade de gestão. Quanto maior a qualidade dessas informações, maior tende a ser a possibilidade de acessar diferentes fontes e negociar condições melhores.

“Governança deixou de ser uma preocupação exclusiva das grandes empresas. O produtor que conhece seus números, separa as contas da família e da propriedade, mantém documentos regulares e apresenta informações confiáveis reduz a percepção de risco. Isso melhora sua posição diante dos financiadores e permite comparar propostas sem decidir apenas pela disponibilidade imediata do dinheiro”, acrescenta Rezende.

O modelo de financiamento do agronegócio tende a permanecer híbrido. Crédito rural, recursos obrigatórios, cooperativas, tradings, fornecedores, fundos e mercado de capitais continuarão convivendo, cada um com custos, prazos e riscos diferentes. O desafio será combinar essas fontes sem comprometer parcelas excessivas da produção futura ou oferecer garantias incompatíveis com o valor da operação.

A safra recorde continua sendo uma demonstração da capacidade produtiva brasileira. Para que esse desempenho se transforme em renda, entretanto, o produtor precisará acompanhar não apenas quantas toneladas colhe, mas quanto valor permanece depois de remunerados todos os recursos utilizados. Em uma agricultura intensiva em capital, produzir mais é importante; produzir com retorno econômico tornou-se decisivo.

Fonte: Pensar Agro

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